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Blog do Desemprego Zero

ESTATUTOS DO HOMEM

Escrito por NOSSOS AUTORES, postado em 9 dEurope/London março dEurope/London 2008 Imprimir Enviar para Amigo

Enviado por Maria de Fátima *

Por Thiago de Melo

Artigo 1.

Fica decretado que agora vale a verdade,

Que agora vale a vida

E que de mãos dadas

Trabalharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo 2.

Fica decretado que todos os dias da semana,

Inclusive as terças-feiras mais cinzentas,

Têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo 3.

Fica decretado que, a partir deste instante,

Haverá girassóis em todas as janelas,

Que os girassóis terão direito a abrir-se dentro da sombra,

E que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,

Abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo 4.

Fica decretado que o homem

Não precisará mais duvidar do homem.

Que o homem confiará no homem

Como a palmeira confia no vento,

Como o vento confia no ar,

Como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo único:

O homem confiará no homem

Como um menino confia em outro menino.

Artigo 5.

Fica decretado que os homens

Estarão livres do jugo da mentira.

Nunca mais será preciso usar a couraça do silêncio

Nem a armadura de palavras.

O homem se sentará à mesa

Com seu olhar limpo,

Porque a verdade passará a ser servida

Antes da sobremesa.

Artigo 6.

Fica estabelecida, durante dez séculos,

A prática sonhada pelo profeta Isaías,

E o lobo e o cordeiro pastarão juntos

E a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo 7.

Por decreto irrevogável fica estabelecido

O reinado permanente da justiça e da claridade

E a alegria será uma bandeira generosa

Para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo 8.

Fica decretado que a maior dor / sempre foi e será sempre

Não poder dar-se amor a quem se ama

E saber que é a água / que dá à planta o milagre da flor.

Artigo 9.

Fica permitido que o pão de cada dia

Tenha no homem o sabor do seu suor,

Mas que sobretudo tenha sempre / o quente sabor da ternura.

Artigo 10.

Fica permitido a qualquer pessoa,

A qualquer hora da vida, / o uso do traje branco.

Artigo 11.

Fica decretado, por definição,

Que o homem é um animal que ama

E que por isso é belo, / muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo 12.

Decreta-se que nada será obrigado nem proibido.

Tudo será permitido, / inclusive brincar com os rinocerontes

E caminhar pelas tardes

Com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único:

Só uma coisa proibida: / amar sem amor.

Artigo 13.

Fica decretado que o dinheiro

Não poderá nunca mais comprar / o sol das manhãs vindouras.

Expulso do baú do medo,

O dinheiro se transformará em uma espada fraternal

Para defender o direito de cantar / e a festa do dia que chegou.

Artigo final.

Fica proibido o uso da palavra liberdade,

A qual será suprimida dos dicionários / e do pântano enganoso das bocas.

A partir deste instante

A liberdade será algo vivo e transparente

Como um fogo ou um rio,

Ou como a semente do trigo,

E a sua morada será sempre o coração do homem.

Maria de Fátima de Oliveira: natural do Ceará, veio para o Rio aos 26 anos, filiada a uma instituição religiosa. Na PUC-Rio, fez Licenciatura em Filosofia e Mestrado em Educação. Começou a trabalhar na área de jornalismo em 1976, na Pesquisa do Jornal do Brasil. Depois, na Secretaria de Comunicação Social do ex-BNH e, por último, na TVE. É autora de poemas, letras de cânticos religiosos e do livro inédito Labirintos de Areia. Meus artigos  Contato: oliveirafatima13@gmail.com



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