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A VALORIZAÇÃO DO REAL, O FIM DA COBERTURA CAMBIAL E A INSISTÊNCIA NO NEOLIBERALISMO

Posted By leonunes On 12 março, 2008 @ 8:00 am In Conjuntura,Internacional,Leonardo Nunes,Política Econômica,Propostas de Mudanças para o Banco Central,Rive Gauche | 22 Comments

Léo Nunes – Ao Sul do Equador

São Paulo – Após alguma reflexão, concluí que, em matéria de política cambial, o governo Lula escreve errado por linhas tortas. Como observamos ao longo dos últimos anos, a nossa moeda se apreciou muito mais do que a maior parte das moedas relevantes do planeta em relação ao dólar.

Tal fato é resultante, por um lado, da melhora nos “fundamentos” da economia, isto é, no saldo de transações correntes e da conta capital e financeira e no significativo acúmulo de reservas pelo Banco Central do Brasil. Mas por outro lado, a apreciação do Real tem um componente especulativo. A melhora nos chamados “fundamentos” ocasionou a queda do risco-país, que não foi acompanhado por uma política de redução de taxa de juros, pois a autoridade monetária, que sofre de surtos obsessivos inflacionários, preferiu utilizar a expressiva apreciação cambial para controlar a inflação.

O aumento sem precedentes deste diferencial entre os juros internos e externos estimulou sobremaneira o ingresso de capitais para realização de operações de arbitragem e especulação no mercado de derivativos de câmbio. Este componente especulativo apreciou nossa taxa de câmbio, aumentou sua volatilidade e pode ter efeitos nefastos sobre a competitividade das exportações e sobre a estabilidade financeira, num momento de reverso do ciclo.

Portanto, a autoridade monetária, ao invés de se utilizar da intervenção no mercado de câmbio para conter tal apreciação, prefere adotar medidas que aprofundam a liberalização financeira e instabilizam ainda mais a taxa de câmbio. Ao acabar com a cobertura cambial, que significa a necessidade de internalização dos recursos oriundos da exportação, o governo diminui a pressão sobre o dólar, mas ao fazer isso, transforma um fluxo comercial, potencialmente mais estável e previsível, num fluxo financeiro, segundo o qual o comportamento dos agentes (exportadores) passa a se balizar por variáveis como diferencial de juros e expectativa da taxa de câmbio futura. Por fim, tal medida apenas implica em maiores danos à estabilidade da taxa de câmbio, com as más conseqüências já apontadas.

Clique aqui [1] para ler nosso manifesto.


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22 Comments To "A VALORIZAÇÃO DO REAL, O FIM DA COBERTURA CAMBIAL E A INSISTÊNCIA NO NEOLIBERALISMO"

#1 Comment By Raphael Padula On 12 março, 2008 @ 10:06 am

Concordo com o texto do Leonardo. Penso que o Brasil deve adotar políticas de controle de capitais e de câmbio, como todos os países desenvolvidos adotaram em seu processo de desenvolvimento quando lhes foi conveniente ao interesse nacional. Além disso, defendo uma administração menos conservadora das reservas. Quando as reservas excedessem um valor estipulado (há um projeto no Brasil sugerindo acima de 10% do PIB, do senador Casagrande), o excedente teria uma parte administrada de forma mais rentável e uma outra parte direcionada a um fundo de desenvolvimento para obras de infra-estrutura (esta última proposta não faz parte da proposta do Casagrande). A Venezuela tem adotado esta administração menos conservadora com sucesso, juntamente com os controles de capitais e de câmbio: suas reservas, em vez de se deteriorar paradas e/ou aplicadas em dólar, rendem de 7% a 9% e eles criaram o Fonden (fundo para o desenvolvimento Nacional) que impulsiona projetos de infra-estrutura (eles investem pelo menos 6% do PIB ao ano, bem acima do 0,5% que nosso PAC prevê). Lembro que, na Venezuela, é sempre presente a pressão de valorização da moeda, devido às exportações petroleiras.

#2 Comment By Ricardo Summa On 12 março, 2008 @ 10:35 am

Caro Léo,
vc não acha que essas medidas não terão efeito prático no período de bonança (afinal, o real tem tendencia de valorização e os títulos aqui pagam um bom diferencial) e nesse período os exportadores vão querer trazer seus dólares aqui pra dentro?

#3 Comment By Rodrigo Loureiro Medeiros On 12 março, 2008 @ 10:45 am

Prezados

O debate proposto é muito importante. Recomendo o post sobre a entrevista recente do polêmico Paulo Nogueira Batista Jr., representante brasileiro no FMI:

[7]

Trata-se de um debate mais construtivo do que persistir na discussão de que debater que o PT é diferente do PSDB. Alguns colegas se transformaram, sem notar, em simplórios analistas de boas intenções do governo Lula.

Vamos aos indicadores socioeconômicos e as reais opções de política econômica. Margens atuais de manobra existem no campo monetário. Para o curto prazo não há praticamente nenhuma necessidade de controle dos fluxos de capitais para que se abaixe gradualmente a taxa básica de juros brasileira, a Selic.

Curioso é que o BC brasileiro busca o tempo todo motivos para não fazê-lo. “Os preços dos alimentos subiram muito, há riscos de descontrole inflacionário (…)” Pois bem, segundo dados da FAO, os preços dos alimentos, ‘commodities’, subiram 37% no mundo em 2007. Fora, portanto, de controle do BC do doutor Meirelles.

Além disso, a média mundial das taxas básicas de juros nominais dos países se encontra na casa de um dígito. Descontada a inflação, muitos países estão na prática com taxas básicas de juros reais negativas.

Por aqui, o doutor Meirelles, plenamente amparado por Lula, mantém a ortodoxia de galinheiro herdada dos tempos do sociólogo. Alguns podem até dizer que Lula não sabe ao certo o que está fazendo. Tudo bem, aí o debate é outro.

Um abraço,

Rodrigo L. Medeiros

#4 Comment By blogdojefferson On 12 março, 2008 @ 2:57 pm

Prezados,

Concordo com o Léo quando diz que o fim da cobertura cambial pode trazer uma menor pressão (momentânea no meu entendimento) na taxa de câmbio, porém tem o efeito deletério de tornar mais instável o fluxo de entradas de dólares no país.

Aprovo a adoção de medidas de controle de capitais e câmbio, como disse o Raphael, porém acredito que não haja margem de manobra muito grande nesse sentido. Cobrar uma espécie de “pedágio” para o investimento especulativo (obrigação de ficar um tempo mínimo no país) poderia ser uma alternativa.

O Rodrigo deu a senha para justificar a redução dos juros internos. O principal item de pressão da elevação dos preços – alimentos – está fora do controle do BACEN, portanto, não são afetados pela sua política monetária.

O governo não vai tomar nenhuma medida mais ousada na política monetária. Pode ser um erro grave, mas é fato. Só que já passou da hora de o governo reduzir o diferencial de juros internos mais significativamente.As taxas deveriam estar bem mais baixas há muito tempo.

O pior é que o governo se acovarda com as ameaças do Banco Central. Em dezembro último, logo após a derrota da CPMF, tudo indica que o Bacen sinalizou elevação da taxa de juros. O Ministério da Fazenda então produziu o pacote de elevação de impostos para compensar a CPMF concentrado na elevação do custo do crédito, uma forma clara de impedir qualquer elevação dos juros pelo Bacen. Como o Bacen também é governo, é difícil aceitar a posição do Mantega e do Paulo Bernardo no COPOM.

Abraços,

Jefferson

#5 Comment By Leonardo Nunes On 12 março, 2008 @ 8:38 pm

Summa, os efeitos podem até ocorrer. A questão é: num cenário de médio prazo, o que ocorrerá com um país que tem uma conta financeira liberalizada, o maior diferencial de juros do mundo e e que transformará um fluxo comercial num fluxo financeiro??? Ou seja, Lula agradou aos rentistas e agora agrada aos exportadores, sem medir as consequência de aprofundar o neoliberalismo.

#6 Comment By Gustavo dos Santos (meus artigos clique) On 12 março, 2008 @ 10:48 pm

Agradou os exportadores não. Deu uma falsa e inútil compensação. Não há nada melhor do que aplicar em Real, já diria Waren Buffet…

#7 Comment By Ricardo Summa On 13 março, 2008 @ 10:06 am

Concordo com o Gustavo.
Me parece que abtes dessa medida a cobertura cambial necessária era de 70 %, mas efetivamente parece que 97% do dinheiro “voltou” (desculpem, mas a fonte foi algum artigo de jornal, portanto não totalmente confiável).

Claro que no momento de reversão da balança e das expectativas de apreciação cambial será desastroso.

#8 Comment By Gustavo dos Santos (meus artigos clique) On 13 março, 2008 @ 10:51 am

Summa,
vc disse:
“Claro que no momento de reversão da balança e das expectativas de apreciação cambial será desastroso.”
isso é óbvio. não quero brigar com o óbvio. A questão é a seguinte: ESTAMOS HÁ 5 ANOS EM UM PERÍODO DE SUPERLIQUIDEZ E SUPERCRESCIMENTO INTERNACIONAL e a esquerda ao invés de tentar insistir em viabilizar o crescimento NESSE PERÍODO FÉRTIL ATUAL fica preocupada com uma possível crise de um futuro desconhecido.
Se estivermos no governo alguém minimamente progressista e democrático com força e apoio popular, em uma crise bastará fechar a torneiras da especulação com uma canetada.
Lula provavelmente não tem apoio ou acha que não tem apoio popular suficiente para fazer isso e se vier uma crise poderá não bancar essa atitude. Mas coloca ele no alto de 80% de aprovação para você se ele não faz. Claro que faz! Lula não tem convicções neoliberais, ele age institivamente a partir das pressões que recebe. Mas sonha em deixar seu nome na história.
Não sou particularmente fã do Lula. Mas ele é de um partido de esquerda, tem uma oposição superneoliberal (vc acha que os grandes poderosos são burros, não é à toa que batem o tempo todo no governo), SE TIVER MUITO APOIO POPULAR ADOTARÁ MEDIDAS MAIS PROGRESSISTAS, APESAR DA OPOSIÇÃO DA IMPRENSA. TANTO É QUE JÁ ESTÁ FAZENDO ISSO.
O controle de capitais pode ser instalado de um dia para o outro.
Estamos perdendo tempo. Devemos insistir ao presidente que a grande solução é reduzir a taxa de juros. TUdo o que os tucanos (correligionários do Meirelles) rezam todo dia é que não se reduza as taxas de juros. se isso acontecer, NÃO EXISTE NENHUMA POSSIBILIDADE DE VENCEREM AS ELEIÇÕES DE 2010.
SUMMA, NÃO SOU FÃ DO PT, MAS NOS ÚLTIMOS 15 ANOS ELE SE MOSTROU SER A ÚNICA ORGANIZAÇÃO POLÍTICA NO PAÍS COM FORÇA E DISPOSIÇÃO DE SE CONTRAPOR AO NEOLIBERALISMO. PARTE DO PT É COOPTADA PELO NEOLIBERALISMO, CLARO, TODOS CONHECEMOS O DOUTOR PALOCCI. MAS GRANDE PARTE NÃO É. MESMO NA “ARTICULAÇÃO”, “CAMPO MAJORITÁRIO” (SEI LÁ COMO ESTÃO CHAMANDO A MAIORIA HOJE). O PT é o único grande partido do planeta que escolhe o presidente por votação direta. Isso com uma grande militância de esquerda e sindicalista significa limites ao neoliberalismo. Só não vê isso marxistas ultraradicais e míopes, que certamente não é o PSol o partido anti-CPMF.
acredito que não tenhamos opiniões muito diferentes.
abraços,
Gustavo

#9 Comment By Raphael Padula On 13 março, 2008 @ 11:18 am

Resumo da ópera: O governo não taxa a entrada de capitais financeiros interessados nos nossos juros altos, e o copom (agindo como um cartel) sinaliza com justificativas para o aumento de juros. A única razão para eu ser otimista em relação ao governo Lula, e seu “anti-neoliberalismo”, é lembrar do governo do PSDB. Lula governa para se equilibrar na balança, tentando agradar a todos. E esse governo só age com uma postura anti-neoliberal na margem.

#10 Comment By Rodrigo Loureiro Medeiros On 13 março, 2008 @ 11:49 am

Prezados

Segundo o ranking elaborado pela Austing Rating, divulgado pela Agência Estado (13/03/2008), o Brasil continua na lanterninha dos emergentes. De FHC a Lula (…) Afinal, macroeconomicamente ambos são muito parecidos. Não iguais, parecidos. Marginalmente diferentes.

Lula pode até ser bem intencionado. No entanto, quando se analisa a política econômica vigente, ele não se diferencia muito do sociólogo que o antecedeu na Presidência da República. Aos números do ranking:

Nos últimos cinco anos, o crescimento médio do conjunto de países avaliados foi de 5,6% ao ano. No resultado final, foi constatado que o Brasil supera apenas Guatemala, México, El Salvador e Haiti. A expansão econômica nesse período, entretanto, supera o crescimento médio verificado nos dois mandatos do presidente Fernando Henrique Cardoso, de 2,3%.

“A gente tem de considerar que o histórico brasileiro ainda é de baixo nível de investimento e elevada taxa de juros”, afirma o economista-chefe da Austin, Alex Agostini. No topo da lista, aparecem a China (crescimento médio de 10,6%), Argentina (8,6%), Índia (8,5%), Venezuela (7,8%) e Ucrânia (7,6%). Enquanto a taxa de investimentos do Brasil em 2007 foi de 17,6% do Produto Interno Bruto (PIB), a chinesa tem estado perto dos 40% nos últimos anos.

Pois bem, o Banco Central (BC) do doutor Meirelles já conseguiu convencer o ministro Mantega de que a condução da política monetária está correta. Lula contornou as potenciais discordâncias na área econômica e fez com que o “mercado” respirasse aliviado. O BC brasileiro procura motivos para não abaixar a Selic. Alegaram a alta dos preços dos alimentos. Segundo a FAO, os preços dos alimentos subiram 37% em 2007. Fora da esfera direta de controle do BC brasileiro. São commodities cotadas internacionalmente doutor Meirelles. Além disso, a perspectiva de inflação nos EUA é de 8% a.a. E o doutor Meirelles quer fazer meta de 4,5% a.a. no Brasil: que se dane a expansão da taxa de ocupação da força de trabalho brasileira (o trabalho formal), 51%, segundo a CEPAL, e o nível de investimento na economia real, atualmente abaixo de 18% do PIB.

Lula, a oposição e a grande mídia concordam com Meirelles. Querem debater apenas quem é menos corrupto e medíocre quando governa. O presidente Lula pode realmente não saber o que está fazendo, mas os números do lanterninha dos emergentes revelam a manutenção do subdesenvolvimento.

Alguns acreditam que programas do tipo bolsa escola e bolsa família, se mantidos e aperfeiçoados, irão resolver problemas dessa natureza no médio prazo. Para quem conhece a qualidade da educação pública oferecida, é muito difícil acreditar nisso. (A educação privada piorou nos últimos tempos.) Muitas pesquisas têm sido divulgadas recentemente na imprensa brasileira sobre as deficiências no sistema educacional brasileiro.

Um abraço,

Rodrigo L. Medeiros

#11 Comment By Gustavo Santos On 13 março, 2008 @ 12:54 pm

Todos contra mim. Ok. Mas se vocês lerem meu texto, verão que fui até bem duro contra a mediocridade a política econômica.
Heldo diz:
- Lula sabe quem está se benefiando.
digo:
sim claro. Mas em 2003, ele não via alternativa a fazer além do que fez.
Por que?
Lula tem algumas características bem peculiares:
1) é extremamente cauteloso.
2) não é especialista em política econômica e história.
Ele precisa que alguém lhe traga uma proposta clara e com forte apoio político para que ele tenha segurança para seguir. A partir daí ele faz um trabalho razoável.
No final de 2002, como podemos ver no final do filme do João Moreira Salles, ele se mostrava muito apreensivo: “o que fazer agora?”
os economistas da esquerda do PT, particularmente a Conceição Tavares e a turma de Campinas, estava arrancando os cabelos e dando chiliques com a “profundidade da crise cambial” e a “herança maldita”. (que na verdade era uma herança bendita, como bem falou o João Sayad: câmbio desvalorizado e superávit em conta corrente são uma herança fabulosamente rica, o que todos só perceberam 2 anos depois).
O presidente não é economista e estava apavorado.
Até que chega o Palocci e diz:
- Calma, eu tenho a solução. Vamos acalmar o mercado. Conversei com os banqueiros e eles me disseram que se mantivermos uma política parecida com a do FHC no início do governo eles vão se acalmar e dar todo o apoio.
Veja bem, os economistas de esquerda do PT, principalmente a Conceição e os de Campinas deram carta branca, lavaram as mãos e disseram:
- Lula, a situação é “gravíssima” talvez essa seja a solução no início.
Tiveram medo. Porque não sabiam o que fazer.
não sabiam mesmo. basta ler o que escreveram na época e a teoria que eles escreveram a vida toda.
Achavam que o controle de capitais era a única solução mas não tiveram peito de insistir nisso. Achavam que se fizessem isso poderia acontecer como no governo Jango: pressão política até um golpe militar.
Portanto, defendiam uma política econômica que consideravam politicamente inviável. e deixaram Palocci à vontade. Imaginavam que se desse tudo errado, Palocci assumiria tudo sozinho.
E ele assumiu mesmo!
- Deixa comigo!
Lula não teve alternativa.
Agora esses mesmos economistas ficam dizendo que o Lula errou, que foi neoliberal etc.
Lula, não teve escolha que fosse minimamente segura para ele. Isso não foi lhe oferecido nunca.
Porque esses economistas não tinham uma teoria sobre o que fazer. A única proposta era controle de capitais. Mas não tinham uma política clara de política fiscal, nem monetária e nem cambial. Achavam e diziam que o FHC preparou uma arapuca pro Lula e que esse pouco poderia fazer. Eu me lembro muito bem disso.
Porque diziam isso, porque haviam abandonado o Desenvolvimentismo há 2 décadas e o desenvolvimentismo era e é a única solução.
Eles precisavam ter dito algo muito simples ao presidente:
- não se preocupe, a situação não está tão grave assim, vamos fazer isso, isso e isso A INFLAÇÃO NÃO VAI VOLTAR POR ISSO, ISSO E ISSO E VAMOS VOLTAR LOGO A CRESCER E GERAR EMPREGOS SEM INFLAÇÃO.
Palocci disse isso e eles lavaram a mãos.
Agora, culpar ao presidente é incompreensão de um processo muito maior.
Lula não é tão ousado e poderoso assim para assumir toda a responsabilidade.
Na minha opinião a culpa é dos economistas de esquerda, principalmente de Campinas, que não produziram nenhuma teoria relevante de política econômica e política de desenvolvimento que pudesse ser aproveitada nos últimos 20 anos.
E olha que foi a teoria de Campinas que deu embasamento para o PLANO COLLOR.
Se os economistas mais proeminentes do PT fossem da UFRJ e da FGV de São Paulo e a Conceição não estivesse tão assustada A HISTÓRIA poderia ter SIDO DIFERENTE.
Mas não foi. Agora, nosso papel é assumir o erro e dizer ao presidente qual é o caminho. E não continuarmos confundindo a opinião pública e o presidente com propostas que nós mesmo acreditamos que são politicamente inviáveis no momento e inúteis para o momento (como o controle de capitais).
A SOLUÇÃO É REDUZIR A TAXA DE JUROS PARA 5% NOMINAIS AO ANO!
SE O MEIRELLES NÃO QUISER, QUE SE TIRE ELE!
NADA VAI ACONTECER SE TIRAREM O MEIRELLES, NO MÁXIMO, SE TIVERMOS SORTE, O DÓLAR VAI PARA 1,85.

#12 Comment By Gustavo Santos On 13 março, 2008 @ 1:05 pm

Raphael,
estou dizendo que a culpa não é do Lula.
Durante, 20 anos ficamos repetindo para ele, para nós e para todo mundo, que ele seria um bom presidente, que não era necessário experiência administrativa e conhecimento formal de economia e história. Até ele acreditou.
Depois como mostrei no artigo acima, quando ele venceu, os economistas progressistas não tinham qualquer plano e estavam apavorados.
Ele é muito cauteloso e não teve escolha que não fosse o Palocci. Agora temos a chance de pressionar o presidente na direção certa. A imprensa perdeu muita credibilidade e o neoliberalismo não está sendo adotado em quase nenhum país além do Brasil.
Minha solução é mostrar ao presidente e à opinião pública o caminho e não ficar repetindo o mesmo erro de 2002, quando nós economistas dizíamos que não havia solução.
O presidente precisa de soluções prática, para hoje, para amanhã e para o mês que vem.
EU TENHO UMA SOLUÇÃO PARA HOJE, AMANHÃ E O MÊS: REDUZIR A TAXA DE JUROS EM 3% PORCENTUAIS POR MÊS.
E GARANTO AO LULA QUE ISSO NÃO GERARÁ NENHUMA CRISE OU SUSTO INFLACIONÁRIO.
Se vc não tem solução prática, não pode fazer nada para mudar as coisas.
Vc tem solução prática? conheça um partido ou político alternativo que possa vencer a próxima eleição que seja adepto da sua solução?

#13 Comment By Heldo Siqueira On 13 março, 2008 @ 2:46 pm

Gustavo,

entendo que a questão é gerar uma alternativa. Temos para isso que desconstruir essa idéia de que existe uma pressão inflacionária (ou que se existe ela pode ser controlada). A pressão de preços internacional é sobre alimentos.

O Kalecki alertava para o fato de que em geral, as nas economias reais, aumentos nos preços de bens de consumo não-duráveis (alimentos) interferem pouco no resto da cadeia produtiva. Isso pq salários em geral aumentam menos que os níveis de preços. Um pressuposto indispensável às teorias de hiato de produto é que os aumentos de salários repetem a inflação. Quer dizer, inflação em alimentos não é repetida. Se nos 12 meses a inflação foi 4,61%, é pq mantidas as condições atuais ela tende a ser menor.

É claro que na conjuntura atual, os aumentos de preços de alimentos representam uma valorização cambial. Mas aí, é questão de mexer na meta, pq o pressuposto para a meta de 4,5% é que a inflação internacional (tomei como exemplo a americana) não ia decolar! Em abril de 2007, a inflação americana em 12 meses estava em 2,7% ( [8]), em compensação hoje estão em 7,4%. ( [9]) (Estou com um pouco de pressa e os links não são muito confiáveis, mas os números parecem verdadeiros.)

Quer dizer, teoricamente o medo do copom é sobre uma coisa que não está ao seu controle. E isso levanta outro debate. Com a taxa de juros real em alta nos últimos meses (desde que o copom resolveu parar de baixar os juros) o investimento vem aumentando. Provavelmente esse aumento se deve à política fiscal expansionista. Daí outra pergunta:

A política fiscal ou política monetária?!

Abraços

#14 Comment By Raphael Padula On 13 março, 2008 @ 4:12 pm

Gustavo,
Sem dúvida, “a política é a arte do possível”, e dentro do possível (da realidade, e não do ideal) o Lula ficou como melhor opção. Só não posso nivelar por baixo e pensar que, por ser a melhor opção, ele se aproxima de uma boa opção (é a menos pior). Quem parte de onde ele partiu e chega onde ele chegou não é bobo, e sabe muito bem o que fazer para estar no poder.
Antonio Serra, em 1613, observando o atraso de Nápoles e o avanço de Veneza, apontou que a causa mais importante da riqueza de um reino é a Política do Estado, e que esta política seria resultado de três fatores: vontade política, sabedoria do governante, e contingentes internos e externos que o governante viesse a se confrontar. Essa observação, bem atual, gera muitas reflexões sobre o Lula e o Brasil.
Sem dúvida temos muitas propostas para melhorar o Brasil, que vão muito além de baixar a taxa de juros em 3 pontos, e dificilmente alguém ou algum partido que possa assumir o poder tem vontade política para levar um projeto de interesse nacional para frente. O Brasil é enormemente complexo em termos políticos, econômicos e sociais.
Permitindo-me cometer um reducionismo, mas seguindo sua abordagem, creio que a questão “direita ou esquerda” foi para o espaço há muito tempo. A grande questão é se um governo ou organização/instituição política defende os interesses nacionais ou outros interesses (internacionais ou no mínimo abstratos).
Por fim, foi aprovado o orçamento de 2008 e os 160 bilhões de serviço da dívida não foram discutidos, a projeção da taxa de juros subiu, a meta de inflação foi assegurada, mas suadamente 0,5% do PIB previsto vai para o PAC, com suas obras sem qualquer organicidade.
Não consigo pensar pequeno para um país grande e com nosso potencial, e por isso não posso tolerar o governo Lula. Só votei nele no segundo turno porque o que poderia vir era o que há de pior. temos exemplos de governantes com vontade política por aí, com resultados melhores, deixando o Brasil na lanterna do desenvolvimento, como assinalou o Rodrigo.
Grande abraço,
Raphael.

#15 Comment By Gustavo Santos On 13 março, 2008 @ 5:31 pm

Padula,
eu disse redução de 3% ao mês até chegar a 5% nominais (isso demora 2 meses só).
Isso muda completamente o país, mais do que os 20 mil projetos fabulosos que pudermos imaginar.
Só que alguém que dizer isso ao Lula. E muitas pessoas porque o Lula só vai na boa.
Qual é o problema dessa minha proposta?
abraços

#16 Comment By Raphael Padula On 13 março, 2008 @ 5:55 pm

Gustavo,
diminuir o juros em 3% ao mês será ótimo (sou completamente a favor!), se os recursos provenientes da queda dos juros forem aplicados nos lugares (projetos) certos. o problema da sua proposta é que o Banco Central é informalmente independente, portanto, não depende do Lula diminuir o juros. Se ele interferir nisso, provavelmente o “mercado” não se comportará bem, pois não temos controle de capitais e de câmbio. Ou seja, somos reféns do Banco Central até que haja vontade política para controlar esta instituição, implementar políticas do controle da economia, e até que se esteja disposto a bancar o que der e vier no curto prazo (com a mídia caindo encima) em nome do interesse nacional e de um projeto de Nação (se houver algum projeto por parte do governante).
Dentro da conjuntura atual, o melhor que pode acontecer é o Bacen diminuir os juros de forma muito gradual (todos os candidatos prometeram isso nas campanhas) e, como já percebemos, o Bacen sempre acaba arrumando um motivo para não diminuir os juros devido a uma suposta hojeriza à inflação, e nunca chegamos lá nos juros “ideais”.
Um argumento interessante que ganhou proeminencia, inclusive na campanha da Heloisa Helena, é de que o Estado tem que gastar menos e melhor para poder diminuir os juros (através da diminuição do risco país, inclusive), argumento que já foi desbancado neste blog. Além disso, grande parte dos gastos do governo vai para o serviço da dívida, que nenhum candidato discutiu.
Enfim, creio que não discordamos.
Abs!

#17 Comment By Gustavo dos Santos (meus artigos clique) On 13 março, 2008 @ 9:33 pm

Raphael,
nós concordamos em quase tudo e principalmente quanto ao objetivo maior. Mas há um ponto de discordância que para mim é importante.
Vc disse: “o problema da sua proposta é que o Banco Central é informalmente independente, portanto, não depende do Lula diminuir o juros. Se ele interferir nisso, provavelmente o “mercado” não se comportará bem, pois não temos controle de capitais e de câmbio.”
Discordo disso.
Se o Lula tirar o Meirelles não acontecerá nada! Se o “mercado” não se “comportar bem” não afetará absolutamente nada!
No máximo o dólar subirá um pouquinho, para sei lá R$1,85 (tomara que aconteça isso)
O mundo está entupido de dólares, o banco central está entupido de dólares e se o câmbio desvalorizar o câmbio vai aumentar muito e muito mais ainda a abundência de dólares e investimentos externos aqui.
O Lula pode tirar o Meirelles a hora que quiser. Alías ele deveria já tê-lo tirado há muito tempo.
O repito, pelo fato dos assessores econômicos de esquerda do Lula dizerem sempre isso, que nada muda. Para mudar tem que tirar o Meirelles, ou transformá-lo em bobo da corte, sem poder.
prefiro demissão sumária.
nada acontecerá, no máximo o Diogo Mainardi e a Miriam Leitão reclamarão e isso não tem nenhuma importância. No câmbio não acontecerá nada demais, mesmo se reduzirmos muito a taxa de juros. Aliás, se for para fazer o serviço completo, coloquemos o câmbio a R$ 3 reais e depois fixamos ele por dez anos a taxa de juros reais negativas.
só isso é necessário para crescer 10% ao ano (via industrialização) no mundo de hoje.
câmbio desvalorizado + juros baixos (óbvio que a taxa de crescimento dos gastos públicos “primários” será no mínimo igual à taxa de crescimento do PIB)
abraços,
Gustavo

#18 Comment By Heldo Siqueira On 14 março, 2008 @ 10:07 am

Gustavo,

entendo sua preocupação com a política monetária. Mas vou dar uma de advogado do diabo e fazer algumas considerações. Vejo no discurso dos Ministros uma preocupação maior com a política fiscal que com a política monetária.

Na verdade, o grande problema da taxa de juros é que ela gera um spread violentíssimo para os pequenos e médios empreendedores. A justificativa para esse spread reside nas incertezas do mercado real e quanto à manutenção do crescimento. Acredito que uma política fiscal bem fundamentada pode realmente diminuir essas incertezas, diminuindo o spread.

Nesse caso, o crescimento poderia ser mantido pela política fiscal, mesmo com uma taxa de juros básica alta.

Abraços

#19 Comment By Raphael Padula On 14 março, 2008 @ 12:07 pm

Gustavo,
concordo com o q vc disse em parte. O que tentei argumentar é que haveria uma pressão imediata por parte dos meios de comunicação (não só a Leitão e o Mainard), pois sabemos quem é seu patrocinador, juntamente com a oposição, fazendo terrorismo a partir desta desvalorização cambial (q na minha opinião é benéfica, mas na deles não)e de uma possível volta de taxas maiores de inflação. Será que o Lula, que sempre faz discursos baseados na lógica do mercado e é avesso a riscos, aguentaria esta pressão? Se ele aguentasse seria ótimo. Espero que você esteja certo e as coisas sejão bem simples de se fazer, com uma só canetada.
Pra mim, quem controla o banco central está com a faca e o queijo na mão (“metaforizando” como o nosso presidente). Continuo achando que se é para fazer algo, que seja serviço completo: com controle de capitais e de câmbio.
Grande abraço,
Raphael.

#20 Comment By Gustavo dos Santos (meus artigos clique) On 14 março, 2008 @ 1:36 pm

Heldo,
o que vc falou é verdade. é possível usar a política fiscal para crescer mesmo com esses juros estratosféricos. Mas isso levaria o déficit público a valores extremamente elevados. Não que eu acho que isso seja um problema, mas muita gente acha que é.
Raphael,
pense bem, estou falando de política e não do que queremos com ideal. Se vc diz que o simples ato de reduzir a taxa de juros para níveis internacionais normais a imprensa iria fazer tanta pressão que o Lula desistiria, imagina se, além disso, fizesse também controle de capitais e câmbio, seria uma declaração de guerra, não?
O QUE EU ESTOU COBRANDO DO GOVERNO E DOS TENTANDO EXPLICAR PARA OS ECONOMISTAS DE ESQUERDA É UMA COISA MUITO SIMPLES:
COLOCAR AS TAXAS DE JUROS A NÍVEIS INTERNACIONAIS NORMAIS. QUALQUER RESISTÊNCIA DA IMPRENSA ISSO NÃO É SUSTENTÁVEL. CAIRIA COMO UM CASTELO DE CARTAS E ALÉM DISSO, TODO O SETOR INDUSTRIAL, AGRÍCOLA E SINDICAL ESTARIA DO NOSSO LADO, SEM RESTRIÇÕES!
CARA, CHILE, PERU, EUA, TURQUIA E OUTROS QUERIDINHOS DOS “MERCADOS” TEM TAXAS DE JUROS NEGATIVAS. ISSO É CONSIDERADO NORMAL.

#21 Comment By Gustavo dos Santos (meus artigos clique) On 14 março, 2008 @ 1:38 pm

Heldo,
vc leu esse texto:
[10]

#22 Comment By Rodrigo Medeiros On 14 março, 2008 @ 9:44 pm

Prezados

Lula deveria cobrar a tal aceleração do crescimento e não ficar arrumando desculpas para se esquivar do fato de que o Brasil encontra-se entre os lanterninhas do crescimento mundial.

Não há nenhuma necessidade urgente de controle dos fluxos de capitais. Pelo menos não para o curto prazo. No momento, faz-se necessário elevar a formação bruta de capital fixo de 17,4% para 25% do PIB, pelo menos. Só vejo uma forma de se fazer isso responsavelmente e com seriedade: abaixando a Selic gradualmente para pressionar o sistema financeiro a elevar a oferta monetária (M3), hoje em torno de 28% do PIB, regulando-a a partir do compulsório e do IOF, por exemplo.

Entrem na página da CEPAL e confiram as estatísticas disponíveis. Precisamos desacelerar gradualmente o cassino financeiro instalado no Brasil.

E se o respectivo sistema quiser armar uma fuga de capitais do Brasil, basta lembrar ao mesmo que há regras para se comprar dólares. (Aplicar em títulos da dívida norte-americana? Vamos falar sério. Bernanke é ultrakeynesiano.) Creio que o Gustavo Franco engavetou tais regras quando emitiu a famosa “cartilha da sacanagem cambial”, liberalizando a conta de capitais. O doutor Meirelles nem quer saber de tais regras. Podemos sacá-las do limbo em que se encontram no BC? Sim.

O real irá desvalorizar. Tudo bem, melhor para gerarmos superávits nas transações correntes e elevarmos as reservas cambiais. Quanto à questão da inflação, “o medo daquele monstro que nunca morre”, basta dizer que o Brasil é um país mais aberto do que outrora, quando o fenômeno da capacidade ociosa média da indústria gerava inflação de custos em cascata. Refiro-me ao mecanismo de defesa contra a recessão magistralmente descrito por Ignácio Rangel. A capacidade ociosa da indústria de hoje não pode ser avaliada da mesma forma.

Devo ter me esquecido de adicionar algo no texto. É sexta-feira. No entanto, penso ter conseguido demonstrar que a Selic, a taxa básica nominal de juros brasileira, pode ser abaixada gradualmente porque há margens de manobra para tanto na conjuntura presente. Recomendo aos leitores a cartilha do pleno emprego postada neste blog, “momento nacional”.

Li uma análise do Henry Mintzberg, do INSEAD, sobre a questão cognitiva no processo de construção de estratégias organizacionais. Os modelos mentais criam molduras pré-concebidas quanto à realidade e tornam muito difícil em contextos conturbados alterar o paradigma vigente. Creio que isso está acontecendo no Brasil.

Até o Guido Mantega capitulou. Realmente, Lula e os partidos de esquerdas não devem saber o que estão fazendo no governo federal. A oposição e a grande mídia sabem quando blindam o doutor Meirelles das suas críticas ao governo Lula.

Um abraço,

Rodrigo L. Medeiros


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[3] Tem São Paulo demais: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/tem-sao-paulo-demais/

[4] EDITORIAL do Cadernos do desenvolvimento do centro Celso Furtado: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/editorial-do-cadernos-do-desenvolvimento-do-centro-celso-furtado/

[5] País perdeu os 'anos de ouro' da economia mundial: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/pais-perdeu-os-anos-de-ouro-da-economia-mundial/

[6] Espantando o vôo de galinha: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/espantando-o-voo-de-galinha/

[7] : http://desempregozero.org/2008/03/11/forte-pero-no-mucho-entrevista-com-paulo-nogueira-batista-jr/

[8] : http://clipping.planejamento.gov.br/Noticias.asp?NOTCod=347989

[9] : http://www.financasdebolso.com.br/?m=200802

[10] : http://criticaeconomica.wordpress.com/2007/10/11/por-que-o-brasil-nao-cresce-porque-o-meirelles-ainda-nao-e-presidente/

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