O consumo no início de 2008
Escrito por Imprensa, postado em 26 dEurope/London março dEurope/London 2008
Fonte: Terra Magazine
Escrito por Julio Gomes de Almeida
O Banco Central, na Ata de sua última reunião que decidiu pela manutenção da taxa básica de juros em 11,25% a.a., surpreendeu ao anunciar que cogitou um aumento da taxa Selic. O argumento básico ventilado pelo órgão foi que o crescimento da demanda interna tem sido muito elevado. No final de semana foi a vez do Ministro da Fazenda se mostrar preocupado com maior consumo e seus possíveis efeitos sobre os preços. O Ministro acenou com restrições para os prazos dos financiamentos ao consumidor.
Como cabe ressaltar, uma pressão de demanda não acende o perigo da inflação por si só; para que desperte aumentos de preços é necessário que ao lado disso a oferta de bens e serviços na economia não acompanhe a sua trajetória. O ponto básico da avaliação dos riscos de inflação está, portanto, na análise comparativa dos ritmos projetados para a demanda, de um lado, e para a oferta, de outro.
No cotejo das tendências de demanda com a oferta, a evidência das últimas pesquisas da FGV e da CNI vai na direção de que os investimentos realizados no ano passado já se traduzem em aumento de capacidade produtiva, fator que levou ao estancamento dos aumentos do grau de utilização de capacidade que vinham ocorrendo ao longo do ano passado como resultado de um ritmo de expansão da demanda maior do que a oferta doméstica, algo que não se traduziu em pressão sobre os preços devido ao aumento das importações. A propósito, os dados para a importação no primeiro bimestre desse ano, que registram acréscimo na compra de bens de capital ao redor de 50% em comparação com o primeiro bimestre do ano passado, é um indicador forte de aceleração dos investimentos na economia.
Isso deve reforçar a continuidade do crescimento da capacidade de produzir da indústria, permitindo que a aceleração da demanda do final do ano passado e o bom ritmo do consumo no início de 2008 sejam satisfeitos sem que a inflação aumente. Talvez resida em uma subestimada avaliação do ritmo com que a capacidade produtiva passou a crescer no Brasil, depois de transcorridos os períodos normais entre as decisões de investir e a real incorporação de nova capacidade ao processo produtivo, a principal diferença entre os argumentos apresentados pelo Banco Central em sua Ata, os quais, de certa forma, o Ministro da Fazenda endossou, e uma avaliação alternativa, mais otimista, sobre as perspectivas futuras de inflação.
Vejamos mais de perto os indicadores de crescimento do consumo, os quais parecem dar sustentação às teses mais pessimistas sobre um possível excesso de demanda. Os dados das Contas Nacionais divulgados há cerca de dez dias pelo IBGE não deixam dúvidas: 2007 se encerrou com um ritmo de evolução do consumo das famílias em aceleração, processo que pode ser acompanhado pela observação das taxas de crescimento com relação ao mesmo trimestre de 2006: 5,7% no primeiro trimestre de 2007, 5,8%, 6,0% e 8,6% nos trimestres seguintes. Já a pesquisa do comércio varejista do IBGE referente ao primeiro mês de 2008 mostrou um crescimento muito intenso com relação a dezembro, variação de 1,8% na série com ajuste sazonal. Na comparação anual, vale dizer, janeiro de 2008 com relação a janeiro do ano passado, o aumento em volume do comércio chegou a 11,8%, contra 9,5% em dezembro. Trata-se, portanto, de um desempenho muito elevado do comércio varejista na entrada de 2008.
Mas, os resultados de janeiro podem ser considerados excessivos devido às promoções realizadas pelo comércio que compensaram um movimento de vendas em dezembro que, embora longe de ser considerado adverso, não correspondeu inteiramente às expectativas do setor. Em Tecidos, vestuário e calçados, as variações de 15,4% na comparação de janeiro de 2008 com janeiro de 2007 (9,7% em dezembro) e de 3,7% na comparação de janeiro com dezembro com ajuste sazonal (-0,7 no mês anterior), tiveram nas promoções um marco de referência importante. O mesmo argumento pode ser usado para o desempenho do setor de Móveis e eletrodomésticos, cuja taxa de variação alcançou 16% (11,8% em dezembro) e 9,8% na comparação de janeiro com o mês anterior com ajuste sazonal (-5,8% em dezembro), assim como em Outros artigos de uso pessoal e doméstico, onde se destacam as lojas de departamento.
Nesse caso, as taxas foram de 29,6% na comparação anual (20,5% no mês anterior) e 7,7% na comparação com o mês anterior com ajuste sazonal (-3% no mês anterior). Em suma, em setores muito importantes, a aceleração aparente do comércio em janeiro correspondeu a um processo de redução de estoques em razão de promoções. Também em Veículos e motos, o desempenho de janeiro foi excepcional: 20,8% contra 13,5% em dezembro na comparação com o mesmo mês do ano anterior e +2,6% contra -2,5% em dezembro na comparação com o mensal com ajusta sazonal. Nesse segmento, em que o consumo vem sendo amplamente alimentado por prazos maiores de pagamento que reduzem os valores das prestações, o desempenho de janeiro também compensou o resultado menos favorável do último mês do ano passado.
Resultados mais genuinamente “bons” em janeiro ocorreram em setores como Hipermercados, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo, em que o crescimento de 8,4% em janeiro com relação a janeiro do ano passado, superou a média de 6,3% dos dois meses anteriores, e em Artigos farmacêuticos e de perfumaria, variação de 16,2% em janeiro contra taxas de 12,2% em dezembro e 9,4% em novembro. Esses índices devem ser sublinhados porque indicam que o aumento da inflação na passagem de 2007 para 2008 pelo menos até o momento não influenciou negativamente a capacidade de consumo de bens básicos por parte das famílias.
Em suma, os sinais do início do ano para o consumo parecem evidenciar a manutenção do dinamismo do final do ano passado, período no qual se deu uma aceleração das vendas reais do varejo, mas não é clara uma nova aceleração do consumo. O resultado excepcional das vendas do varejo para janeiro em parte foi motivado por promoções realizadas pelo comércio e que compensaram um resultado de vendas de dezembro que não correspondeu inteiramente às expectativas do setor. Tampouco está definida a tendência do crédito, especialmente no caso dos financiamentos para as famílias, devido ao seu encarecimento em razão do aumento do IOF e da elevação dos spreads bancários. As maiores taxas dos financiamentos podem levar a um recuo da elevada expansão do crédito para pessoas físicas e desacelerar o crescimento do consumo.










