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As duas caras de Bernanke

Posted By Imprensa On 19 abril, 2008 @ 11:00 am In O que deu na Imprensa,Política Econômica | No Comments

“Bernanke em seu ensaio de 2001 sugeriu uma política monetária agressiva, com elevação da taxa de juros, no entanto o banqueiro central tomou decisões opostas ao injetar mais de US$ 620 bilhões no mercado para evitar o travamento das operações de empréstimos entre instituições financeiras, reduzindo a taxa básica de juros, entre outras medidas.”

Por Luciana Sergeiro

Publicado em Valor Online [1] (restrito a assinantes)

Por Alkimar Moura*

Como pesquisador acadêmico, em um estudo de maio de 2001, Bernanke e seu colega M. Gertler propuseram a seguinte questão hipotética para um banco central operando com a regra de metas inflacionárias: deveria tal banco central se preocupar com a evolução dos preços dos ativos, mesmo quando tal evolução indicasse a formação de bolhas especulativas que, inevitavelmente, explodiriam mais à frente, como tem sido observado em todas as experiências anteriores de crises financeiras? O estudo, na verdade, é uma simulação de como deveria atuar tal banco central, submetido a dois tipos de choques: uma bolha no mercado de ações e um choque tecnológico que afetasse o preço das ações. Os resultados da simulação indicam que, se o Banco Central praticar uma política “agressiva” de metas inflacionárias, ele não deveria se preocupar com as mudanças nos preços dos ativos. Além disso, introduzir os preços das ações como variável a ser considerada pelo Banco Central, juntamente com a inflação e o hiato do produto, traz como conseqüência a redução na variabilidade do hiato do produto, mas à custa do aumento na variabilidade da inflação. Em outras palavras, bancos centrais seriam capazes de estourar as bolhas nos preços dos ativos simplesmente aumentando a intensidade da resposta da taxa básica de juros às mudanças observadas nos seus objetivos.

Sabe-se que uma pesquisa acadêmica não deve ser encarada como um resultado definitivo, pois ela constitui um achado científico oferecido à comunidade de pesquisadores para ser confirmado ou refutado por investigações posteriores, ou ainda pela própria evidência empírica. Seus resultados devem ser recebidos com muito cuidado, sobretudo se extraídos de modelos de simulações tentando replicar a cambiante realidade econômica, como é o exemplo do trabalho citado.

Na sua recente encarnação do mais importante banqueiro central mundial, responsável pelo Federal Reserve Bank, como tem atuado o Sr. Bernanke no turbilhão da atual crise financeira derivada de bolhas especulativas de mercado de ativos, no caso, os preços das residências nos Estados Unidos? Se ele fosse seguir as sugestões de seu ensaio de 2001, o acadêmico Bernanke teria implementado uma política monetária agressiva, com elevação da taxa básica de juros para estourar aquela bolha. No entanto, o banqueiro central tomou decisões surpreendentes e opostas ao sugerido na pesquisa anterior: injetou mais de US$ 620 bilhões no mercado para evitar o travamento das operações de empréstimos entre instituições financeiras; reduziu velozmente a taxa básica de juros de 4,5% ao ano em outubro de 2007 para o nível atual de 2,25% ao ano e, na medida mais heterodoxa do receituário do Fed, além de sacramentar a venda do Bear Stearns para o JP Morgan/Chase, ele abriu aos bancos de investimento o acesso aos empréstimos de liquidez do Banco Central, decisão esta que nunca havia sido tomada desde a criação do Federal Reserve, em 1913. Além disso, ele introduziu operações de empréstimos de liquidez a prazos mais longos, flexibilizando as garantias aceitas pela autoridade monetária para tais transações.

Em defesa de Bernanke, o banqueiro central, registre-se que situações anormais, com elevada probabilidade de risco sistêmico, requerem respostas fora dos padrões de operação dos Bancos Centrais. Medidas de sintonia fina da autoridade monetária são apropriadas para ajustes em épocas de normalidade, quando os mercados e as instituições financeiras enfrentam níveis de risco aceitáveis. Esta atuação do Banco Central norte-americano recebeu o apoio dos demais bancos centrais e de instituições financeiras multilaterais. Além disso, o Executivo submeteu ao Congresso dos Estados Unidos medidas com o objetivo de evitar que o país mergulhe em uma recessão, o que poderia agravar mais ainda os efeitos da crise financeira.

De outro lado, tivesse Bernanke convencido seus pares a adotar a regra de metas inflacionárias para o Fed, a reputação deste regime de política monetária teria sido seriamente abalada e, com ela, a credibilidade da autoridade monetária.

Com suas credenciais acadêmicas, o desafio agora para Bernanke é construir sua reputação como banqueiro central para dar conta de uma crise financeira que só pôde atingir a dimensão que atingiu devido, entre outras causas, à displicência dos reguladores. As decisões tomadas até agora parecem indicar que ele dispõe de flexibilidade para adaptar-se às condições críticas do momento atual. Os mercados financeiros e de capitais precisam de sua liderança para retomar suas importantes funções de alocação de capital na economia global. Oxalá ele seja capaz de fazer frente a este novo desafio.

*Alkimar R. Moura é professor de Economia da FGV/SP.


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[3] ? A questão dos impostos e juros: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/07/a-questao-dos-impostos-e-juros/

[4] ? Manifesto Grupo Crítica Econômica: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/07/manifesto-grupo-critica-economica/

[5] ? O que é política de pleno emprego?: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/07/o-que-e-politica-de-pleno-emprego/

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