obrigado Nassif: A falácia do social-mercadismo
Escrito por Imprensa, postado em 28 dEurope/London março dEurope/London 2008
Publicado originalmente na Coluna Econômica em 26.03.2008
Por Luis Nassif
Vamos a uma pequena aula sobre a retórica do mercado para justificar juros elevados.
Juros elevados afetam de diversas maneiras a economia como um todo, especialmente os mais pobres: encarecendo o custo dos empréstimos; aumentando a dívida pública; reduzindo recursos disponíveis para saúde, educação; provocando apreciação do real e competição desigual com produção externa.
O grande argumento a favor de juros elevados é o aquecimento da economia e o suposto risco da volta da inflação. Em geral, alega-se que o Banco Central é obrigado a exagerar nos juros pelo fato de não ter nenhuma medida, de outra natureza, capaz de auxiliar no combate à inflação.
Há dois pontos que explicam esse aquecimento. Um, o aumento dos prazos de financiamento de bens duráveis, especialmente automóveis. O outro, a apreciação do real que, em um primeiro momento, barateia os produtos.
Esta semana, o Ministério da Fazenda apresentou uma alternativa: redução dos prazos de financiamento de veículos, que hoje em dia chegam há 80 meses.
Para os que acreditam em superaquecimento do mercado, a medida tem lógica. Ataca-se um setor específico (o de veículos), onde o aquecimento é maior, uma ferramenta específica (o prazo de financiamento). Alcançado o objetivo de desaquecer as vendas, não haveria necessidade de manter a taxa Selic elevada. E com Selic menor, não haveria tanta apreciação do real. Portanto, atuaria nas duas pontas.
Pode-se discutir a eficácia ou não dessas medidas, ou as propostas alternativas. Mas o objetivo final de qualquer medida anti-aquecimento da economia é… desaquecer a economia. Ou não?
Ocorre que, ao esvaziar os argumentos pró-elevação das taxas de juros, esse tipo de medida impede a manutenção dos altos lucros do mercado. Razão pela qual passou a ser torpedeada pelos porta-vozes do mercado.
Os argumentos invocados são interessantes para se analisar mais de perto os sofismas de que se vale o tal do mercado para justificar juros elevados.
De repente, pessoas que sempre entram em pânico com qualquer sinal de aquecimento da demanda, tornam-se defensores intransigentes do consumo. Uma colega chegou a alegar que “democratizar o crédito é uma questão de cidadania”.
Concordo integralmente. Tanto que utilizei esse argumento em um debate, quando o economista Eduardo Gianetti da Fonseca ousou atribuir os juros altos à imprevidência dos mais pobres – que aceitam quaisquer taxa desde que a prestação caiba no orçamento.
Falou mais ainda: “Para o pobre que compra e paga em dia. Que não desvia dinheiro. Não tem conta em paraíso fiscal. Honra sua dívida porque ter nome limpo na praça é o seu patrimônio mais valioso. Talvez o único”.
Mas é uma demagogia miserável. Lendo assim, parece que tais analistas são contra qualquer forma de restrição ao consumo. Mas não é isso. Eles propõem que o desaquecimento da economia (isto é, a restrição ao consumo pela queda do nível de atividade) se dê através de juros elevados. É procedimento que afeta a atividade econômica como um todo, a renda, o emprego, o investimento. Gera uma notável transferência de renda para os chamados rentistas. Mas é medida apresentada como se fosse uma decisão científica inevitável. Cidadania, direitos, responsabilidade social? Corta essa, companheira!
Retórica de Gustavo
O mestre desse tipo de retórica foi Gustavo Franco. O câmbio apreciado provocava um aumento no rombo das contas externas. Em determinado momento iria provocar (como de fato provocou) paralisação do crescimento, quebra de empresas e aumento do desemprego. Mas Gustavo alegava que os defensores da desvalorização queriam reduzir o poder aquisitivo dos trabalhadores. Contava meia verdade para chegar uma mentira.
Caso CESP – 1
O fracasso do leilão de privatização da CESP tem várias causas. Houve erro do governo de São Paulo em dois pontos. Primeiro, ao impedir a participação de outras empresas estaduais de energia. Com isso, reduziu a competição. A segunda, foi não ter resolvido a tempo a questão da renovação das concessões. Essas incertezas permitiram a alguns bancos de investimento espalhar boatos, visando derrubar o preço da companhia.
Caso CESP – 2
Outro motivo foi o agravamento da crise internacional que reduziu a oferta de financiamento. Os grupos participantes contavam com o dinheiro barato dos bancos internacionais. A crise interrompeu o fluxo de investimentos. Agora, o estado de São Paulo terá que preparar nova rodada e aguardar que a crise internacional se amenize. E pensar em formas de compensar a carência de financiamento.
Caso CESP – 3
Ontem, o Secretário Executivo do Ministério das Minas e Energia, Márcio Zimmerman informou que o governo do estado ainda não havia entrado sequer com um pedido formal para ampliação dos prazos de concessão das hidrelétricas operadas pela empresa. Aparentemente, houve um cochilo generalizado do governo do Estado nessa operação. A crise internacional foi apenas a pá de cal. A imagem de eficiência de Serra sai arranhada do episódio.
A China – 1
Do Blog, leitor Luiz Eduardo Brandão: Somente em Pequim há uma dúzia de think tanks (centros de pensamento estratégico) discutindo o futuro do país. Um só deles, a Academia Chinesa de Ciências Sociais conta 50 centros e 4.000 pesquisadores em cerca de 260 disciplinas. Na Inglaterra, toda a comunidade de think-tankers é de algumas centenas, em toda a Europa mil e pouco, e os próprios EUA não teriam muito mais de 10.000.
A China – 2
Certos temas são tabus: o unipartidarismo, o Tibete, o massacre da praça Tianmen, mas o debate sobre o modelo econômico, a luta contra a corrupção e questões internacionais (Coréia, Japão) é relativamente aberto na grande imprensa e na imprensa acadêmica. Há um intercâmbio ativo entre a intelligentsia e os tomadores de decisão. Os think-tankers são convidados a participar das `sessões de estudo´ do politburo.










