As inconsistências do Banco Central
Escrito por Imprensa, postado em 31 dEurope/London março dEurope/London 2008
Publicado originalmente no Blog Luís Nassif Online, em 28/03/2008
Por Luís Nassif
Coluna Econômica
A política econômica continua focando o objetivo errado. O último Relatório de Inflação divulgado na quinta-feira passada mostra dois quadros:
- A inflação tem sido importada – devido ao aumento de preços das commoodities internacionais e de algum choque agrícola (como o feijão).
- A principal peça do combate à inflação tem sido o setor externo – com o câmbio apreciado permitindo o barateamento das importações e reduzindo os excedentes exportáveis.
Ou seja, se a situação das contas externas degringolar e o câmbio se desvalorizar, todo esforço despendido no combate à inflação irá por água abaixo. Logo, manter as contas externas em ordem é um imperativo não apenas para garantir a manutenção do crescimento como o próprio controle da inflação.
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O Relatório mostra a deterioração das contas externas, admite que este ano haverá o primeiro déficit em cinco anos, mas diz que será facilmente financiável por investimentos externos. Esta é a conclusão geral do relatório e não bate com outras peças do próprio relatório.
Quando se desagrega o relatório e se avalia separadamente cada item relacionado às contas externas, não há nada que justifique a conclusão otimista:
- Em relação à balança comercial, o Relatório admite que a tendência é de esfriamento da economia mundial e, conseqüentemente, a queda na demanda e nos preços dos principais produtos de exportação brasileiros.
- Na avaliação da situação atual da balança, mostra que cresceu substancialmente o “quantum” (quantidade) de importados; enquanto do lado das exportações, o aumento maior foi de preços. Significa que, se houver uma queda generalizada dos preços internacionais, o tombo maior será do lado das exportações.
- Diz que o déficit externo será financiado por investimentos externos. Mas prevê um aumento nos juros na Europa e Japão (o que reduziria a atratividade do Brasil) e admite que o agravamento da crise aumentará a percepção de risco dos investidores internacionais, reduzindo o fluxo para países emergentes.
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Em suma, uma relação considerável de fatores de risco para as contas externas. Mesmo assim, a conclusão do relatório é de um otimismo de poliana. Primeiro, conclui que este ano não haverá dificuldades para financiar as contas externas – como se uma política de combate à inflação se restringisse a um ano. Depois, sustenta que, em caso de problemas nas contas externas, o câmbio é flutuante mesmo.
Ora, isso não é argumento. O papel do BC é o de minimizar choques internos. Caso não se cuide a tempo das contas externas, o Brasil ficará vulnerável à crise internacional. Haverá então um choque cambial que levará o dólar de novo às alturas. E aí ocorrerá todo o desarranjo já conhecido, de volta da inflação, de setores encalacrados.
Ao tratar qualquer problema com juros elevados, o que o BC faz é aprofundar a apreciação do real e aumentar o rombo nas contas externas.
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O que se percebe é que, no BC, os argumentos não estão a favor de uma lógica: agir preventivamente, minimizar problemas futuros da economia. Estão a serviço exclusivo da política de juros altos.










