Notas do Debate sobre Transposição do Rio S. Francisco – Carlos Lessa X César Benjamin
Escrito por NOSSOS AUTORES, postado em 13 dEurope/London março dEurope/London 2008
Por Valéria Amorim
Resumo do Debate sobre a Transposição das Águas do Rio São Francisco entre o profº Carlos Lessa e César Benjamim, realizado no dia 10/03/08 na ABI
Para aqueles que não puderam comparecer, segue, em anexo, resumo, feito a partir da transcrição de notas manuscritas, das principais idéias veiculadas no excelente debate promovido pelo Modecon na última segunda-feira, na ABI.
O inusitado foi assistir a troca de idéias desses dois grandes brasileiros, Carlos Lessa e César Benjamin, posicionados em lados adversários sobre a polêmica questão da transposição das águas do rio São Francisco.
1-Principais idéias da exposição do Lessa:
- a taxa de urbanização da região Nordeste é levemente inferior à taxa verificada no Sudeste;
- o índice de cardiopatias e doenças renais na região é muito alto devido à péssima qualidade da água na região, porque é muito salitrada (costuma vir de poços);
-perde-se muita água na região por evaporação e com a aplicação de um modelo de gestão de fluxo de água, e não de estoque (reservatórios), seria possível reduzir significativamente esta perda;
-a água tem três destinações: para beber, para processamento industrial e para a agricultura;
-se a idéia da industrialização é importante, para o Nordeste é absolutamente fundamental pensar na questão do consumo de água para uso industrial, porque achar que é o turismo que irá promover o desenvolvimento da região é uma piada;
-a transposição aceleraria a migração intra-regional e enfraqueceria o poder dos “coronéis”;
- hoje, o NE já produz 5 milhões de toneladas de soja e tem previsão de produção e 10 milhões de t para 2010, ou seja, as previsões de Ignácio Rangel para a região se realizaram. O Nordeste deixou de ser um “problema” e passou a ser uma região problemática;
-há que se criar um sistema ferroviário na região, interligando seus 3 grandes portos – Suape/PE, Itaqui/MA e Pecém/CE -com o arco produtor de soja;
-não há mais condições de se criar grandes barragens rio S. Francisco; é o rio Tocantins, que, corretamente aproveitado, poderia gerar a quantidade de energia elétrica que o NE exige para se desenvolver;
-logo, é favorável à transposição das águas do Tocantins aliado à revitalização do rio S. Francisco, o que poderia converter o NE numa California para abastecimento do mercado interno e completar a integração do Brasil;
-o NE não se unifica (nem Celso Furtado conseguiu). Os estados da BA e SE são contra beneficiar os estados e PE, PB, RN e CE;
-a Igreja Católica perde seu rebanho para as seitas petencostais quando este migra para a cidade;
-hoje o NE é urbano/metropolitano, mas as condições de abastecimento de água, e sua qualidade, são muito ruins;
-priorizar o desenvolvimento do NE (juntamente com a Amazônia sententrional) é razão estratégica. Há que se intensificar a integração entre as regiões do NE, Centro-Oeste com a Amazônia.
2-Principais idéias da exposição do César Benjamin:
-a idéia de falta absoluta de água no NE não é real. A região semi-árida é caracterizada por um índice de precipitação média anual abaixo de 800 mm; abaixo de 300 mm caracterizaria uma região árida. A precipitação média anual do Semi-árido nordestino é de 750 mm por ano. Logo, é considerada a região semi-ária mais chuvosa do mundo;
-porém, dado que o solo na região é cristalino, a água escoa e se perde com mais rapidez. Também ocorre concentração de precipitação, daí a seca;
-perde-se muita água por evaporação: estima-se que a perda, nos canais da transposição do S. Francisco, é de 55%;
-a água concentrada está sujeita à apropriação privada , alijando a população local;
-o projeto de transposição das águas do rio S. Francisco repete esse modelo, na medida em que transpõe blocos concentrados de água e os conduz para onde já tem água, na região oriental do NE;
-esse projeto não é a única alternativa para a região: há busca de tecnologias alternativas, por parte de uma rede de organizações (como a Igreja Católica, entre outras, e a própria ANA – Agência Nacional de Águas, utilizando o conceito de segurança hídrica das populações locais);
-há que se perguntar: esse projeto serve a quem, as águas chegariam a quem?
- esse projeto prevê que 70% das águas transpostas do S. Francisco sejam destinadas para a agricultura de exportação (basicamente fruticultura e plantação de cana para produção de etanol), 26% para as cidades e apenas 4% para a população difusa;
-porém, a região rural do NE ainda é a grande região populosa do país, ao contrário do que pensa Carlos Lessa. 40% da população do NE ainda é rural e a principal fonte de água para ela é a chuva;
-como a capacidade de retenção das águas na região fica muito comprometida devido ao problema da evaporação, a rede de organizações acima mencionada desenvolveu técnicas de captação da água da chuva nas pequenas propriedades;
-isso porque a distância em relação à fonte de água é fundamental, por isso é importante ter uma forma de captação localizada, a partir do uso dos telhados das casas que captam a água da chuva para cisternas;
-trata-se, então, de uma rede de captação disseminada e pulverizada. Ou seja, ao captar, já está se disseminando essa água. Quando se concentra essa água da forma tradicional, se reproduz o modelo vigente gerador da famosa “indústria da seca”;
-essa rede de obras é gigantesca (prevê-se a construção de 1 milhão de cisternas na região), porém, por ser desconcentrada, não interessa ao agronegócio;
-o projeto da rede de captação através de cisternas tem um potencial libertador para a população local: não é um projeto apenas técnico, mas de mobilização social, que não interessa às grandes oligarquias;
-a mera transposição de grandes blocos de água para onde já existe água mantém essa população numa posição passiva, não alterando a estrutura social;
-a transposição deverá provocar desertificação nas áreas atingidas, com grandes conseqüências sociais;
-o conjunto de obras de captação, através da construção de 1 milhão de cisternas, garantirá a segurança hídrica de 43 milhões de pessoas, ao custo de R$ 3 bilhões;
-o projeto de transposição das águas do rio S. Francisco, cujo custo inicial é de R$ 7 bilhões, irá concentrar água para as modernas elites nordestinas ( tradicionais coronéis, senadores, grandes empresários nacionais e multinacionais ), uma vez que apenas 4% das águas transpostas serão destinas ao uso da população ( ou seja, dizer que esse projeto “irá matar a sede do nordestino” é uma grande mentira ), que vai continuar dependente do caminha pipa dos coronéis locais.
3- Principais pontos do debate que se seguiu às exposições, em respostas às perguntas feitas pelo plenário:
Carlos Lessa:
-disse que não é contra reforçar a pequena produção familiar;
-os R$ 10 bilhões requeridos para a realização das duas obras ( transposição + cisternas) é uma ínfima parte do que se paga de juros da dívida pública. Assim, dada a restrição orçamentária que prioriza o pagamento dos juros, só haveria dinheiro para tocar uma das duas obras. Se a taxa de juros caísse, aliado a medidas cambiais, haveria dinheiro para a realização das duas obras;
-defendeu que a vida na cidade é muito melhor que a vida no campo.
César Benjamin:
-concorda com o Lessa: o orçamento de R$ 10 bilhões para a s duas obras seria o equivalente á apenas algumas horas do pagamento de juros da dívida pública brasileira;
-mas o projeto de transposição tem recursos e empreiteiras já contratadas e, portanto, vai ser tocado. O outro projeto (cisternas), não se sabe. Sua rede de obras somadas é gigantesca, porém não é de interesse das grandes empreiteiras e também às grandes oligarquias – que precisam de grandes volumes de água para irrigar seus negócios – porque se trata de uma concentração de caráter democrático;
-a transposição é um projeto desmobilizador da sociedade porque concentra recursos: 70% das águas transpostas serão usadas apenas em 3% do território;
-logo, os dois projetos diferem na sua natureza política, social e cultural; sinalizam dois focos diferentes;
-se a fonte de água passa a ser a chuva, ela é necessariamente disseminada, o que não serve, por exemplo, ao Bradesco para irrigar as plantações que irão gerar o etanol;
-disse que Lessa tem em mente um conceito de “urbanização virtuosa”, que não acontece mais no Brasil de hoje;
-existe uma grande população no NE que ainda poderá se deslocar para as cidades. A questão é: esse deslocamento seria virtuoso ( e, assim, estimulado) ou só contribuiria para degradar as condições de vida dessas pessoas?
-as condições de vida no sertão são melhores que nas grandes cidades, as relações familiares são mais bem preservadas. Ou seja, o processo de urbanização da população rural no NE não pode ser caracterizado como um processo virtuoso nos dias de hoje;
-a questão grave nas grandes cidades é o desperdício de águas. Por exemplo, Fortaleza, a capital mais beneficiada pela transposição, desperdiça metade da água que recebe;
-o agronegócio, e outros grandes empreendimentos, vão oferecer, no máximo, ao sertanejo a perspectiva de virar bóia-fria, que depois irá engrossar a periferia violenta das grandes cidades;
–em suma, discorda do Lessa quanto à possibilidade de se financiar os 2 projetos, não somente por causa da existência de “recursos escassos”, mas porque no Brasil contemporâneo, não é possível juntar os dois projetos, porque eles são antagônicos quanto ao seu foco e sua natureza;
-ou seja, em tese, os dois projetos não são incompatíveis, mas na prática, são, porque envolvem forças políticas e sociais diferentes, as quais disputam visões de futuro diferentes para a região.
Carlos Lessa:
-o projeto de transposição das águas do rio S. Francisco é basicamente um projeto destinado ao povo urbano no NE e, por isso, essas águas terão que chegar, necessariamente, concentradas às grandes cidades da região;
-afirmou que a captação das águas das chuvas em cisternas é uma ótima tecnologia, mas citiu a existência de outras, como a construção de barragens subterrâneas;
-insistiu na defesa da transposição das águas dos rios S. Francisco e Tocantins para resolver o problema da energia elétrica na região, pois o uso de outras fontes seria muito caro. Ou seja, a solução de energia para o NE vem da transposição;
-a água da chuva não resolve o problema das populações urbanas.











18 dEurope/London março, 2008 as 2:55 pm
Os argumentos colocados em favor da transposição são pífios e desmoronam diante da realidade.
A idealização do projeto é ótima, mas sua operacionalização mostra os vicios seculares do planejamento imediatista e orientado a sustentar uma elite que no dizer de Benjamin, se moderniza para continuar mandando.
Seria interessante cruzar os mapas da estrutura fundiária com os eixos da transposição e veriamos coisas interessantes e tambem superpor com os mapas produzidos pelo Atlas da ANA. e ai mais problemas surgem.
A transposição reinventa a industria da seca e implementa o hidronegócio. e é um projeto imposto, inviável e insano.
Esta é minha opinião.
18 dEurope/London março, 2008 as 4:44 pm
Caro Marco Antonio Tomasio,
Muito obrigado pelos comentários.
essa é sua opinião, mas ela pode estar errada não é?
Vc disse:
“A idealização do projeto é ótima, mas sua operacionalização mostra os vicios seculares do planejamento imediatista e orientado a sustentar uma elite que no dizer de Benjamin, se moderniza para continuar mandando.”
Ora, os neoliberais pensam como vc: são contra todas as obras públicas.
O primeiro princípio que deve respeitar uma obra pública é isso que tão sabiamente disse:
“A idealização do projeto é ótima”
mas vc se equivoca em criticar a “operacionalização”, pois ela não existe e, portanto, não pode ser criticada (por lógica).
o “projeto” é o próprio planejamento da “operacionalização”, que “é ótima”, segundo vc.
Portanto, o que há de mais real na “operacionalização” é ótimo. Portanto, segundo suas próprias opiniões o projeto deve ser realizado.
Mas vc teme que alguns capitalistas e oligarquias locais irão se beneficiar do projeto. Sim isso é óbvio. A região é tão pobre que até o que chamamos de oligarquia ou “capitalismo” local tem um renda equivalente à classe média carioca ou paulista. Mas isso não importa.
O que importa é que serão beneficiados, não é? Sim serão, mas o povo também será muito. Mas existe alguma obra pública realizada na história da humanidade em que ninguém da elite econômica ou política não foi em nada beneficiada???
Ora, isso não é argumento.
Vc poderia dizer que é comunista e não quer que os capitalistas não ganhem nada. Ok, mas essa é a mesma postura dos trabalhadores de destruíam as primeiras máquinas no final do século XVII e início do século XIX para não perderem seus empregos. Marx criticava essa postura retrógada e conservadora de tentar impedir o avanço das forças produtivas. E no caso da transposição, a oposição é ainda mais retrógada, pois ela é um avanço imenso para as população mais pobres, QUE NÃO TEM ABSOLUTAMENTE NADA A PERDER. SÓ A GANHAR.
Você, apesar de achar o projeto ótimo, disse que “Os argumentos colocados em favor da transposição são pífios e desmoronam diante da realidade.” Não concordo. No link abaixo eu coloco os meus argumentos e de muitos outros. Por favor, agradeceria em mostrar porque estes argumentos são pífios:
http://desempregozero.org/2007/12/12/a-mais-importante-obra-da-nossa-historia-transposicao-do-rio-sao-francisco-pros-e-contras/
abraços,
Gustavo
19 dEurope/London março, 2008 as 10:26 pm
Caro Marco Antonio,
É sempre satisfatório ver o interesse das pessoas neste assunto tão importante para o Brasil. Talvez esse seja o blog onde mais se discute o projeto de transposição.
Pouparei nosso tempo e não irei refutar suas argumentações, pois as mesmas já foram muito bem respondidas por Gustavo. Apenas gostaria muito que o debate se alongasse um pouco, que não ficasse só nisso, pois assim as visões não são amadurecidas. Adicione mais comentários. Se você conhece outras pessoas que pensam da mesma forma que você, convide-as a visitar o site e discutir o assunto conosco.
É importante a continuidade da argumentação para construir idéias mais sólidas. Há algumas semanas um companheiro deixou um comentário dizendo que “há outras alternativas para se levar água ao Nordeste. Não precisa da transposição”
Quando perguntamos quais alternativas seriam essas (por que não conheço nenhuma outra) ele não respondeu e não voltou mais ao site. É uma pena, pois sem um debate continuado não se amadurecem as concepções ideológicas de cada um.
Abraços,
19 dEurope/London março, 2008 as 11:21 pm
Marco Antonio,
desculpe minha falta de gentileza. O Eduardo sabiamente me mostrou o quanto a gente pode ser pouco gentil se muito apegados a nossas convicções.
Temos aqui o interesse em ser um espaço aberto para discussão dessa obra.
Nem todos aqui a defendem como eu e o Eduardo. Mas quem critica raramente sustenta a argumentação. Será por que?
Eu gostaria de poder conversar aqui com alguém que é contra o projeto para entender realmente quais são seus argumentos. Quem sabe eu não perceba coisas novas e reveja minha própria opinião?
abraços,
Gustavo