Juro alto, e não preço de commodity, é o problema
Escrito por Imprensa, postado em 25 dEurope/London março dEurope/London 2008
Publicado originalmente por Gazeta Mercantil em 24.03.2008
O movimento de queda no preço das commodities era esperado, mas o que ninguém previu foi a sua violência. A rigor, desde janeiro, o mercado convivia com curioso paradoxo. De um lado, eram notórios os sinais de desaquecimento na maior economia do planeta, a norte-americana, e, de outro, o preço das commodities, que deveria recuar nesse cenário, invertera a tendência e os preços dispararam no primeiro mês do ano, apesar de toda a volatilidade no mercado acionário mundial.
Esse paradoxo tinha uma explicação objetiva. Frente aos crescentes indícios de uma recessão nos Estados Unidos, muitos investidores venderam suas posições, tanto de empresas como de títulos da dívida e se refugiaram no que consideraram ativos mais seguros, as commodities mais procuradas, que ofereciam índices de rentabilidade muito altos. O impacto dessas seguidas opções de compra alterou rapidamente os preços desses produtos com seguidas altas. Como sempre o balizador desse processo foram o petróleo, que na segunda semana de março alcançou alta de 5%, e o ouro, que subiu em um único dia dessa semana 3%. Observadas em período mais longo, desde janeiro, outras commodities tiveram altas espetaculares, como o aumento de 40% no preço do cacau entre o início de janeiro e 10 de março, de 38% no café, 34% no gás natural, 29% no trigo e 28% no alumínio.
Essas subidas instantâneas de preço nesses índices constituíam uma autêntica bolha, que quando estoura produz os resultados conhecidos. Com a mesma velocidade da subida, o petróleo caiu na quarta-feira passada 4,51%, a maior queda em um único dia desde 1991, enquanto o ouro perdia 5,9%, o maior recuo em um só dia em 28 anos. Outras commodities já vinham sinalizando queda desde a primeira semana de março e somavam na quarta-feira passada perdas de 19% no caso da soja, de 21% no café, 23% no açúcar e 16% no trigo nesse período.
Alguns analistas explicaram a perda das commodities pela preocupação com os índices inflacionários que o Federal Reserve (Fed), o banco central norte-americano, embutiu no comunicado divulgado na terça-feira, depois da reunião em que cortou a taxa básica de juro em 0,75 ponto percentual. O conhecido “efeito manada” trocando posições sustentadas em commodities por títulos do Tesouro gerou rápida queda brutal desses produtos. O salto no número de contratos na Bolsa de Chicago, entre fevereiro e março, confirma a velocidade com que os investidores voltaram-se para a opção das commodities. Quando a sensibilidade do investidor mudou de lado, a velocidade de saída levou a um desabar de preços como há muitos anos não se via.
Esse movimento deve gerar repercussões preocupantes na economia brasileira. O primeiro impacto será a perda de receita exportadora com o recuo nos preços dos produtos básicos, acompanhando o possível desaquecimento da demanda mundial. A economia chinesa, motor da expansão dos últimos anos, comunicou na sexta-feira a elevação, pela segunda vez neste ano, do depósito compulsório que os bancos devem fazer no banco central chinês, para retirar dinheiro de circulação e combater a inflação, que chegou a 8,7% nos últimos doze meses, referência fevereiro. Com toda certeza, os chineses não devem parar de comprar alimentos, mas a procura pode recuar, atingindo ainda mais o preço das commodities no mercado mundial.
A repercussão mais preocupante dessa perda de valor dos produtos básicos, no entanto, diz respeito à liberação dos recursos aplicados nesses produtos, que devem sair em busca de remuneração mais promissora. Nesse caso, as operações de arbitragem com o real representam uma atração irresistível. Vale notar que apenas na primeira quinzena de março entraram no Brasil, segundo o Banco Central, US$ 9,76 bilhões. Essa conta financeira registrou a movimentação feita principalmente pelos bancos em aplicações que somaram US$ 7,133 bilhões nesses 14 dias de março. Esse capital está interessado na remuneração real de 6,4% anual, descontada a inflação, quando o investimento em dólar enfrenta juro negativo.
A queda de preço das commodities evidentemente preocupa, mas a diferença entre a taxa de juro interna em real e a externa em dólar preocupa mais. A hipótese de perdurar a chuva de dólares na direção do Brasil é alta. No próximo dia 15 de abril começa a nova reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), que deverá decidir sobre a retomada ou não da queda dos juros no País. Quanto mais dólares entrarem, maior será a apreciação do real, com todos os seus reflexos, de prejudicar exportações e facilitar importações. Caberá ao Copom decidir se a especulação internacional continuará a ser bem recebida quando o mundo todo se protege dela. Se o juro não voltar a cair, e rápido, o Brasil se converterá em autêntica “terra prometida” para o especulador internacional. Seja qual for o preço das commodities.










