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A blindagem do nano-capitalismo

Posted By Imprensa On 18 março, 2008 @ 7:00 am In Desenvolvimento,O que deu na Imprensa,Política Econômica,Política Social | No Comments

Publicado originalmente em: Valor Online [1], em 14/03/2008

Por Maria Cristina Fernandes*

Seis em cada dez beneficiários já cruzaram a linha de pobreza. O consumo de suas famílias aumentou 28% e a expansão é majoritariamente nordestina. Não se trata de mais um balanço do Bolsa Família. Este programa não custa um centavo ao tesouro, advertência desnecessária agora que o FMI já liberou o resto do mundo do preconceito contra o gasto público. E ainda dá lucro.

O economista Marcelo Néri dedica-lhe um minucioso estudo na edição da revista “Conjuntura Econômica”, da Fundação Getúlio Vargas, que chega hoje às bancas, e o compara a uma nota de US$ 500 largada numa calçada: “É um achado”.

Atende pelo sugestivo nome de Crediamigo. Com abrigo no Banco do Nordeste do Brasil (BNB), o programa já responde por 65% de todo o microcrédito concedido no país. Com uma das mais baixas taxas de inadimplência do planeta – 0,9% – desmonta a associação automática entre a carência de garantias e o alto risco.

O sucesso se deve ao chamado aval solidário. O empréstimo é individual, mas avalizado por um grupo. E cada um de seus integrantes se responsabiliza pela participação do vizinho na amortização do empréstimo. Os valores variam de R$ 100 a R$ 2 mil reais, podendo, em renovações sucessivas, chegar até R$ 10 mil.

A engenharia do aval solidário foi tomada de empréstimo do Grameen Bank, em Bangladesh, que rendeu a Muhammad Yunus o Prêmio Nobel da Paz em 2006. A exemplo da experiência do sudeste asiático, o Crediamigo também tem uma clientela predominantemente feminina: as mulheres comandam 35% dos pequenos negócios da região, mas respondem por 62% da clientela do programa de microcrédito do Banco do Nordeste do Brasil (BNB).

Cada empréstimo rende uma média de R$ 50 anuais por cliente para o banco. Parece pouco, mas o crescimento de 20% ao ano do programa chamou a atenção de bancos privados nacionais e estrangeiros que estão inundando o Nordeste com oferta de microcrédito.

Porta de saída para preservar consumo

A oferta de crédito no Brasil ainda é mais baixa do que na maioria dos países com níveis similares de renda, relata o artigo de Néri (O mistério nordestino e o Grameen brasileiro). Mas o avanço do microcrédito já faz da região mais pobre e informal do país também aquela de mais oportunidades para os pequenos negócios. São costureiras, sacoleiras, padeiros, que, segundo o perfil levantado por Néri, lucraram 35% a mais entre o primeiro e o segundo empréstimo. Estão na base do vistoso crescimento do consumo familiar que impulsionou o PIB de 2007.

Foi observada ainda uma pequena redução em outras fontes de renda das famílias participantes do Crediamigo, o que, segundo Néri, pode ser um sinal de emancipação em relação a recursos, por exemplo, do Bolsa Família.

O que a expansão do Crediamigo indica é que o cadastro dos beneficiários do Bolsa Família é a base potencial da expansão do microcrédito no Brasil. Em 2010, o BNB já espera ter 1 milhão de clientes nesta carteira.

A oposição recebeu os resultados eleitorais de 2006 como fruto da divisão do país entre norte e sul, pobres e ricos, e beneficiários e não-beneficiários de programas sociais. Esse reducionismo será dificultado pela expansão de iniciativas como o Crediamigo para o resto do país. E não apenas de bancos oficiais, mas de grandes bancos privados que buscam alternativas ao aval solidário, mais condizente com a pressão social das pequenas cidades, para driblar patamares mais elevados de inadimplência dos centros urbanos.

O Bolsa Família com seu assombroso peso de 0,7% do PIB está praticamente universalizado. Os indícios de que há beneficiários do programa na clientela do Crediamigo só reforçam estudos, como os de Marcelo Néri sobre o tema, de que o Bolsa Família, ao permitir que as pessoas comam, também aumentam sua disposição para uma atividade produtiva.

A tão decantada porta de saída que começa, aos poucos, a se abrir, já tem 10 anos de existência. O Crediamigo foi iniciado ainda no primeiro mandato do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Que apenas agora se consolide como alavanca para o crescimento da renda dos mais pobres, é apenas mais uma evidência de que a sucessão de 2010 terá, necessariamente, que passar pela blindagem dos instrumentos que começam a fazer do Brasil um mercado de consumo de massas.

* Maria Cristina Fernandes é editora de Política. Escreve às sextas-feiras


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