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A imprensa e os cartões
Posted By NOSSOS AUTORES On 12 março, 2008 @ 6:17 pm In Bruno Galvão,Conjuntura,Política Brasileira | 1 Comment
Publicado originalmente em: CGU – Portal da Transparência [1], 05/03/2008
Enviado por *Bruno Galvão dos Santos
O ministro-chefe da CGU, Jorge Hage, tem chamado atenção, insistentemente, para os inúmeros erros e exageros cometidos em matérias jornalísticas sobre o uso dos Cartões de Pagamento do Governo Federal, a maior parte delas baseada em dados disponíveis no Portal da Transparência [1]. Esses erros têm levado muita informação deturpada sobre o assunto à sociedade.
Alguns desses erros, decorrentes, sempre, da falta da necessária apuração jornalística dos fatos, foram destacados pelo jornalista Josias de Souza, em seu blog, (Blog Josias de Souza [2]) na últimasegunda-feira, dia 3 de março. Leia a íntegra do comentário de Josias de Souza.
Quando focalizou o atacado dos R$ 171,5 mil que Matilde Ribeiro pendurara no cartão de crédito, a imprensa mandou ao olho da rua uma ministra que não conseguiu explicar o inexplicável. Quando se deixou seduzir pelo apelo da tapioca de R$ 8,30 do ministro Orlando Silva, o noticiário descambou para um varejão de miudezas que pendurou nas manchetes uma penca de equívocos e injustiças.
O ministro Jorge Hage (Controladoria Geral da União) guarda no computador um texto que deixa mal o jornalismo. Relaciona 11 erros crassos que envenenaram o noticiário sobre cartões corporativos. Considerando-se que o Congresso se prepara para instalar uma CPI que vai se ocupar do tema, vale a pena reproduzir o conteúdo do arquivo eletrônico de Hage.
1. A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) foi acusada de ter utilizado o cartão corporativo para adquirir roupa de cama. Despesa regular e necessária atestaram os técnicos da CGU. Os panos forraram as camas utilizadas por servidores da agência que realizam a fiscalização sanitária no Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre. São plantonistas, obrigados a pernoitar no batente.
2. A Polícia Federal escalou o noticiário por ter sacado o cartão numa clínica de estética chamada By Kimberly. Eis o detalhe que a reportagem não relatou: a despesa decorre de pagamento de um revólver, devolvido à PF nos termos do Programa Nacional de Desarmamento;
3. Denunciou-se que o cartão do Ministério da Agricultura despejara verbas públicas numa agência de matrimônio. Os técnicos da CGU foram atrás. Descobriram o seguinte: pagou-se, na verdade, a manutenção de veículo do ministério numa oficina mecânica. Por equívoco da Receita Federal, a oficina fora classificada no Cadastro de Pessoas Físicas como intermediária de casamentos. Alertado, o fisco promoveu a correção.
4. Acusou-se o comando da Marinha de sacar o cartão para adquirir um bichinho de pelúcia. Era lorota. Comprou-se, na verdade, um pedaço de veludo. A loja trazia o vocábulo “pelúcia” na logomarca. Mas o pano foi usado para forrar uma bandeja que carrega medalhas em solenidades de condecoração militar.
5. Criticou-se a Marinha por ter manuseado o cartão corporativo numa casa chamada Beleza Cosméticos Ltda.. A compra destinava-se à aquisição de material de consumo para um curso de barbeiro ministrado na Escola de Fuzileiros Navais;
6. Atacou-se a Marinha, de novo, por conta da aquisição de uma caixa de bombons. Os chocolates serviram para retribuir gentilezas à esposa de uma autoridade militar estrangeira que visitou instalações navais do Brasil.
7. Noticiou-se o gasto de uma repartição pública numa loja que trazia o termo “joalheria” enganchado no nome. Compraram-se jóias? Não. Foram adquiridas baterias para um telefone celular.
8. Informou-se que, na Universidade de Uberlândia, até motoboy dispunha de cartão de crédito. Na verdade, tratava-se de um agente administrativo que tem entre suas atribuições a realização de compras emergenciais da reitoria. Por acaso, o servidor vai às compras equilibrando-se numa motocicleta.
9. A própria CGU freqüentou o noticiário por ter mandado roupas para uma lavanderia. Foram à máquina de lavar toalhas de mesa usadas num evento festivo da repartição: o Natal dos funcionários.
10. Um servidor do setor de manutenção do Ministério das Comunicações ganhou notoriedade por ter mandado reparar o forro de uma mesa de sinuca. O móvel encontra-se na garagem do ministério há 16 anos, desde 1992. Traz a plaqueta de “patrimônio da União”. É usado como passatempo dos motoristas, nos horários de folga. Para a CGU, a despesa foi absolutamente legal.
11. Entre as supostas irregularidades praticadas pelo ministro Altemir Gregolin (Pesca) mencionou-se um gasto de R$70 realizado na choperia Pingüim, em Ribeirão Preto (SP). Varejando as notas da prestação de contas, a CGU verificou que o cartão pagou uma refeição do ministro. Não há no documento menção a bebida alcoólica. Perscrutando a agenda de Gregolin, verificou-se que teve compromisso oficial na cidade no dia em que comeu na choperia mais famosa de Ribeirão.
Nem todas as miudezas escaparam à glosa da CGU. O próprio ministro da Pesca viu-se constrangido a devolver às arcas da Viúva R$ 538?R$ 512 de um almoço que pagou, sem amparo legal, a uma delegação de autoridades chinesas e R$ 26 de outra refeição na qual dividiu a mesa com um acompanhante.
Também o custeio da tapioca do ministro Orlando Silva (Esportes) não pôde ser encaixado na lei. Como as suspeitas estenderam-se dos R$ 8,30 a gastos mais robustos, feitos em restaurantes e hotéis, o ministro optou pos restituir ao Tesouro os R$ 30,8 mil que gastara entre 2006 e 2007. Aguarda a conclusão de auditoria da CGU, para saber se terá direito a algum troco.
Por ora, a CGU concluiu apenas a análise dos gastos de Gregolin. Nos próximos dias, será encerrada a inspeção nos extratos da ex-ministra Matilde. O repórter apurou que ela terá de ressarcir aos cofres públicos uma cifra bem mais expressiva do que os R$ 461 que deixou numa loja de free shop. A auditoria de Orlando Silva será mais demorada.
Seja como for, parece recomendável que a nova CPI concentre-se no atacado dos gastos com cartões – as despesas à Matilde e os dispêndios secretos do Palácio do Planalto, por exemplo. Se deslizarem para a miudeza, os congressistas arriscam-se a ter de fazer outra CPI, dessa vez para investigar o teatro das comissões parlamentares de inquérito e a
inutilidade de boa parte do noticiário. Portal da Transparência [1]
*Economista pela UFMG, mestre em economia pelo Instituto de economia da UFRJ. Doutorando pela mesma instituição. Meus artigos [3]
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[1] CGU – Portal da Transparência: http://www.portaldatransparencia.gov.br/PortalTransparenciaDetalheNoticia.asp?noticia=39
[2] Blog Josias de Souza: http://josiasdesouza.folha.blog.uol.com.br/
[3] Meus artigos: http://desempregozero.org/category/todos-nossos-autores/bruno-galvao/
[4] Será que a política do desastre econômico é melhor do que a do sucesso?: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/08/china-e-ex-uniao-sovietica-qual-a-melhor-politica-economica/
[5] Avaliação da política monetária-cambial do Brasil: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/08/avaliacao-da-politica-monetaria-cambial-do-brasil/
[6] Arranjos Produtivos Locais - APL e Desenvolvimento: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/01/arranjos-produtivos-locais-apl-e-desenvolvimento/
[7] A FARRA DA TAPIOCA: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/01/a-farra-da-tapioca/
[8] Mais comentários sobre a Tapioca: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/02/mais-comentarios-sobre-a-tapioca/
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1 Comment To "A imprensa e os cartões"
#1 Comment By Bruno On 12 março, 2008 @ 7:02 pm
Observação: esse texto não foi escrito por mim. É um texto do site do Portal da Transparência.