Campeões de juros, lanternas em competitividade
Escrito por Rogério Lessa, postado em 12 dEurope/London março dEurope/London 2008
Real forte, indústria fraca
Enquanto o ministro da Fazenda, Guido Mantega, admitia no início da semana preocupação com o “derretimento” do dólar, o presidente Lula declarava, ter autorizado a equipe econômica a tomar medidas contra a deterioração das contas externas.
O economista Miguel Bruno, do Grupo de Conjuntura do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) pondera, porém, que, em vez de decisões em nível microeconômico, o governo poderia simplesmente baixar os juros. E, se necessário, impor algum controle sobre o fluxo de capitais, ainda que temporário. “Voltamos ao topo das taxas do juros do mundo. Juros altos inflam as reservas e contribuem para a queda do dólar. Claro que isso tem impacto na balança comercial. Outra medida, além de baixar os juros, seria restringir a liberalização financeira. Estamos pagando o preço pela desregulação. O detentor do capital vem atrás da lucratividade e da possibilidade de saída a qualquer momento. Então, dirá que não aceita controle.”
“Como bem destacou Keynes, nem tudo que é benéfico em nível microeconômico será bom no plano macro e quanto ao desenvolvimento. Daí a necessidade de atuação do Estado“. Bruno acrescenta que, embora o dólar possa se ajustar no médio prazo, isso pode demorar: “Até lá, quanto da economia será afetado de maneira irreversível?”
Reprimarização financeirizada
O presidente do Ipea, Marcio Pochmann, me disse hoje que o crescimento do PIB acima de 5% em 2007 teve como destaque o desempenho do setor agroexportador e que isto reforça a especialização produtiva em atividades primárias. “Se olharmos o crescimento de forma desagregada, veremos que o setor primário foi o que mais cresceu. Arroz café e milho tiveram variação negativa, enquanto culturas de exportação foram as de melhor desempenho. O crescimento do setor financeiro também indica que o processo de financeirização da economia continua”, avalia.
Pochmann, no entanto, lembra que, do ponto de vista da demanda, foi o investimento quem mais se expandiu. “Já são 41 meses que o investimento cresce o dobro do PIB, enquanto o PIB per capta se expandiu 4%, algo comparável ao período do ‘milagre econômico’, na década de 70.”
Para o presidente do Ipea, isso garante a continuidade da expansão, ao menos este ano. “Daí em diante, vamos continuar dependendo da posição do Banco Central e da situação internacional”, ressaltou, acrescentando que, em termos reais, a taxa de juros caiu muito pouco no país, que voltou ao topo da lista das mais altas do mundo.
Microexportadoras em queda livre
O Sebrae informou que, entre 2005 e 2006, o número de pequenas e micro empresas exportadoras caiu 4,4%, em 2006, sobre o ano anterior, de 13.538 para 12.998. Na outra ponta, o vice-presidente da Associação de Comercio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, me disse que, somente em janeiro deste ano, foram criadas 1.935 empresas importadoras, contra 4.339 abertas durante todo o ano de 2007.
“Com esse câmbio, a pequena empresa exportadora é a primeira a sentir. E o número de importadoras poderia ser maior, mas nem todas as pretendentes conseguem autorização oficial para importar“, comentou, identificando uma “volúpia importadora” fomentada pela política cambial. “Na média, as importações já estão crescendo acima de 50%.”
A AEB, segundo seu vice-presidente, ainda mantém a projeção de saldo comercial na faixa dos US$ 30 bilhões, mas desde que os preços das commodities se mantenham elevados. Para 2009, aumentam as incertezas, de acordo com Castro, que não acredita em mudança na política cambial.
Juro inviabiliza política industrial
“A desvalorização do dólar é resultado da maior taxa de juros real do planeta aliada à liberdade de movimentação do capital. Sem mexer nisso, não há como fazer política industrial.” A crítica é da economista Sandra Quintela, do Instituto de Políticas Alternativas para o Cone Sul (Pacs) ao comentar a promessa do governo de lançar uma nova política industrial, em breve:
“Manter esse modelo torna inviável estimular o investimento produtivo, mesmo da parte das multinacionais que operam no país, sem transferência de tecnologia”, pondera.
“É importante voltar a taxar o capital especulativo. Permitir que os exportadores mantenham seus ganhos em dólares mais tempo no exterior não deve dar certo, pois nenhum exportador vai deixar de aproveitar o ganho simultâneo com juros absurdos e com a desvalorização do dólar.”
Sobre a possibilidade de o governo adotar alguma dessas medidas, como se comenta em Brasília, ela avalia que tudo dependerá do presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles: “Ele é o dono da chave do cofre. Como é ligado ao sistema financeiro, é pouco provável que aceite taxar o capital especulativo”, resumiu.











12 dEurope/London março, 2008 as 7:05 pm
Texto muito bom.
12 dEurope/London março, 2008 as 10:49 pm
Também gostei muito! Rogério, você foi nos pontos!!