- Blog do Desemprego Zero - http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero -

A reforma tributária de Lula

Posted By NOSSOS AUTORES On 13 março, 2008 @ 3:08 pm In Paulo Passarinho,Política Econômica | No Comments

*Paulo Passarinho

 

Conforme estabelecido pelo governo federal no final do ano passado, quando da sua vitória parcial na disputa pela aprovação da prorrogação da CPMF e da DRU, desde o final de fevereiro tramita no Congresso uma nova proposta de alteração constitucional da ordem tributária.

Na exposição de motivos do ministro da Fazenda, é destacado que os objetivos principais da proposta são: “simplificar o sistema tributário nacional, avançar no processo de desoneração tributária e eliminar distorções que prejudicam o crescimento da economia brasileira e a competitividade de nossas empresas, principalmente no que diz respeito à chamada guerra fiscal entre os Estados”.

Objetivamente, a proposta unifica a cobrança da Cofins, do PIS/Pasep, da Cide e do Salário-Educação em um novo imposto federal a ser criado, o IVA-Federal (Imposto sobre o Valor Agregado); agrega a cobrança da CSLL ao Imposto de Renda de Pessoas Jurídicas (IRPJ); e propõe a unificação das legislações estaduais do ICMS, definindo-se alíquotas uniformes para a cobrança desse imposto e a sua incidência no local de destino das mercadorias.

A proposta não enfrenta, assim, a principal deformação da atual estrutura tributária do Brasil, que é a prevalência dos chamados impostos indiretos, em relação aos impostos diretos, na formação da carga tributária brasileira. Esse é o principal fator, mas não exclusivo, que caracteriza o recolhimento de impostos no país como regressivo e injusto em relação à distribuição de renda.

As direitas brasileiras e a “imprensa livre” do país – sua porta-voz direta – convencionaram caracterizar a carga de impostos no Brasil como muito elevada. Com esse tipo de abordagem, abstraem a discussão sobre o tipo de Estado que precisamos – fundamental para definir o quanto de recursos financeiros seria necessário para financiá-lo, e o como fazê-lo -, além de procurar trabalhar politicamente com a imensa insatisfação dos pobres e assalariados médios, os grandes apenados pela estrutura tributária.

Esta é a principal deformação realmente existente na cobrança de impostos: os ricos e detentores de propriedades – especialmente rurais – pagam muito menos impostos, proporcionalmente ao que ganham e possuem, do que os demais segmentos da população.

Em todos os países desenvolvidos do mundo, a carga tributária é formada principalmente pela taxação direta da renda e das propriedades. Quanto mais se tem, mais se paga, maior é a contribuição ao financiamento do Estado. É a idéia da progressividade na cobrança de tributos, uma das formas de se atenuar os desequilíbrios da distribuição de renda e riquezas em uma sociedade capitalista.

Impostos sobre a produção e o consumo devem ser seletivos, e voltados à preocupação com o desenvolvimento produtivo e à justiça tributária, inspirada no princípio da progressividade.

A Campanha pela Auditoria Cidadã da Dívida, a partir de dados do FMI e da Secretaria da Receita Federal, demonstra que em um grupo de países selecionados (Noruega, Dinamarca, Suécia, Estados Unidos, França, Alemanha, Japão, dentre outros) o peso médio dos impostos sobre a renda e as propriedades é de 53%, em relação ao total da carga tributária de cada um deles. Aqui no Brasil, o peso relativo desses chamados impostos diretos é de apenas 30%, sendo os 70% restantes oriundos de taxação indireta, incidente sobre a produção e a circulação de mercadorias.

Os impostos indiretos são embutidos no preço final dos produtos e serviços comercializados. Desse modo, quem de fato os paga são os consumidores finais. Levando-se em conta que os mais pobres consomem tudo aquilo que ganham, proporcionalmente aos seus rendimentos, acabam por pagar uma maior carga de impostos do que os segmentos de maior renda – que têm condições de poupar parte dos seus rendimentos.

Sendo assim, uma primeira característica da proposta apresentada pelo governo é que ela cristaliza e dá prosseguimento a injusta estrutura tributária em vigor, fortemente regressiva.

Porém, os problemas não se resumem a esse ponto.

A proposta oficial desfigura o atual esquema de financiamento do Orçamento da Seguridade Social.

Ao propor que a Cofins – Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social – e a CSLL – Contribuição sobre o Lucro Líquido das empresas – passem a ser embutidos, respectivamente, no novo IVA-Federal e no IRPJ, essas importantes receitas da seguridade social passarão a integrar, de fato, o conjunto de receitas do Orçamento do Tesouro.

Qual o problema da aparente troca de seis por meia dúzia? Afinal, o governo teve inclusive a preocupação de assegurar percentuais dos futuros IVA-Federal e IRPJ, destinados especificamente para a seguridade social, de modo a possibilitar a não perda de recursos para essa área, de acordo com o proporcional volume de recursos que hoje é garantido ao Orçamento da Seguridade Social.

O problema é que, caso esse tipo de mudança seja aprovada, essas atuais receitas – com destinação constitucionalmente definida como receitas da seguridade social – passariam a integrar meramente o orçamento do Tesouro, necessitando de serem transferidas para o financiamento das despesas da seguridade social.

Se hoje, pertencendo essas receitas ao orçamento da seguridade social, os governos insistem em propalar o suposto “déficit da previdência”, imaginem o que poderão alardear quando formalmente essas receitas deixarem de integrar as receitas específicas da seguridade?

Está claro que estaremos reforçando, caso seja aprovada a proposta, as possibilidades de análises que acusam o custo “excessivo” da seguridade social como o principal vilão das contas públicas.

Mais grave: como a alíquota do IVA-Federal será definida em legislação infraconstitucional, caso haja uma redução da base de incidência do novo imposto em relação ao esquema hoje em vigor, sempre uma possibilidade, a própria parcela a ser transferida para a seguridade social sofrerá redução, diminuindo os recursos da área.

Esse mesmo tipo de problema poderá também afetar os recursos hoje arrecadados pelo Pis/Pasep, pela Cide e para o salário-educação.

Além disso, há também o compromisso do governo em apresentar projeto de lei reduzindo a contribuição patronal para a Previdência Social dos atuais 20% incidentes sobre a folha de empregados para 14%, o que acarretará uma redução dessa receita.

Vou ficando por aqui, para não causar ao leitor maiores preocupações. Mas voltarei ao assunto.

Afinal, essa já é a segunda vez – a primeira foi em 2003 – que o, para muitos, progressista governo Lula apresenta proposta de reforma tributária, sem que nenhum dos seus compromissos históricos com a justiça tributária e a distribuição de renda tenha sido contemplado, minimamente.

*Economista pela UFRJ, servidor público federal, atual vice-presidente do Conselho Regional de Economia do Rio de Janeiro e diretor do Sindicato dos Economistas. É, também, o apresentador do Programa Faixa Livre – programa de rádio, voltado para o debate dos problemas brasileiros, dentro de uma perspectiva de fortalecimento da democracia participativa, combate às desigualdades sócio-econômicas e defesa da soberania nacional. O Faixa Livre – Programa faixa livre [1]- é mantido por um conjunto de entidades de classe, sindicatos e associações profissionais, desde 1994, e veiculado pela Rádio Bandeirantes do RJ – AM 1360, de 2ª a 6ª feira, de 8 às 10 horas da manhã. Meus Artigos [2]


Article printed from Blog do Desemprego Zero: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero

URL to article: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/03/a-reforma-tributaria-de-lula/

URLs in this post:

[1] Programa faixa livre : http://www.programafaixalivre.org.br/

[2] Meus Artigos: http://desempregozero.org/category/todos-nossos-autores/paulo-passarinho/

[3] As Privatizações e o Governo Lula: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/10/as-privatizacoes-e-o-governo-lula/

[4] A Campanha de Difamação Contra a Direção do IPEA: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/11/a-campanha-de-difamacao-contra-a-direcao-do-ipea/

[5] REFORMA TRIBUTÁRIA: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/11/reforma-tributaria/

[6] O Custo Invisível do Modelo Econômico: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/12/o-custo-invisivel-do-modelo-economico/

[7] O Legado de 2007 e o Nosso Futuro: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/12/o-legado-de-2007-e-o-nosso-futuro/

Copyright © 2008 Blog do Desemprego Zero. Todos os direitos reservados.