- Blog do Desemprego Zero - http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero -
O PROBLEMA MAIS URGENTE DO BRASIL HOJE: Câmbio ultra-valorizado, EUA agradece
Posted By NOSSOS AUTORES On 11 março, 2008 @ 2:54 pm In Bruno Galvão,Desenvolvimento,Política Econômica,Propostas de Mudanças para o Banco Central | 9 Comments
Bruno Galvão *
As importações do Brasil vem crescendo a um ritmo de mais de 50% ao ano. Esse é um caso raríssimo na história mundial: um país que cresce apenas 5% ao ano e as importações crescem a mais de 50% ao ano. Desde 2004, as importações brasileiras cresceram significativamente mais do que da China. Apesar, do crescimento medíocre da economia brasileira (em 2005, dos países da América Latina, o Brasil só cresceu mais do que o Haiti, e em 2006, o Brasil também cresceu muito pouco).
Como o Luis Nassif disse:
“A proposta dos Bancos Centrais, de articulação contra a crise, lembra a parceria proposta pela galinha à vaca, de montarem um bife a cavalo: a galinha entrando com o ovo e a vaca com a carne.O Brasil está sendo muito bem visto na reunião porque tem aumentado suas importações e reduzido suas exportações. Segundo autoridades internacionais, será fundamental para ajudar os Estados Unidos a equilibrar suas contas.Na hora em que o déficit se aprofundar mais, seremos taxados internacionalmente como irresponsáveis.”
Os EUA e a China poderiam dizer: “Obrigado, otário”. Enquanto os principais países do mundo (China, EUA, Japão, Tigres Asiáticos) brigam para que o outro valorize ou para evitar a valorização da sua moeda. O Brasil faz isso sozinho.
É mentira que a moeda brasileira está valorizando tanto porque é uma onda de desvalorização do dólar. É fato que as principais moedas do mundo estão se valorizando em relação ao dólar. Mas, a moeda brasileira foi de longe a que mais se valorizou. A regra tem sido a valorização de cerca de 30% ou menos. O real valorizou em mais de 100%.
E, muitos países emergentes, têm evitado a valorização da sua moeda (México, Venezuela, Argentina, Ucrânia, Vietnã, Cazaquistão, Indonésia). Os gráficos sobre a valorização das moedas podem ser vistos no seguinte site http://finance.yahoo.com/currency?u [1]
O problema do câmbio Brasil é político: i) a esquerda é contra um câmbio competitivo porque não gosta de industrial e acha que se eles falirem tanto faz para o Brasil; ii) a classe média adora viajar para o exterior e comprar importados; iii) a imprensa tem dívida em dólar; iv) os agriculatores não estão preocupados com o dólar, porque os preços das commodities agrícolas duplicaram; v) a teoria econômica postula que a taxa de câmbio não importa; vi) a esquerda acredita que câmbio ultra-valorizado significa aumento do salário real, vii) os conservadores acham que a indústria brasileira tem mais que quebrar mesmo, pois é ineficiente; viii) a atual valorização das matérias-primas faz com que o mito de que o país deveria se especializar na produção de bens primários volte com força; ix) os economistas heterodoxos estão focados na discussão sobre controle de câmbio, como se a taxa de câmbio não importasse.
Estamos com três semanas seguidas de déficit comercial. O déficit na balança de serviços e renda deve ser significativamente maior do que US$ 30 bilhões este ano. Se caminharmos para o déficit comercial, teríamos a mais espetacular deterioração da conta corrente em nossa história, em um período que os preços das principais exportações do Brasl estão no maior nível em décadas. Mas, a sociedade e o governo se comportam como se nada estivesse acontecendo.
Blog do Nassif [2]
Análise de caso
Por Maurício
Nassif,
mais uma vez, pra sustentar os seus argumentos vou dar o exemplo da minha pequena empresa de exportação de serviços de TI. No início do ano passado fechei um contrato de serviço com uma empresa nos EUA por 1 US$ = R$ 2,1. Demorou meses, uma viagem, demonstrações, protótipos e muitos telefonemas pra convencer que eu podia fazer o serviço aqui, etc.
Não preciso dizer que ao longo do ano tomei um baita prejuizo pois pra competir com outros fornecedores, principalmente na Europa Oriental, tive que minimizar minhas margens. Enfim, no início desse ano depois de não ter ganho nada, tentei renegociar um ajuste pra compensar a queda do Real e obtive a seguinte resposta, literalmente: “Infelizmente seu custo está alto, vamos contratar na Ucrânia que é quase 50% mais barato agora”.
Com o câmbio atual não consegui pegar nenhum cliente mais nos EUA até o momento, perdi os contatos e provavelmente nunca mais consiga voltar, apesar de ter tido bastante sucesso no serviço.
Não concordo com o governo que diz que temos que “nos virar”, não posso pagar pessoas competentes aqui com uma competição global tão acirrada, de tantos outros países e ainda por cima com qualificações técnicas excelentes.
Nosso competidor na Ucrânia por exemplo, cobra US$ 3000 por mês por desenvolvedores com mestrado e especialização, alguns até com cursos em engenharia aeroespacial e matemática avançada pra você ter uma idéia (tive acesso aos currículos).
* Bruno Galvão dos Santos: Economista pela UFMG, mestre em economia pelo Instituto de economia da UFRJ. Doutorando pela mesma instituição. Meus artigos [3]
Article printed from Blog do Desemprego Zero: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero
URL to article: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/03/o-problema-mais-urgente-do-brasil-hoje-cambio-ultra-valorizado-eua-agradece/
URLs in this post:
[1] http://finance.yahoo.com/currency?u: http://finance.yahoo.com/currency?u
[2] Blog do Nassif: http://www.projetobr.com.br/blog/5.html
[3] Meus artigos: http://desempregozero.org/category/todos-nossos-autores/bruno-galvao/
[4] Será que a política do desastre econômico é melhor do que a do sucesso?: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/08/china-e-ex-uniao-sovietica-qual-a-melhor-politica-economica/
[5] Avaliação da política monetária-cambial do Brasil: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/08/avaliacao-da-politica-monetaria-cambial-do-brasil/
[6] Arranjos Produtivos Locais - APL e Desenvolvimento: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/01/arranjos-produtivos-locais-apl-e-desenvolvimento/
[7] A FARRA DA TAPIOCA: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/01/a-farra-da-tapioca/
[8] Mais comentários sobre a Tapioca: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/02/mais-comentarios-sobre-a-tapioca/
[9] : http://desempregozero.org/2008/03/11/forte-pero-no-mucho-entrevista-com-paulo-nogueira-batista-jr/
Click here to print.
Copyright © 2008 Blog do Desemprego Zero. Todos os direitos reservados.
9 Comments To "O PROBLEMA MAIS URGENTE DO BRASIL HOJE: Câmbio ultra-valorizado, EUA agradece"
#1 Pingback By A política de juros e desemprego de Meirelles humilha os brasileiros aqui, que – sem opção – acabam sendo HUMILHADOS TAMBÉM NA ESPANHA: Deportações brasileiros na Espanha e a política de pleno Emprego. « Blog do Desemprego Zero On 11 março, 2008 @ 7:17 pm
[...] MAIS SOBRE A ESTUPIDEZ DA POLÍTICA DO BANCO CENTRAL DO MEIRELLES [...]
#2 Pingback By A política de juros e desemprego de Meirelles humilha os brasileiros aqui, que – sem opção – acabam sendo HUMILHADOS TAMBÉM NA ESPANHA: Deportações brasileiros na Espanha e a Política de Pleno Emprego. « Blog do Desemprego Zero On 11 março, 2008 @ 7:18 pm
[...] Recentes A política de juros… em O PROBLEMA MAIS URGENTE DO BRA…Gustavo dos Santos (… em Sobre o tal “aparelhamen…Gustavo dos Santos (… em Sobre o tal [...]
#3 Comment By Heldo Siqueira On 12 março, 2008 @ 12:03 am
Bruno,
engraçado essa gente falar de ortodoxia e esquecer de questões básicas. A equaçãozinha do hiato de produto, desconta a inflação internacional da inflação nacional antes de calcular a taxa de desemprego corrente.
Por essa conta, os EUA com inflação de 7,4% em 12 meses, China com 8,7% em 12 meses, Argentina com 11,1%, sem falar nos outros parceiros comerciais. No caso brasileiro, estamos com 4,61% em 12 meses.
É um mau caratismo teórico, dize que a inflação de 4,61% está acima da meta!!! Em termos relativos, é deflação e acabou!!! E isso com os outros países demonstrando perspectiva de que vão acentuar a depreciação de suas moedas!!!
Acho que vc está certo em não teorizar a discussão que está longo de ser teórica, mas escrevi o post para argumentar que não existe NENHUMA JUSTIFICATIVA (teórica ou pragmática)para a taxa de juros brasileira estar no patamar atual.
Abraços
#4 Comment By Gustavo dos Santos (meus artigos clique) On 12 março, 2008 @ 12:39 am
Legal Heldo,
vc poderia, por favor, explicar essa questão didaticamente para nossos leitores?
agredeço a boa vontade.
abraços,
Gustavo
#5 Comment By Heldo Siqueira On 12 março, 2008 @ 9:31 am
Gustavo,
não entendo essa idéia desses teóricos de desconsiderar a inflação internacional para estabelecer uma meta. Na verdade, uma suposição importante dos manuais mais básicos de economia é que a taxa de juros internacional é zero e que a inflação internacional é zero. Caso abandonemos esse pressuposto, a taxa de juros real deixa de ser a nominal descontada da inflação, para ser descontada também a taxa de juros internacional.
Por outro lado, se os países que exportam produtos para o Brasil estão tendo aumento generalizado nos preços nos produtos que exportam para cá (principalmente commoditties que são cotados a preços no mercado internacional). Esses aumentos são absorvidos pelos preços internos. Portanto, a “inflação real” dos produtos brasileiros em relação aos americanos é a inflação brasileira descontada da inflação americana (4,6%-7,4%=-2,8%). Como o Brasil não pode fazer política monetária por lá (aliás, ninguém iria querer a política monetária brasileira né?!) essa inflação é exógena.
Só para um exercício rápido de ortodoxia. No caso da economia americana, o natural é supor que a inflação de 7,4% se repetirá. Portanto, se temos uma expectativa de inflação de 7,4% e uma taxa de juros de 3,5% a taxa de juros real é negativa (3,5%-7,4%=-3,9%) (isso supondo que a taxa de inflação se repetirá, mas com as novas políticas do FED, pela teoria ortodoxa ela deveria subir)!!! Então, a taxa de juros real brasileira é J (juro real) = 11,25% (taxa nominal) – 4,6% (inflação) – [-3,9% (juro real americano)] = 10,55%. É claro que essa análise é bem simplista, mas vc pode explicar a tremenda tendência de desvalorização do Real. E explica também pq a inflação (risos) insiste em não ceder.
Quer dizer, não existe nenhum argumento economicamente consistente para manter a taxa de juros no patamar que está!
Abraços
#6 Comment By Rodrigo Loureiro Medeiros On 12 março, 2008 @ 10:07 am
Prezados
O debate proposto pelo Bruno é muito importante. Recomendo o post sobre a entrevista recente do polêmico Paulo Nogueira Batista Jr., representante brasileiro no FMI:
[9]
Trata-se de um debate mais construtivo do que persistir na discussão de que o PT é muito diferente do PSDB. Parecido não é igual. Certamente existem diferenças. “O PT tem boas intenções, mas se não fosse a tirania das circunstâncias (…)” Alguns colegas viraram simplórios analistas de boas intenções.
Vamos aos fatos concretos, os indicadores socioeconômicos, e as conseqüências das opções reais de política econômica.
Um abraço,
Rodrigo L. Medeiros
#7 Pingback By Deportações brasileiros na Espanha e a Política de Pleno Emprego. « Blog do Desemprego Zero On 12 março, 2008 @ 12:44 pm
[...] DO REAL, O FIM…Ricardo Summa em A VALORIZAÇÃO DO REAL, O FIM…Rodrigo Loureiro Med… em O PROBLEMA MAIS URGENTE DO BRA…Raphael Padula em A VALORIZAÇÃO DO REAL, O FIM…Heldo Siqueira em O PROBLEMA MAIS URGENTE DO [...]
#8 Comment By Heldo Siqueira On 12 março, 2008 @ 4:23 pm
Rodrigo,
acho interessante a sua proposta de tentar focar a discussão em fatos concretos. Acho que o primeiro fato concreto que precisa ser abordado é a dimensão da crise americana.
Minha opinião é que o problema é de estoque e não de fluxo. É um empobrecimento relativo e real das famílias norte-americanas (não se trata de um empobrecimento, mas de uma correção). Medidas para aumentar os fluxos de investimento tornam-se irrelevantes nesse caso, pq não é o parâmetro que está diminuindo, mas a base. Quer dizer, mesmo que as medidas sirvam para não diminuir o ritmo percentual de investimento em relação ao PIB (o que já acho difícil) o tamanho do PIB está diminuindo (via contração de alguns preços e desvalorização cambial). A pergunta que segue dessa análise é quanto ao financiamento do Estado americano. Não acredito que os EUA possam financiar déficits infinitamente (quero muito acreditar que não podem), então qual o limite para o déficit?!
O BC europeu já disse que não vai bancar um dólar desvalorizado, China e Japão sinalizam no mesmo sentido. Daí a gravidade da situação brasileira, pq se nas outras vezes que o Brasil fez a mesma burrice o problema estava em economias periféricas, nesse momento a crise é nas economias centrais.
Nessas condições, tentar cumprir uma meta de inflação de 4,5% é uma loucura! E o problema não é da política de metas, afinal, pela própria política de metas, pode-se mudar a meta caso haja um problema como o atual. Quer dizer, não existe nenhuma justificativa teórica para o que está acontecendo.
A solução para o problema é simples: pagar menos pelos títulos públicos e gerar inflação. Apenas idiotas e pessoas despreparadas acreditam (pessoas descaradas dizem acreditar, mas na verdade ganham com a loucura) que o Brasil conseguirá cumprir uma meta de inflação de 4,5% com os preços internacionais variando acima de 8%.
#9 Comment By Rodrigo Medeiros On 12 março, 2008 @ 6:12 pm
Prezado Heldo
O debate sobre o quanto o Estado norte-americano consegue financiar seus déficits não é novo. Já li algumas linhas sobre o assunto. Alguns alegam que a moeda de circulação internacional e as maiores forças armadas são capazes de garantir a ‘pax americana’ e que, portanto, sempre haverá margem de manobra para contornar déficits até que surjam adversários capazes de desafiar a hegemonia norte-americana.
Não podemos nos esquecer do big stick. Os parceiros comerciais dos EUA já foram constrangidos em outros momentos. (O Henry Kissinger conta em seu livro ‘Diplomacy’ um episódio curioso envolvendo o chanceler Konrad-Adenauer.) Lembro-me do caso do Japão.
Os EUA cercearam a expansão econômica do Japão na década de 1990 a partir da exigência de que eles financiassem, ainda nos anos 80, pelas vias da compra de títulos da dívida pública norte-americana, o superávit comercial japonês com eles. Laissez-faire? E ainda houve quotas de importação de carros impostas pelos EUA ao Sistema Toyota de Produção no governo Reagan? Só uma cambada de babacas ignorantes para acreditar que se deve colocar os destinos de um país com o potencial do Brasil ao sabor da mão invisível.
Gostei dos seus comentários e estamos de acordo que esse debate é importante. O Bruno está de parabéns porque colocou um excelente post.
Um abraço,
Rodrigo L. Medeiros