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O conflito na Colômbia : estaríamos às portas de uma guerra?

Posted By Imprensa On 6 março, 2008 @ 1:39 pm In A Semana a Limpo,Crise América do Sul: Venezuela Colômbia Equador,Internacional | No Comments

Instituto Humanistas Unisinos [1]

A morte do guerrilheiro Raúl Reyes, ocorrida na madrugada de sábado, dia 01 de março, não é a primeira, mas seguramente é o fato mais importante. As circunstâncias que envolveram a morte do número 2 das Farc causaram crises diplomáticas e estão angariando a atenção – e a preocupação – dos países vizinhos, da América Latina, mas também da União Européia e de organismos internacionaisAs possibilidades de o incidente desembocar numa guerra são remotas, mas não descartadas.O conflito escancara a divisão na América Latina e opõe em campos diferentes a Colômbia, aliada aos Estados Unidos, e os demais países da região, dificultando ainda mais os processos de negociação para se unir o subcontinente. “Esse é o início de uma crise política que pode dividir os países e dificultar projetos de aproximação no futuro”, diz Umberto Celli Jr., professor de Direito Internacional da Universidade de São Paulo (USP).

A maioria dos presidentes da América do Sul desaprovou a operação de Uribe. O governo brasileiro condenou publicamente a Colômbia pelo ataque às Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) em território equatoriano, o que deixa o presidente Álvaro Uribe isolado no continente. Ao mesmo tempo, o Brasil se coloca como o principal mediador na crise aberta entre os dois países e alimentada pela Venezuela.

O único país a apoiar a ação militar de Uribe foram os Estados Unidos. Washington apóia “o governo colombiano em seus esforços para responder a essa ameaça [as Farc]“, declarou Tom Casey, porta-voz do Departamento de Estado americano. A pré-candidata democrata à Presidência dos EUA, Hillary Clinton, também concorda em que a Colômbia tem “todo o direito de se defender de organizações terroristas”.

A morte de Reyes aconteceu na madrugada de sábado em território equatoriano. O presidente de Colômbia, Alvaro Uribe, assumiu a responsabilidade pela morte de Reyes e classificou a ação como “um passo a mais na luta contra o terrorismo”. O presidente colombiano justificou o combate que matou Reyes como reação às Farc que teriam atacado militares colombianos a partir do território equatoriano.

Entretanto, esta versão de Uribe é frontalmente desmentida pelo mandatário equatoriano Rafael Correa: “Os cadáveres estavam de pijama, isto é, não houve nenhuma recepção quente. Foram bombardeados e massacrados enquanto dormiam, com uso de tecnologia de ponta, que os localizou na selva, seguramente com a colaboração de potências estrangeiras”, disse. Correa acrescentou que o ataque matou 20 membros das Farc, “quase todos em roupas de dormir, o que descarta qualquer versão de que foi uma perseguição imediata e em legítima defesa, contrariando a versão oficial colombiana”.
“Os aviões ingressaram ao menos dez quilômetros em nosso território para realizar o ataque. Logo, chegaram tropas aerotransportadas em helicópteros, que culminaram a matança, inclusive se encontraram cadáveres com tiros nas costas”.

As reações mais duras à ação colombiana vieram de Hugo Chávez, presidente da Venezuela, país que, assim como o Equador, faz fronteira com o território colombiano, com a diferença de que é pelo lado norte. Assim que soube do incidente, Chávez fez duras críticas a Uribe e determinou o pronto deslocamento do Exército para a fronteira com a Colômbia. Chávez advertiu que uma eventual incursão militar em seu país em busca de guerrilheiros das Farc será o equivalente a uma declaração de guerra. “Presidente Uribe, pense bem o que vai ocorrer aqui, porque seria algo sumamente grave e seria ‘causus belis’, causa de guerra, uma incursão militar na Venezuela. Não há desculpa”, disse Chávez. Além disso, Chávez fechou a Embaixada venezuelana na Colômbia e cortou relações diplomáticas. Analistas e o governo brasileiro, consideraram as atitudes exageradas, desproporcionais e perigosas.

As Farc

As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) surgiram em 1964 com uma proposta revolucionária, ideário para o qual foram ganhando simpatizantes e adeptos. Hoje, porém, são uma organização extemporânea, atrasada e esclerosada. Tem uma estrutura hierárquica muito forte, mas que pode desembocar numa miríade de grupelhos assim que o chefe Manuel ‘Tirofijo’ Marulanda Vélez, codinome de Pedro Antonio Marín, desaparecer. O que pode não demorar. Ele “está muito doente, tem um limite contado de
vida, que se calcula em seis a oito meses”, conta fonte confidencial que está envolvida na delicadíssima tarefa de facilitar um acordo de paz entre as FARC e o governo colombiano que inclua a liberação dos reféns da guerrilha.

Um dos prováveis cenários com a morte de Marulanda, conta a fonte, é entrarem num “processo de feudalização total. O secretariado se desestrutura e surgem muitas forças nos mandos à frente dos enclaves. Se isso acontecer não há solução, não há interlocutor”.

Segundo a fonte confidencial, a pergunta central a se fazer em relação ao futuro das Farcs é se elas “têm vontade de pacificar ou não. Se eles não acreditam que precisam da paz, esqueça. Te diria que lhe interessa uns 10% e, por outro lado, a reinserção lhes interessa muito pouco. Tem um bom negócio com a droga, não querem se transformar em agricultores, não lhes interessa romper o status quo. Mas não se trata de um dilema insolúvel. É preciso perceber as oportunidades”.

A forma hierarquizada tem suas vantagens, ao menos para fora. Raúl Reyes, pseudônimo de Luis Édgar Devia Silva, morto no ataque de sábado em ação que matou 17 ou 20 guerrilheiros e um soldado colombiano, era o porta-voz das Farcs e considerado o número 2 da organização. Era também o principal articulador das Farc. Reyes era apontado por analistas como a face mais civilizada da liderança da guerrilha, em oposição ao dirigente ‘Mono Jojoy’ – morto no ano passado -, que intensificava as operações de seqüestro e os vínculos com o narcotráfico.

Além disso, Reyes era também o maior interlocutor dos guerrilheiros com o governo da França nas conversações para a libertação dos reféns políticos mantidos pelas Farc. Aliás, o governo francês, através do diplomata francês Fabrice Delloye, referindo-se à morte de Reyes acredita que se trata de “sabotagem” por parte do governo colombiano. “É sabotagem, um golpe do presidente Uribe que torna ainda mais difícil qualquer possibilidade de encontrar uma solução humanitária para salvar a vida dos seqüestrados e de Ingrid”, disse.

Ataque colombiano envolveu alta tecnologia e brasileira

Da operação realizada pelo exército colombiano contra guerrilheiros das Farc, um aspecto chama a atenção e que merece uma análise. A manobra realizada pelo exército colombiano na selva equatoriana só foi possível graças à utilização da mais alta tecnologia. No ataque foram usados dois caças fabricados no Brasil, pela Embraer, os turboélice Super Tucano, rebatizado A-29B na Força Aérea da Colômbia (FAC). O ataque aéreo foi feito de noite contra um alvo escondido na floresta: objetivo dificílimo, mas
possível graças ao equipamento eletrônico moderno das aeronaves.

O A-29B leva 1,5 tonelada de cargas de ataque, mais duas metralhadoras .50. A tripulação de dois pilotos (arranjo escolhido pela FAC) tem ao seu redor o mesmo pacote de recursos eletrônicos encontrado a bordo de caças da última geração – inclusive sistemas de visão noturna.

Além disso, a operação valeu-se do benefício de uma das tecnologias que os EUA repassaram às Forças Armadas da Colômbia, que foi o rastreamento eletrônico das comunicações.

O ataque foi feito, pelo que se sabe, com bombas brasileiras do tipo cluster: elas se abrem no ar e fazem chover 2.200 flechas metálicas de 1,3 gramas sobre o alvo. A FAC usa também a mesma classe de armas com até 60 pequenas granadas de fragmentação de fabricação americana e francesa. Essas bombas estão no centro de uma polêmica internacional. O problema desse tipo de munição, segundo os movimentos contrários ao uso dessas armas, é que muitas submunições não explodem e ficam indefinidamente no solo, até se desintegrarem por causa de chuvas fortes ou da aproximação acidental de
animais ou pessoas, com tragédias semelhantes às causadas por minas terrestres. O governo brasileiro mostrou-se contrário à discussão.

Manobra foi uma aplicação da “guerra preventiva”, tese defendida pelos EUA

Entretanto, o mais grave em tudo isso, segundo alguns analistas, é o uso da tese da “guerra preventiva” subjacente ao ataque e baseada na doutrina da “guerra ao terror”. “O Exército colombiano está operando com o conceito de guerra preventiva. Uribe está comprometido com uma guerra profunda e definitiva contra as Farc. Em seu conceito estratégico, estaria disposto a sacrificar as relações com países vizinhos, sacrificar a vida dos reféns, se isso for conduzir ao que ele considera que é um bem maior, o extermínio
das Farc, pleito de meio século. É a lógica bélica pura. Ele se baseia na confiança de que, com ajuda dos EUA e da União Européia, em alguns meses ou anos vai reparar as relações com os vizinhos. Entra na conta de danos colaterais”, conta o analista chileno Raúl Sohr.

E destaca que “foi uma atividade calculada, com grande aparato de inteligência, como disse Uribe. Eles calcularam os custos e decidiram lançar a operação. Com o apoio dos EUA, a Força Aérea colombiana é hoje muito precisa e efetiva. Foi uma ação extraordinariamente exitosa para Uribe e a morte de Raúl Reyes é um grande troféu. Ele teve algumas vitórias contra as Farc, como liberação de estradas nacionais. A economia está bem. O momento interno para Uribe não poderia ser melhor”.

No caso de um eventual conflito militar, especialistas acreditam que a Colômbia estaria melhor equipada militarmente em termos de equipamentos bélicos e de recursos humanos treinados. Por conta disso, levaria vantagem sobre a Venezuela e o Equador.

Segundo reportagem do Estadão, “essa condição foi atingida por meio do Plano Colômbia, mantido pelos Estados Unidos, ao custo de US$ 4,15 bilhões em sete anos. O pacote de apoio incluiu helicópteros Black Hawk em versões sofisticadas, treinamento especializado em bases dos EUA, preparação física, disciplina e adequação de material. Corporações militares privadas como a DynCorp, a ManTech, TRW e Matcom, foram contratadas para cuidar do diferencial: a produção de informações de inteligência. Uma rede de sete radares de vigilância funciona em toda a área sensível, no interior do país e nas fronteiras da Venezuela e Equador (…) A vigilância é feita também por aviões eletrônicos como o RC-7, comprado em 2001, e os grandes Awacs americanos”.

Além disso, o poderio militar colombiano é reforçado com máquinas brasileiras, como os blindados sobre rodas, Urutu e Cascavel, modernizados por empresas americanas, helicópteros e a frota dos Super Tucanos, da Embraer.

O lacônico é que a modernidade brasileira, a modernidade técnica, é posta a serviço de projetos imperialistas e de dominação. Mais, é uma modernidade forjada, no caso da Embraer, mas também da Petrobrás – ver a este respeito os acontecimentos na Bolívia há alguns anos – pelo Estado.

Conjuntura da Semana. Uma leitura das ‘Notícias do Dia’ do IHU de 27 de fevereiro a 04 de março de 2008. A análise da conjuntura da semana é uma (re)leitura das ‘Notícias do Dia’ publicadas, diariamente, no sítio do IHU e na revista do IHU. A presente análise toma como referência as “Notícias” publicadas de 27 de fevereiro a 04 de março de 2008. A análise é elaborada, em fina sintonia com o IHU, pelos colegas do Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores – CEPAT – com sede em Curitiba, PR, parceiro estratégico do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.


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