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Entrevista com Antônio Delfim Netto

Posted By Imprensa On 15 março, 2008 @ 9:00 am In Desenvolvimento,O que deu na Imprensa,Política Brasileira,Política Econômica,Política Social | 5 Comments

Publicada originalmente na Revista Desafios do Desenvolvimento [1], na Edição 39, janeiro/2008

Por Jorge Luiz de Souza

Governo faz discurso, quem faz o desenvolvimento é o empresário, o espírito animal do empresário. Foi isso que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva acordou. Estava dormindo. O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) teve esse mérito. O PAC na verdade pôs na mesa de volta o problema do crescimento.”

Desafios – O que o aproxima do atual governo?

Delfim – Eu admiro a política do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O Lula teve uma intuição correta quando deu ênfase para melhorar a igualdade de oportunidade no Brasil.Para o mercado funcionar, ele tem que ter um mínimo de moralidade. E a moralidade no mercado vem da igualdade de oportunidade. É como uma corrida, e para que as coisas funcionem é preciso que todo mundo parta mais ou menos do mesmo ponto.Talvez seja o papel fundamental do Estado: igualizar as oportunidades. O governo Lula é a intuição do Lula. Só isso. Na verdade, é o único sujeito no Brasil que quando fala em pobre está falando seriamente. Todos nós somos cínicos…

Desafios – O senhor faz críticas à política econômica?

Delfim – A economia é uma ciência moral e está longe de ser uma ciência exata. Ser constituída de escolas já mostra que existem múltiplas visões no mundo. Uns crêem que o mercado seja capaz de produzir por si mesmo o equilíbrio, e outras, como é o meu caso – nem sei o que eu sou, certamente eu diria que talvez seja um keynesiano de pé quebrado. O certo é que o funcionamento da economia depende de um Estado. O mercado exige algumas coisas importantes, a primeira delas é a propriedade privada. Ora, quem garante a propriedade privada? É o Estado. Quando eu vejo um sujeito dizer que “nunca houve uma interferência do Estado nos programas de industrialização bem-sucedidos do mundo”, acho isto uma tolice monumental, de uma ignorância histórica gigantesca. Nunca houve nenhum processo de desenvolvimento no mundo em que o Estado não estivesse atrás, até hoje. Só que de vez em quando está bem escondido.

Desafios – Mas a economia planificada não tem feito sucesso…

Delfim – Ninguém defende a economia planificada. A tolice daquela economia era querer planificação sem preço. A vantagem do mercado é que ele não foi inventado, ele foi descoberto. E o homem não descobriu nenhum mecanismo mais eficaz do que o mercado para realizar o sistema produtivo. Produção é certamente um problema técnico. Distribuição, não, é um problema político. Adam Smith e Stuart Mill sabiam disto muito antes do que Karl Marx. O mercado é muito compatível com a liberdade, mas obviamente é um produtor de desigualdades. E para que as desigualdades sejam aceitas é preciso que elas partam do mesmo lugar. O homem é naturalmente diferente. Ninguém quer a igualdade no final, nós queremos a igualdade no começo. O resultado final é diferenciado mesmo. Mas essa diferenciação é aceitável porque eu parti do mesmo lugar, tinha duas pernas, e cansei antes do outro.

Desafios – O papel do Estado é regular o tiro de partida?

Delfim – É garantir minha posição no mundo, independentemente de onde eu nasci. Se nasci num lar de religião católica ou protestante, se eu sou branco ou preto ou amarelo, se nasci no Morumbi ou no Cambuci. Na verdade, isso não se consegue, é uma meta, é uma assíntota, que vai se aproximando dela à medida que suas políticas sociais são corretas.

Desafios – O exemplo aí inclui a si próprio?

Delfim – Eu sou um exemplo do ensino gratuito. Gastei 6 mil réis para fazer o curso inteiro na Universidade de São Paulo (USP). Passei no vestibular, comprei um selo para colocar no requerimento de matrícula na USP e lá eu recebi tudo: aula, papel, lápis, borracha, livros, professores, máquinas para calcular, o que precisasse. É um processo de igualização de oportunidades. É claro, era para um número restrito.

Desafios – Hoje ampliou um pouco mais do que naquela época.

Delfim – É claro, muito mais do que era,nem se compara.Mas o que eu digo é o seguinte: esses mecanismos de igualização são fundamentais porque eles é que dão moralidade para o mercado. Não adianta imaginar, nem Hugo Chávez nem Evo Morales são produtos do acidente e da vontade. O caso do Morales é típico. O plano de estabilização do Jeffrey Sachs em 1985 pôs a Bolívia em ordem, o que parecia impossível. O que eles tinham esquecido? O índio. Quando abriu a urna, o índio veio e falou. Então, quando se têm essas duas instituições funcionando juntas, o mercado e urna, se o mercado exagera numa direção, a urna corrige. Se exageramos o consumo no presente, teremos menos crescimento e menos consumo no futuro. Se exageramos no investimento no presente, tem-se provavelmente um sacrifício que não é aceito na urna. Essa é, na minha opinião, a virtude do Lula. A minha admiração tem origem no fato de que ele intuiu esta circunstância. [...]

Clique aqui para ler a entrevista na íntegra [2]


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5 Comments To "Entrevista com Antônio Delfim Netto"

#1 Comment By Rodrigo Medeiros On 15 março, 2008 @ 1:47 pm

Prezados

Recomendo a leitura da entrevista do Delfim Netto, um grande encantador de serpentes da economia política no Brasil. Trata-se de um economista capaz de agradar com sua oratória interesses diferentes e conflitantes. Vejamos algumas passagens:

Desafios – E como o senhor vê a Venezuela?
Delfim – É um caso típico de um psicopata que se apropriou de um país que antes dele foi apropriado por cleptomaníacos. Um psicopata que sucede cleptomaníacos é uma comédia de erros. A urna está corrigindo nos dois sentidos. Eu não sei por que as pessoas estão preocupadas. Vamos ver daqui a 25 anos um homem novo nascido na Venezuela.

E para quem ainda tem dúvidas quanto às propostas de pleno emprego defendidas neste blog, sentencia Delfim Netto: “O investimento é que produz a poupança, e não o contrário”. Uma boa síntese de um keynesiano de pé quebrado, como ele mesmo se define na entrevista.

Discordo de algumas linhas da entrevista: “O juro no consumo é tão alto que não tem nada a ver com a Selic. O consumidor paga 4% de juros ao mês e a Selic está em 11,25% ao ano”. O elevado spread bancário tem tudo a ver com a política monetária vigente, pois os bancos preferem os tranqüilos e acelerados ganhos do cassino financeiro do que assumir riscos de viabilizar investimentos produtivos e consumo. Ainda mais se não forem pressionados pela autoridade monetária a fazê-los.

Capitalismo ruim x capitalismo bom? Não é só isso. Acorda presidente Lula! O doutor Meirelles está fazendo o Brasil perder oportunidades concretas de crescimento econômico. Continuamos na lanterninha dos emergentes… De FHC a Lula. Parecidos, porém não iguais.

Um abraço,

Rodrigo L. Medeiros

#2 Comment By Gustavo dos Santos (meus artigos clique) On 16 março, 2008 @ 4:22 pm

Rodrigo,
Acho que o Delfim foi muito duro com o Chavéz,
claro que não surgirá um novo homem, mas há avanços lá também.
há avanços sociais e educacionais importantes.
outra coisa importante é:
nunca mais a elite venezuelana desprezará o povo e este nunca mais se submeterá. Mesmo depois do Chavéz sair do governo. Isso é um legado. Claro que o Chavéz comete muitos erros e o maior deles na minha opinião é não conseguir reduzir a dependência venezuelana em relação ao petróleo. Ele não faz isso porque gasta energia demais em conflitos diversos que poderiam ser evitados ou no mínimo amenizados. Essa dependência cobrará seu preço quando levar ao enfraquecimento econômico do país. quando isso acontecer, os inimigos dele cairão em cima e poderá ser uma tragédia.

concordo com vc com relação à Selic, ela tem grande responsabilidade sobre o tamanho do Spread.
abraços

#3 Comment By Rodrigo Loureiro Medeiros On 16 março, 2008 @ 8:35 pm

Caro Gustavo

Só busquei mostrar como o Delfim Netto é um grande encantador de serpentes. Ele é capaz de falar aquilo que se deseja escutar. Equilibra desenvolvimentista de centro-esquerda com conservadorismo pró-sistema financeiro.

Um grande encantador de serpentes! Enfeitiçou até o presidente Lula. Chávez não é um psicopata. Ele é confuso, possui um forte viés autoritário e centralizador, características do personalismo hispano-americano, e vem sendo mal orientado por assessores e consultores.

Lembra do artigo que escrevi sobre integração regional no Valor Econômico (26/11/2007)? Escrevi que os arautos da geopolítica sul-americana, os aprendizes de feiticeiros, iriam correr para articular um fundo soberano. Pois bem, pelo jeito, jogaram um projeto no colo do senador Renato Casagrande (PSB-ES).

E o respectivo senador, ao invés de cobrar a tal aceleração do crescimento, já está nos holofotes das esquerdas. Ele poderia muito bem da cômoda base governista interpelar o senhor Henrique Meirelles sobre a condução da política monetária e dizer que há espaços para a queda gradual da Selic e a expansão administrada da oferta monetária (M3). O Banco Central (BC) tem instrumentos para equilibrar crescimento com inflação módica.

Atuando em conjunto com a Fazenda, tudo ficaria mais fácil. Minha grande dúvida é se não precisaremos debater a questão da reforma gerencial do Estado brasileiro em um próximo momento.

Um abraço,

Rodrigo L. Medeiros

#4 Comment By Gustavo dos Santos (meus artigos clique) On 16 março, 2008 @ 10:46 pm

Rodrigo,
concordo com vc. Lembro do artigo sim.
A grande questão é que os governos democráticos no Brasil, quando são de esquerda ou tem propostas mais progressistas, se vêem “compelidos” a conceder o Banco Central aos poder dos grandes bancos.
Isso não é um necessidade irremediável, mas é uma situação cômoda para reduzir o conflito e focar no que o governo considera essencial. Os grandes bancos querem o banco central por motivos diversos (inclusive para ter controle sobre a própria fiscalização bancária). O problema é que o governo Lula cometeu e continua cometendo o grande erro de tratar o Meirelles como um banqueiro independente.
Isso é uma estupidez, porque não era necessário, ele poderia ter dado o cargo ao Meirelles e dito, diga que é independe, mas siga minhas ordens, quero juros baixos e câmbio desvalorizado.
Mas não, Lula deu carta branca ao Meirelles, que VENDE SEU PODER CARO exatamente para aqueles que querem ver o governo Lula fraco, sem poder de pressão e mudança e sem capacidade de eleger sucessor.
Na verdade, eles não conseguiram isso, em decorrência de outros programas do governo, que apesar de baratos, são eficazes para obter apoio popular. A falta de propostas da oposição também ajuda.
Eles não conseguiram deixar baixa a popularidade do Lula, mas conseguem evitar que chegue próximo de 80%, o que seria o caso se tivéssemos crescendo acima de 7% desde 2004.
Nessa situação, Lula seria imbatível em todas eleições do país, de municípios a estados e sucessor e passaria a lei que quisesse no planalto, mesmo aquelas que não são do interesse da Grande Mídia e dos Grandes Bancos. PSDB e DEM seriam partidos marginais.
Entende, como é FUNDAMENTAL para os grandes tubarões manter essas taxas de juros tão altas?
sem isso todo o sistema político brasileiro estaria nas mãos do PT e base aliada, como no plano cruzado em 1986 que com 6 meses de crescimento e inflação baixa elegeu 23 GOVERNADORES!!
Entende o temor que o ALTO CRESCIMENTO IMPLICA?
Meirelles é a última trincheira para impedir isso ELE SABOTA CONSCIENTE E PLANEJADAMENTE O GOVERNO LULA E VENDE LITERALMENTE ISSO NO “MERCADO NEGRO POLÍTICO”.
essa questão já foi codificada há 6 décadas:
[3]
[4]
abraços,
Gustavo

#5 Comment By Rodrigo Loureiro Medeiros On 17 março, 2008 @ 9:31 am

Caro Gustavo

Concordo contigo. O BC do Meirelles é a principal trincheira da oposição. Infelizmente a base governista, refiro-me aos partidos ditos de esquerdas, não entendem muito de política econômica e considera a gestão macroeconômica um sucesso do Lula. Gente bem intencionada…

Lula “manteve os fundamentos sólidos”. Brincadeira! Meirelles decide na prática como os orçamentos públicos federal, estaduais e municipais serão efetivados no Brasil. A partir da administração da política monetária se decide a quantidade de recursos públicos gasta com as políticas sociais. Se o bolsa família leva X bilhões de reais, por exemplo, dez vezes mais recursos acabam direcionados para as pessoas que vivem de juros altos e amortizações da dívida pública. Uma assimetria de beneficiados pelo gasto público reforçando a concentração de renda e o status quo.

Um abraço,

Rodrigo L. Medeiros


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[1] Revista Desafios do Desenvolvimento: http://desafios2.ipea.gov.br/003/00301009.jsp?ttCD_CHAVE=3616

[2] Clique aqui para ler a entrevista na íntegra: http://desafios2.ipea.gov.br/sites/000/17/edicoes/39/pdfs/rd39not01.pdf

[3] : http://desempregozero.org/2008/03/07/os-aspectos-politicos-do-pleno-emprego/

[4] : http://criticaeconomica.wordpress.com/2007/10/11/por-que-o-brasil-nao-cresce-porque-o-meirelles-ainda-nao-e-presidente/

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