”Tenho muitas idéias, só não tenho caneta”
Publicado originalmente na Revista ISTOÉ – Independente, em 25/03/2008
Por Rudolfo Lago e Octávio Costa
O ministro diz que há uma nova classe média no País, mestiça e morena, e defende a idéia de o Estado impor o capitalismo
Pelo corredor, circulam diversos soldados e oficiais. Atrás de uma grande porta de carvalho, do centro de uma ampla sala, emerge um senhor de cabelos brancos cortados à escovinha, forte sotaque americano, terno escuro e grossa corrente de um relógio de bolso presa ao colete. O ministro da Secretaria de Planejamento de Longo Prazo é o primeiro civil a despachar numa sala dentro do prédio do Comando do Exército, na Esplanada dos Ministérios. O excelente relacionamento com as Forças Armadas tem sido uma das maiores surpresas de Roberto Mangabeira Unger na sua primeira experiência de governo. Acadêmico de esquerda, o ministro passou boa parte de sua vida nos EUA, onde se tornou um respeitado professor de direito na Universidade de Harvard – mas nunca deixou de pensar o Brasil. Depois de diversas tentativas de ingressar na política brasileira (foi, por exemplo, guru de políticos como Leonel Brizola e Ciro Gomes), Mangabeira Unger chegou ao poder pelas mãos do vice-presidente José Alencar. Agora, ele tem pela frente alguns desafios. Precisa convencer os brasileiros de que por trás da figura exótica de fala enrolada não há um professor aloprado, mas alguém com conteúdo. E de que suas propostas não são um amontoado de quimeras inexeqüíveis, mas um modelo possível e que pode começar a ser realizado desde já. Os militares parecem ter aceitado as suas idéias. Falta convencer o restante da sociedade. À ISTOÉ Mangabeira Unger explicou seu modelo para o Brasil.
ISTOÉ - Qual é a fórmula que o sr. preconiza para o País?
Roberto Mangabeira Unger – Eu fui convocado pelo presidente para a tarefa de ajudar a formular e debater um novo modelo de desenvolvimento para o País. Tradicionalmente, os setores avançados e internacionalizados da economia brasileira crescem e geram riqueza. E parte dessa riqueza é usada para financiar programas sociais. Agora, a Nação quer mais do que isso. Sou um inconformado com essa visão de Suécia tropical, de que esse é o único modelo possível a ser seguido. É preciso que se busque um modelo de desenvolvimento na ampliação dessas oportunidades de inclusão, não apenas de políticas compensatórias. Meu trabalho divide-se em duas vertentes. A primeira é a da visibilidade prática e política. A segunda é a da fecundidade transformadora. Escolhi essas iniciativas em cinco grandes campos: oportunidade econômica, oportunidade educativa, gestão política, Amazônia e Defesa.
ISTOÉ – E na economia, qual é a idéia?
Mangabeira – Estamos trabalhando com os ministros da Ciência e Tecnologia e do Desenvolvimento, Indústria e Comércio a formulação de uma nova política industrial. Nós temos hoje uma política voltada para as grandes empresas, enquanto a realidade econômica é de um grande número de pequenas empresas e empreendimentos emergentes que não são assistidos. Então, precisamos criar o que chamo de política industrial de inclusão.
ISTOÉ – O que é isso?
Mangabeira – Uma política industrial voltada para o mundo dos emergentes, que compreenda as mudanças que estão acontecendo na economia do País. Crédito, formação de quadros e incremento tecnológico. Isso é fundamental. Nós temos que ter uma Embrapa industrial.
ISTOÉ – Uma Embrapa industrial?
Mangabeira – Uma empresa nos moldes do que faz a Embrapa na agricultura para a difusão de tecnologia industrial. Uma rede que difunda junto aos empresários novas técnicas, modelos e aprimoramento de mão-de-obra. Nós estamos ameaçados de ficar imprensados entre os países de trabalho barato e os países de produtividade alta, sem espaço nem em um nem no outro lado. Eu tenho argumentado que temos de optar pelo lado da valorização do trabalho e não pelo achatamento salarial. Nós não temos futuro como uma China com menos gente. Nós temos que resgatar da informalidade os 60% de trabalhadores brasileiros que trabalham nas sombras, isso é um desastre para o País. Não apenas um desastre econômico, mas político e moral.
ISTOÉ - O que o Sr. chama de estimular não seria uma intervenção do Estado na economia?
Mangabeira – Não é apenas pensar o Estado como interventor na economia, mas como indutor da economia que queremos. Usar o Estado para fazer o mercado. Para estimular e radicalizar a concorrência. Para impor o capitalismo desejado. Para construir o mercado que se quer. Para que mais gente tenha acesso ao mercado, e de mais maneiras. Leia o resto do artigo »