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Lula e Meirelles – Janus da parceria insossa
Posted By Rodrigo Medeiros On 19 março, 2008 @ 10:47 am In Desenvolvimento,Rodrigo Medeiros | 12 Comments
Rodrigo L. Medeiros*
Conta o renomado historiador econômico David Landes, em ‘Dinastias’ (Elsevier, 2007), que John D. Rockefeller (1839-1937) começou a fazer caridade para limpar o nome da família da má fama de predadores adquirida pelos barões ladrões do capitalismo norte-americano. No entanto, o norte-americano médio ficara desconfiado no primeiro momento das reais intenções de Rockefeller.
O governador de Wisconsin, Robert La Follette disse: “Li ontem que Rockefeller compareceu novamente a um círculo de orações; amanhã, estará fazendo doações a alguma universidade. Ele dá com duas mãos, mas rouba com muitas” (FOLLETE apud LANDES, op. cit, p.231). Não se precisa gastar muito tempo para perceber que o capitalismo brasileiro não contou com os sentimentos de co-responsabilidade de um Rockefeller, que apesar de jogar duro na arena econômica, reconhecia a necessidade de serem criados bens públicos para sua sociedade.
Esse quadro analítico pode ser transladado para o campo do jogo político. Por mais que o poder econômico penetre nessa arena, os atores políticos responsáveis com o bem-estar de sua sociedade buscam não se deixar enredar pelos interesses do big business. Certamente podem acontecer situações embaraçosas, fatos que podem acabar sendo corrigidos com o tempo pelas urnas dos sistemas políticos democráticos.
O jogo da política é duro. Não é de hoje. Em sociedades complexas e fragmentadas, a política se equipara a arte do xadrez. Movimentos estratégicos e táticos mal-pensados podem gerar conseqüências nefastas. Podem até enganar as pessoas por algum tempo, mas acabam se revelando em algum momento histórico. A parceria entre Lula e Meirelles está nos holofotes do debate econômico atual.
Segundo dados do SIAFI, os gastos executados acumulados de janeiro a dezembro de 2007 com ‘Juros e Encargos da Dívida’ pública foram da ordem de 140 bilhões de reais. Distantes em escala de outras rubricas executadas do orçamento federal. Para ‘Saneamento’, R$39,7 milhões, ‘Ciência e Tecnologia’, R$3,3 bilhões, ‘Transporte’, R$5,7 bilhões, ‘Saúde’, R$39,4 bilhões, ‘Educação’, R$18,8 bilhões. Já para o ‘Bolsa Família’, R$9,1 bilhões. As diferenças são gritantes e não necessitam de comentários adicionais quando o assunto é prioridade.
Alguns leitores deste post podem estar tentados a fazer a comparação da parceria Lula-Meirelles com o caso do capitalista John D. Rockefeller: o que Janus oferece com as duas mãos, ele desvia com muitas outras. Para cada real gasto com o programa ‘Bolsa Família’, em 2007, R$15,38 foram direcionados para quem vive de juros e encargos da dívida pública brasileira.
Não se pode deixar de observar, entretanto, que Rockefeller sentiu-se co-responsável pelo desenvolvimento de sua sociedade. Afinal, se ele ganhava dinheiro com a mesma, nada mais natural do que retribuir para a construção de bens públicos. Certamente as preocupações morais com a história norte-americana e a reputação do nome da família fizeram parte dos cálculos de Rockefeller.
Lula estaria se movimentando estrategicamente no xadrez da arena política para abrir maiores margens de manobra para o aprofundamento de políticas progressistas? Não se mostra muito profícuo gastar linhas debatendo intenções estratégicas (Cf. MINZBERG, H.; AHLSTRAND, B; LAMPEL, J. ‘Safári de estratégia’. Bookman, 2000). Dentre os cinco P’s que podem traduzir conceitos de estratégia, não há a palavra intenção: posição; perspectiva; processo; padrão; plano. Um plano pode traduzir uma intenção estratégica. Nesse caso, basta que se analise a execução orçamentária do governo federal brasileiro.
Aos que pedem cama, não se deve olvidar que 49% dos trabalhadores brasileiros estão desempregados ou na informalidade (Cf. CEPAL, 2007). Para esses brasileiros o longo prazo é hoje!
*Doutor em Engenharia de Produção pela COPPE/UFRJ, membro da Cátedra e Rede UNESCO-UNU de Economia Global e Desenvolvimento Sustentável e da rede EFE do Levy Economics Institute of Bard College.
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12 Comments To "Lula e Meirelles – Janus da parceria insossa"
#1 Comment By Heldo Siqueira On 19 março, 2008 @ 11:15 am
Rodrigo,
estava procurando o que fazer outro dia e me deparei com esse texto.
[1]
Acho que é um retrato interessante do modo de pensar e fazer política brasileiro.
Abraço
#2 Comment By Gustavo dos Santos (meus artigos clique) On 19 março, 2008 @ 12:14 pm
Heldo,
não achei nada interessante, é apenas o pensamento de uma elite vendida e envergonhada até de ser elite. Envergonhada perante os gringos que tanto babam o ovo.
esse artigo é apenas a teoria da dependência do FHC, só que deselegante, tosca e porca.
O autor disse: “que o Brasil ruma ao colapso completo, uma cultura que estaria inegavelmente condenada a extinção. Uma figura jurídica internacional falsamente constituindo um país”(transcrição não exata, de cabeça).
Cara, isso não é válido nem para Ruanda que é o provavelemente o país de viabilidade mais difícil do planeta.
A história não está escrita. Depende apenas de nós. O mesmo vale para o povo de Ruanda, eles podem fazer o país dele o que quiserem e acreditarem, um inferno ou local maravilhoso!
Se Ruanda pode, no Brasil então, para ser um local maravilhoso é muito mais fácil.
Felizmente, só uma parte da sociedade brasileira acha isso um inferno inviável. A maioria ama o país e por isso o futuro será muito melhor sim. O progresso só está sendo lento ultimamente, porque pessoas deprimidamente pessimistas como esse autor (que adora o Olavo de Carvalho) ganham um imenso espaço na mídia conservadora e até elegeram um presidente por 8 anos, o que nos afundou em profundo pessimismo. Pessimismo esse que começou com 20 anos de uma ditadura podadora.
A mídia alimenta esse pessimismo por muitas razões, primeiro para agradar os americanos,
segundo para enfraquecer “os políticos”.
A mídia sonha com um mundo sem políticos, pois assim o que dizem, viraria crença na cabeça das pessoas e assim realidade.
os políticos, como representantes da democracia, atrapalhariam esse sonho da Grande Mídia em ser o Grande Big Brother.
Por isso repentem a idéia de que “os políticos são todos ladrões”.
Mentira!! Política é a mais nobre das profissões, é trabalhar para a coletividade,
mas é também a com mais tentações, pois a coletividade concede poder a seus representantes.
Agora, depois do infeliz governo FHC, estamos a duras penas construindo uma visão de futuro mais otimista que necessariamente se tornará realidade, pois se 190 milhões de pessoas acreditam em algo, não tem como isso não tornar realidade.
só precisamos acreditar.
abraços
#3 Comment By Rodrigo Loureiro Medeiros On 19 março, 2008 @ 12:24 pm
Prezados
O importante é centramos fogo no que realmente interessa ao Brasil como nação. Sem aceitar as cortinas de fumaça que nos apresentam ao longo dos debates econômicos e políticos.
Nosso potencial é diferenciado quando comparado com os outros países da América do Sul. Atrás dos EUA nas Américas, o Brasil é a segunda economia em termos de PIB. O PIB per capita do Canadá certamente é superior ao nosso… Lá, ao contrário daqui, a riqueza é melhor distribuída socialmente.
Um abraço,
Rodrigo L. Medeiros
#4 Comment By Heldo Siqueira On 19 março, 2008 @ 1:36 pm
Gustavo,
nos prendemos em questões diferentes do texto.
1º) concordo com vc (e não com o autor) que o Brasil tem solução. Senão faria como o autor e estaria me preocupando mais em sair daqui que em discutir assuntos de política e economia regionais.
2º) a solução passa indubitavelmente por uma mudança na forma de pensar a inserção política individual. Achei interessante a discussão dele de como as posições políticas (basicamente o egoísmo) no caso brasileiro é destituído de qualquer preocupação filosófica.
E, na verdade, quando se busca uma explicação filosófica é, apenas, para justificar uma ação. Quer dizer, as ações não são baseadas pela filosofia, mas justificadas por ela. Como o BC, que toma uma decisão política, mas não tem coragem de dizer que a decisão é política. E justifica dizendo que está fazendo uma coisa boa para o povo, que é defender a moeda local da desvalorização que provocaria o empobrecimento da classe trabalhadora.
Essas pessoas simplesmente ignoram o debate! Fingem que existe uma unanimidade (n”o mercado” até que existe, mas dizem que toda a unanimidade é burra) frente a condução da política econômica. Mas o que precisa ficar claro é que essa gente não quer discutir, na verdade, a elite quer acreditar na unanimidade, quer a cobertura viesada das eleições e quer achar que está fazendo a coisa certa. Fico indignado, como vc, pq não faço parte dessa unanimidade e ficamos simplesmente sem ter com quem reclamar.
Acho que o autor está certo em reconhecer que isso acontece, apesar de achar que erra ao dizer que todos pensam assim. O debate nunca foi travado, pq fica um pessoal com uma unanimidade ortodoxa made in Chicago no mercado e uma outra unanimidade heterodoxa nas universidades. Eu acho que a solução é chamar essa gente pra briga e mostrar pq estão errados, mas não ignorá-los.
Portanto, acho que a grande contribuição da política econômica do Lula foi abrir espaço para alguns heterodoxos terem onde falar. Um Ministro da Fazenda que defende programas desenvolvimentistas, um Presidente do IPEA que fala em políticas sociais, um Chanceler que fala em liderança regional e políticas de integração…
Abraços
#5 Comment By Gustavo dos Santos (meus artigos clique) On 19 março, 2008 @ 4:34 pm
Heldo,
concordo plenamente com você, que é sempre muito perspicaz.
Mas acho que não entendi exatamente o que tem de original no tal texto que está se referindo.
confesso que li em diagonal.
mas continuo não estou pegando o que vc está vendo como original.
abraços,
Gustavo
#6 Comment By Rodrigo Loureiro Medeiros On 19 março, 2008 @ 5:24 pm
Prezados
Existem algumas boas iniciativas no governo Lula. No entanto, as mesmas são incapazes de compensar o Janus da insossa parceria Lula-Meirelles. Claro que há quadros excelentes no governo federal. Muitos estão em sintonia com as propostas de pleno emprego que defendemos neste blog.
Não podemos ficar presos a análises de boas intenções do governo Lula. Vamos aos números e as relações de causalidades na economia política. Procurei fazer isso no artigo.
Um abraço,
Rodrigo L. Medeiros
#7 Comment By Bruno On 19 março, 2008 @ 7:43 pm
Concordo com o Rodrigo. Os juros compensam as medidas boas do governo. Eu continuando apoiando esse governo, porque a oposição se mostra a cada dia pior.
#8 Comment By Eduardo Alves On 19 março, 2008 @ 10:42 pm
Sob qualquer ângulo que se observe, o governo Lula está bem, porém poderia estar muito melhor. Ele caminha com a idéia dos juros altos/conservadores porque acha que esse é o tamanho do passo que o Brasil pode dar.
Não esqueçamos que ele viveu a ditadura, sofreu as ideologias da época, viveu os traumas que políticos modernos, mais progressistas, não viveram.
Não estou colocando panos quentes. Sou solidário a todos nas críticas. A situação poderia estar melhor. Estamos perdendo oportunidades redentoras de crescimento.
Depois que a direita falhou e a esquerda não correspondeu ao esperado, esse é o momento de a centro-esquerda se unir em torno de um projeto nacional, única forma de o Brasil desencantar de vez, em todos os setores.
Abraços,
#9 Comment By Heldo Siqueira On 19 março, 2008 @ 10:49 pm
Gustavo,
simplesmente achei interessante o fato de o carinha assumir que sabe que a filosofia que defende não está baseada em nada concreto (como a maior parte da política brasileira). Seria muito mais fácil se parte da mídia fizesse isso e o Meirelles também. Não sei se é original, mas é bem peculiar.
Rodrigo,
entre os arautos ceguetas do mercado financeiro, já vejo o George Vidor, por exemplo, com um discurso um pouquinho mais desenvolvimentistas, repetindo coisas que o Mantega falta. E acho que outros aparecerão conforme alguns economistas sérios (ao contrário dos do BC) ganham espaço.
Bruno,
eu até tento entender gente desonesta na política… Mas gente limitada, como na oposição brasileira, fica duro de aguentar. Essa gente acha que pode contar a mesma mentira (que o FHC e o Serra já fizeram alguma coisa pelo país) para sempre, sem que ninguém perceba. Tipos peculiares com certeza!
Abraços a todos
#10 Comment By Rodrigo Loureiro Medeiros On 20 março, 2008 @ 9:57 am
Prezados
Dominique Strauss-Kahn, diretor-gerente do FMI, rechaça a tese do descolamento dos emergentes da crise nos EUA. Segundo a análise econométrica feita pelo FMI, para cada ponto percentual de queda na economia norte-americana os emergentes desaceleram de 0,5% a 1,0%.
Essa banda de variação depende do grau de relacionamento comercial com os EUA e do PIB da economia emergente. Strauss-Kahn, por sua vez, propõe uma agenda keynesiana para enfrentar a crise norte-americana.
E o Janus da parceria insossa Lula-Meirelles ainda resiste em reduzir gradualmente a taxa básica de juros a patamares internacionais. Sobrariam certamente mais recursos nos orçamentos públicos para as políticas sociais e os necessários investimentos em infra-estrutura. O mundo ingressou num ciclo de taxas básicas de juros nominais e reais de um dígito. Em muitos casos, taxas básicas de juros reais negativas.
Bernanke, chairman do Federal Reserve, vem promovendo o ultrakeynesianismo, fato que nos oferece margens de manobras crescentes para crescer com eqüidade a partir das políticas públicas estruturadas nos orçamentos públicos.
Neste primeiro momento do processo faz-se necessário reduzir a cacofonia produzida pelo neoliberalismo. O governo do presidente Lula poderia estar fazendo mais pelo Brasil. Vejam os números da execução do orçamento federal no artigo que escrevi logo acima.
Um abraço,
Rodrigo L. Medeiros
#11 Comment By pauloo rubem santiago On 21 março, 2008 @ 11:06 am
Imagino algumas opções para encararmos os números da execução orçamentária vigente no Páis. A primeira é não nos limitarmos ao binômio direita-esquerda. A segunda é trabalharmos a categoria de análise da prioridade. Por que juros e encargos da dívida estão, faz tempo, em primeiro lugar ?
Dizem muitos que são as necessidades do “mercado”, para não espantarmos os investidores. Tá certo. O mercado venceu as eleições de 2002 e 2006, então ?
Ou ratificaremos a tese do respeito aos contratos. E o que dizermos, nessa ordem de prioridades, dos contratos sociais previstos na constituição, eternamente descumpridos ou lembrados à conta-gotas ?
O que se percebe é que a esquerda que elegeu LULA limita-se a ser governo, aos cargos e benesses do estado às suas inúmeras centrais sindicais. A autonomia dos partidos em relação ao governo e ao estado deixou de existir.
Nos partidos aliados a máxima, com raras excessões, é obter mais cargos e estruturas de poder no aparelho de estado.
Quais foram seus grandes congressos nos últimos anos, sacudindo a ortodoxia de LULA-MEIRELLES na gestão da macroeconomia ?
Onde estão as novas teses para a economia, para a gestão da dívida pública, para a submissão democrática das decisões econômicas aos objetivos nacionais ?
É preciso avançar para fazer com que sejam criadas as condições necessárias à construção do projeto de desenvolvimento no qual a supremacia das ações e dos projetos seja ocupada gestão das contas públicas, da moeda e do emnprego visando atingirmos a progressiva determinação do artigo 3o.da CF de 1988.
#12 Comment By Rodrigo Medeiros On 21 março, 2008 @ 2:41 pm
Prezado Paulo
Obrigado por deixar suas opiniões. Busquei no artigo postado provocar essa necessária discussão. Defendemos neste blog políticas de pleno emprego que estão em consonância com os princípios norteadores da Constituição Federal de 1988. Sabemos como a mesma vem sendo retalhada e politicamente relativizada nos últimos anos.
Defendemos um Estado de bem-estar social democrático, moderno em termos de competitividade da economia nacional, integrador de visões de país e pluralista do ponto de vista político. Creio que só conseguiremos isso com a união de forças em torno do centro do espectro político-ideológico. O problema no momento é que o jogo está muito desequilibrado. Para cada real gasto com o programa ‘Bolsa Família’, em 2007, R$15,38 foram direcionados efetivamente para quem vive de juros e encargos da dívida pública brasileira.
O Brasil possui um potencial diferenciado na América do Sul. Nas Américas, somos a segunda economia do continente. Atrás dos EUA. Tudo bem, muito atrás… Nossas teses estão expostas neste blog. Recomendo a cartilha do pleno emprego: “Momento Nacional”.
Não somos donos da verdade. Apenas estamos buscando contribuir para a construção da grande nação que podemos ser. Se analisarmos o potencial dos países a partir de três variáveis – PIB, demografia e extensão territorial -, como fazem os adeptos da Realpolitik, o Brasil estaria entre o ranking dos quinze do mundo. Nada desprezível.
A questão é saber se a riqueza gerada endogenamente no Brasil será utilizada para a construção de uma grande nação ou simplesmente para enriquecer meia dúzia de associados ao capitalismo global. Não podemos aceitar passivamente mais quinhentos anos de periferia. Penso que a agenda macroeconômica atual é passiva em relação às reais possibilidades brasileiras.
Um abraço,
Rodrigo L. Medeiros