Meirelles boicota o governo Lula e o Brasil
Escrito por NOSSOS AUTORES, postado em 18 dEurope/London março dEurope/London 2008
Petistas iludidos sempre acreditam que as diversas trocas dos diretores do Banco Central fizeram o BC ficar menos conservador. Mas, depois dessa reportagem da Folha (Clique aqui para ler a reportagem) fica claro que o conservadorismo do Banco Central deve-se exclusivamente ao Meirelles.
Olha o que está escrito na ata do Copom:
“Nesse contexto, o Comitê discutiu a opção de realizar, neste momento, um ajuste na taxa básica de juros. Um ajuste da taxa básica de juros contribuiria para reforçar a ancoragem das expectativas, não apenas para 2008, mas também no médio prazo, e para reduzir o descompasso entre as trajetórias da demanda e oferta agregadas.”
Como assim? Eles querem falar que porque o Brasil cresceu a 5,4% no ano passado, a inflação pode estar numa trajetória de fugir da meta? Em primeiro lugar, a inflação está no centro da meta. De acordo com as regras do sistema de metas de inflação, quando isso ocorre, não há justificativa nenhuma para que a taxa de juros seja elevada. Ao contrário, nesses casos, os BCs tendem a reduzir a taxa de juros. O Armínio Fraga sempre fazia isso. Na Turquia, que o BC não é acusado de heterodoxia, há mais de 24 meses, a inflação é o dobro da meta (vejam vocês mesmos no Banco Central da Turquia), e há alguns meses o BC vem reduzindo a taxa de juros.
Em segundo lugar, a aceleração da inflação é mundial. Vejam vocês, de acordo com o critério de cálculo, a inflação nos Estados Unidos está em quase 8%.
clique no gráfico para ampliá-lo:
De qualquer forma, pelo cálculo oficial ela está em mais de 4%. Dessa forma, a inflação de cerca de 4,5% no Brasil não tem nada de extraordinário.
Essa ênfase do Meirelles no risco de uma inflação galopante, é só uma desculpa para não reduzir a taxa de juros. Entrando nos principais bancos centrais do mundo, vemos que os bancos centrais não têm enfatizado essa taxa de inflação. Vejamos, por exemplo, no site do Banco Central do Peru que apesar da inflação ter ultrapassado em muito a meta
Em terceiro lugar, é uma falácia dizer que a inflação brasileira atual deve-se ao “robusto” crescimento brasileiro. Como o Rodrigo Medeiros mostra (Clique aqui para ler a matéria), o Brasil vem crescendo bem menos do que a média dos países emergentes. Ninguém acredita que é o extraordinário crescimento brasileiro que está fazendo os preços dos alimentos e do petróleo crescer internacionalmente.
O que eu quero mostrar aqui é que não há qualquer justificativa econômica ou técnica para a taxa de juros do Brasil estar nesse patamar. Vemos isso, pelo fato como bancos centrais ortodoxos e que adotam a meta de inflação agem. Não tem nenhum que age como o Meirelles está fazendo. Durante a presidência de Armínio Fraga, a inflação atingiu o centro da meta apenas uma vez. Em outra vez, a inflação ficou no limite superior da meta. Nas outras vezes, a inflação superou bastante o limite superior da meta. Mas, mesmo assim, a taxa de juros real do período Armínio foi significativamente menor do que no do período do Meirelles. Sei que estou fazendo uma acusação muito séria: o governo brasileiro está pagando bilhões de tapiocas a mais do que deveria porque o presidente do Banco Central está agindo politicamente para enfraquecer o governo. É por isso que vou ter que falar isso em outros posts.
* Bruno Galvão dos Santos: Economista pela UFMG, mestre em economia pelo Instituto de economia da UFRJ. Doutorando pela mesma instituição.












18 dEurope/London março, 2008 as 3:28 pm
Prezado Bruno
Segundo dados da CEPAL, a taxa de ocupação da força de trabalho no Brasil é de 51%, ou seja, 49% dos trabalhadores estão desempregados ou na informalidade. Isso seria um escândalo em qualquer país sério do mundo.
Além disso, a formação bruta de capital fixo (o nível de investimento real na economia) encontra-se abaixo de 18% do PIB, inferior ao famoso piso dos 25% do PIB necessário para que o Brasil ingresse efetivamente num ciclo de crescimento sustentado. O resultado tem sido o tal vôo de galinha e as desculpas de sempre. De FHC a Lula… Lembro que a oferta monetária (M3) brasileira tem sido uma das mais baixas do mundo, em torno de 28% do PIB.
Existem certamente bons quadros no governo do presidente Lula. Marcio Pochmann é um deles. A diretoria do BNDES também é muito boa e a condução das relações exteriores é de boa qualidade.
Luciano Coutinho e João C. Ferraz, por exemplo, coordenaram o ‘Estudo de Competitividade da Indústria Brasileira’ (1994). Nem devemos buscar comparar com a pobreza de idéias vigente no que diz respeito ao tema política industrial. Miguel Jorge deveria voltar para o Santander.
Creio que esse núcleo de excelência do governo Lula estaria rendendo mais se o nó górdio da política monetária fosse desatado. Pode-se muito bem aproveitar as margens de manobra da conjuntura internacional presente para fazer o Brasil crescer com inflação módica.
Talvez Lula não saiba ao certo o “Custo Meirelles”, mas a oposição raivosa e a grande mídia não escondem a satisfação com o freio do crescimento econômico ativado constantemente pelo BC.
Um abraço,
Rodrigo L. Medeiros
18 dEurope/London março, 2008 as 3:31 pm
Bruno,
acho que vc está correto na análise. Entretanto, gostaria de analisar o que representa a meta de inflação.
O cálculo da inflação tem uma margem de erro e esse é o intervalo da meta de inflação. Por exemplo, no ano passado, a inflação medida foi de 4,46%, mas na verdade, foi encontrado um intervalo entre 2,46% e 6,46% (o que se pode garantir é que não saiu desse intervalo. E como supõe-se (de maneira tecnicamente aceitável) que a amostra tem distribuição de probabilidade normal, a maior probabilidade é que tenha sido 4,46%. Mas qualquer um pode fazer um teste da chance de ter sido 4,5% e vai achar uma probabilidade bem aceitável (de forma que não dá para saber se foi 4,46% ou 4,5%) por isso dizemos que a meta foi cumprida.
Economicamente essa busca desenfreada que o BC faz ao centro da meta é completamente sem sentido. Na verdade, a própria amostra tende a se modificar entre os períodos das medições, de forma que é impossível diagnosticar, com a precisão que o BC diz ter, a verdadeira inflação.
E mais, essa conversa de medir expectativas é a maior furada que existe (o tal do boletim focus)! Perguntar para “o mercado” quanto eles acham que vai ser a inflação?! Qual a diferença entre perguntar para “o mercado” e perguntar para mim, para vc, para o Gustavo, ou para o carinha que vende pipocas aqui em frente de onde eu trabalho?! (sei que é uma pergunta retórica, mas não é bom deixar dúvidas) TECNICAMENTE NENHUMA!
Aí o BC diz que vai aumentar os juros pq “o mercado” previu uma inflação de 4,44%, quando mês passado previra 4,42%?! Só a Miriam Leitão e o Carlos Sardemberg acreditam na seriedade do BC…
18 dEurope/London março, 2008 as 4:34 pm
Rodrigo, também acho um absurdo que 49% da população esteja fora do mercado de trabalho.
Acho francamente que está subestimado o desemprego. Alias, ontem encontrei na rua um cara que conheço da praia. Aí ele falou que está desempregado. Perguntei onde vc está morando? Ele respondeu: Tô aí perdido”. Provavelmentefica de casa em casa. É um cara safo, mas é uma situação foda. E quem não é safo? Não sei como grande parte dos desempregados vivem. Sobre o “custo Meirelles”, eu achei muito estranho que depois que o Serra conversou com o Meirelles, as críticas do Serra a política monetária cessaram.
Heldo,
Nunca tinha pensado nisso que a inflação tinha uma margem de erro e, por isso, há um intervalo para a meta. Faz sentido. Concordo que não faz sentido, o BC buscar cegamente o centro da meta.
Mas,a razão disso não é “técnica”, é política. O Banco Central turco, da Tailândia, da Índia, do Peru, da Colômbia, não são heterodoxos. O Armínio não era heterodoxo. A questão é que eles não querem enfraquecer os respectivos governos. O Meirelles quer.
19 dEurope/London março, 2008 as 8:49 am
Bruno e Rodrigo,
entendo que a motivação para os juros serem mantidos nesses patamares é política. Por isso mesmo, vejo no Meirelles um legítimo e detestável “assassino econômico”.
Afinal de contas, sob a desculpa do tecnicismo dos dados estatísticos e das previsões econométricas que ele mantém a taxa de juros. O negócio é provar que ele não mantém por razões técnicas (o que é muito fácil). O difícil é ter onde falar que tecnicamente a precisão que ele alega ter é um chute elaborado.
Se ele quiser manter os juros altos por razões políticas, que as mantenha, mas seja honesto e diga que mantém para dar mamata aos banqueiros. Depois vamos ver se ele se mantém politicamente no cargo, e vamos ver que tipo de jornalista vai ficar na televisão repetindo as baboseiras do BC.
Abraço
19 dEurope/London março, 2008 as 10:53 am
http://desempregozero.org/2008/03/19/lula-e-meirelles-janus-da-parceria-insossa/
19 dEurope/London março, 2008 as 10:58 pm
O ponto central da discussão é a relação política entre Lula e Meirelles. Lula se esforça por ser um estadista, mas não o vejo como tal.
Bruno, a análise é muito boa. Apenas discordo quando você afirma em um dos comentários que o Meirelles “quer” enfraquecer o governo. O que há é um erro grave na relação política-economia. Outra dia Lula disse, quando indagado sobre os juros: “vamos ver o que o Meirelles dirá”. Ele entrega o BC na sua mão, e érde a autonomia do controle da política econômica. O Meirelles, por sua vez, atua exacerbadamente conservador e preocupado com a meta. As pressões do mercado existem, óbvio, mas penso que o principal fator é essa exagerada preocupação com possíveis crises externas, com a volta da inflação, coisas que não merecem nossa preocupação.
Acho que a meta de inflação está no cerne da questão e não é discutida. Nem aqui, nem na mídia, nem em lugar nenhum deste país. Não se conduz uma política econômica pensando em atingir uma meta de inflação, mas sim uma meta de emprego, crescimento, etc. isso sim é o importante.
Abraços,
20 dEurope/London março, 2008 as 9:20 am
Eduardo,
não sou nenhum fã do Peter Drucker e dos “scorecards” do mundo coroporativo, entretanto, acho um bom método de trabalho estabelecer metas de rendimento. Entretanto, é preciso que essas metas respeitem critérios técnicos.
Nesse sentido, acho interessante estabelecer uma meta para a inflação a ser perseguida. Mas a meta deve ser definida de acordo com a capacidade de atuação do BC e pela possibilidade de mexer na economia. Por sua vez, a capacidade de atuação do BC esbarra nos outros ministérios e nos recursos do orçamento. Não pode ter carta branca para pagar a quantidade de juros que achar melhor, sendo que outras pastas (como se o BC fosse uma pasta né?!) não têm! Nesse sentido até apoio a política de metas para inflação.
A questão é que a meta deve ser factível com as condições reais da economia. Se a previsão da meta foi estabelecida em um ambiente em que havia expansão na economia americana, ela deve ser revista, pois as condições mudaram. Não se trata de desrespeitar “o mercado”, mas de analisar o sistema econômico.
Outro problema é a condução, que se diz ser técnica mas na verdade é dogmática. Os números são uma aproximação da realidade, mas não a própria realidade! As estatísticas têm margens de erro e existem vários problemas técnicos na montagem das amostras que dificultam muito estabelecer um critério para a medida da inflação. É muito diferente para uma empresa estabelecer uma meta para o produto, pq ela mede o próprio produto. No caso do BC, ele tem uma aproximação (muito porca por sinal) do produto.
A margem de erro é uma propriedade da própria análise estatística… Querer acreditar na estatística da inflação, como se fosse a própria medida para a inflação é questão de fé! E não adianta tentar justificar que não se analisa apenas um índice, pq todos têm a mesma propriedade!
Resumindo, na minha opinião não se trata de conservadorismo, está mais para fé (ou má-fé)…
Abraços