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Blog do Desemprego Zero

Além da estagnação?

Escrito por Imprensa, postado em 23 dEurope/London abril dEurope/London 2008 Imprimir Enviar para Amigo

Seguem abaixo dois artigos, o primeiro escrito por Marcelo Dantas, enfatiza que o governo segue investindo pouco, gastando mal, a Selic alta atrai fluxos financeiros especulativos e valoriza o câmbio prejudicando os exportadores. Em seguida, o artigo publicado por Vinícius Torres Freire, destaca também o câmbio valorizado, a situação das contas externas e os problemas que poderão ocorrer em conseqüência disso.

Por Katia Alves


Publicado originalmente na Folha

Por Marcelo O. Dantas

Estamos diante de uma recuperação episódica ou de fato resgatamos a capacidade de crescer de modo sustentado?

EM 2007, o Brasil voltou a crescer.

A taxa de expansão do PIB (5,4%), embora inferior à de outras economias emergentes, rompeu importante barreira psicológica. As projeções para 2008 apontam um aumento do produto interno na faixa dos 5%. Cabe perguntar: estamos diante de uma recuperação episódica ou de fato resgatamos a capacidade de crescer de modo sustentado? Nossa história recente ajuda a elucidar a questão. Em 1984-1985, após três anos de dura recessão, o Brasil esteve a ponto de retomar o desenvolvimento. Tínhamos uma infra-estrutura moderna e uma base industrial renovada. A democracia voltara e, com ela, a confiança no futuro. O desafio consistia em superar o nó financeiro do endividamento externo e interno.

Não era tarefa impossível, mas uma mistura de oportunismo político e soberba heterodoxa (manipulação do congelamento de preços; descontrole fiscal; desatenção para as variáveis externas da economia; fé excessiva em uma economia fechada) levou ao malogro do Plano Cruzado. O PMDB venceu as eleições de 1986 e o país mergulhou na hiperinflação. Frustração semelhante tornou a ocorrer após a boa performance de 1994-1995. FHC herdara de seu antecessor uma economia estabilizada e um país cheio de otimismo. A base governista vinha aprovando todos os projetos apresentados pelo Planalto. O Brasil poderia ter retomado o crescimento sustentado de longo prazo. Novamente, uma conjunção de interesses políticos e “hybris” tecnocrática (abandono das reformas estruturais em prol da reeleição; âncora cambial; juros exorbitantes; cerceamento do investimento público em infra-estrutura) jogou por terra a oportunidade. As crises externas de 1997-1998 somente contagiaram o Brasil porque, no biênio anterior, o governo do PSDB fizera apostas equivocadas.

Repetirá o governo Lula os erros das gestões anteriores? Vejamos. O crescimento atual deriva destes fatores: 1) forte expansão da demanda externa; 2) aumento do consumo interno (maior salário-mínimo, crédito facilitado à classe média); 3) redução modesta dos juros nominais; 4) aumento tímido do investimento público (PAC). É uma recuperação de caráter keynesiano, ainda sem a marca do crescimento endógeno estruturado. No horizonte, nuvens se acumulam. A turbulência na economia norte-americana ameaça esfriar o ritmo de expansão da demanda internacional, derrubando os preços das commodities. No plano interno, a carga tributária atingiu níveis insuportáveis (37% do PIB), minando a capacidade de expansão do setor privado.

O governo segue investindo pouco e gastando mal. A infra-estrutura do país foi sucateada. Não bastasse isso, o Copom teima em manter a Selic muito acima das taxas de juros praticadas internacionalmente. Isso atrai fluxos financeiros especulativos, fomentando uma valorização artificial do real que encarece nossos produtos e prejudica o exportador. O saldo comercial brasileiro caiu 67% no primeiro trimestre.

O impacto sobre as transações correntes não tardará. É uma política insensata, que o próprio FMI tem criticado. Inabaláveis, os ortodoxos do BC decidem elevar a Selic em 0,5%, revertendo a trajetória de queda nominal dos juros. Supõem que, assim, eliminarão supostas pressões inflacionárias, via desestímulo ao consumo e inviabilização do investimento produtivo. Tal decisão, somada à possível queda das exportações, terá forte efeito recessivo. Seu impacto sobre as contas públicas será devastador. Em lugar de acalmar os mercados, ela os tornará ainda mais voláteis. Fazenda e Planejamento anunciam, entretanto, cortes orçamentários lineares que mascaram o crescimento de gastos politicamente motivados. A medida equivale a trocar despesas ruins por despesas piores. Já os economistas do PT sugerem como remédio o aumento de impostos, desatentos ao imperativo da otimização de recursos escassos. Seu projeto para a nação consiste em defender o assistencialismo eleitoral, inchar a máquina pública e festejar os excessos cometidos pelo MST.

Para seguirmos crescendo, precisamos exorcizar os fantasmas do passado. Se a formação bruta de capital fixo (13,4% em 2007) não aumentar, o crescimento atual terá pernas curtas. Mas, para que os investimentos avancem, será preciso conter os gastos correntes do governo e reduzir a carga tributária. Do mesmo modo, para que os juros internos caiam e o câmbio encontre seu patamar natural, sem gerar desequilíbrios, o rigor fiscal terá de ser redobrado. Se queremos ir além da estagnação, precisamos fazer com que o Brasil produtivo se imponha ao Brasil improdutivo.

O esdrúxulo real forte

Por Vinícius Torres Freire

Publicado na Folha

País vive situação em tese esquisita de valorização da moeda e déficit externo em alta. “Agora é diferente”?

POR QUANTO tempo a economia brasileira deve permanecer numa situação, em teoria um tanto esdrúxula, na qual a moeda nacional se valoriza enquanto o déficit em conta corrente cresce, em regime de câmbio flutuante? É óbvio que, na prática, situações em tese e em teoria esdrúxulas perduram. É também claro que a variação da taxa de câmbio depende de um monte de outros fatores, entre eles o sobrenatural de almeida e o especulador da silva. A gente no Brasil e no resto do mundo, porém, está curtida de saber que déficit em conta corrente em alta jamais foi uma história que acabou bem no país, dando de costume em inflações e em colapsos de pagamentos externos.

Mas agora, inédito na história, temos um câmbio relativamente livre e um Banco Central quase completamente solto. Que bicho vai dar? Depois de quase meia década, faz poucos meses o país voltou a ter déficit em conta corrente, enquanto o real se fortalece. A experiência é recentíssima, e o déficit ainda é bem pequeno. Mas, quanto mais o real se valoriza, menor em tese é a expectativa de que ele possa se valorizar mais, ainda mais com déficit em alta, embora não em desabalada carreira.

Turquia e África do Sul, embora com déficits grandes e situações mais confusas, acabam de passar por essa experiência de ter a moeda queridinha e depois entrarem em desvalorização forte, como agora. Por enquanto, o dinheiro flui para o Brasil devido ao preço de suas exportações (commodities caras), devido ao crescimento mais forte, devido à diferença grande entre os juros do país e os do resto do mundo, devido à estabilidade financeira e à relativa falta de opções globais de investimento, dadas as baixas rentabilidades e o caos nas finanças do mundo rico. Sem maiores solavancos nesses fatores, diz-se que pode haver um caminho suave para a desvalorização do real, mesmo que o déficit externo continue a crescer.

O que pode ocorrer é o “represamento” de uma inflação derivada do câmbio: quando o real vier a se desvalorizar, caindo de um patamar muito alto, preços de bens cotados em moeda forte (“comercializáveis” no mercado externo) tendem a subir, “tudo o mais constante”. A taxa de câmbio real efetiva (descontada a inflação e ponderada pela variação das moedas dos países com os quais o Brasil comercia), porém, voltou a piorar com força depois da acalmada de meados do ano passado. Não é o caso ainda da alta do real de 2006, por exemplo, mas estamos nesse caminho. A rentabilidade dos exportadores piorou na mesma toada. Em tese, de resto, o preço das exportações brasileiras deve cair com o desaquecimento mundial, o qual deve durar até 2009. E estamos consumindo muito da nossa produção exportável, além de importarmos ainda mais. Enfim, algumas pressões essenciais no sentido da desvalorização do real em tese estão aumentando, e o nível de incertezas e de reviravoltas externas é alto.
Será um fato positivamente inédito se o país conseguir sair dessa sem choques no câmbio. Mas que a situação está ficando perigosamente esdrúxula, está. Ainda mais com a descoordenação explícita na política macroeconômica (fiscal e monetária) e dada a inexistência de projetos de melhorias microeconômicas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



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