Divisão de poder provoca idas-e-vindas na área econômica
Publicado no Jornal O Estado de São Paulo em 30/03/2008
Por Lu Aiko Otta
Guido Mantega é um ministro da Fazenda que comanda só uma parte da política econômica. Ele divide o poder, em condições de igualdade, com o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles – que, como ele, é ministro. Os “sócios” procuram conviver pacificamente, mas têm visões diferentes sobre como promover o crescimento da economia brasileira.
Não se trata de um confronto aberto, mas não faltam estocadas de um lado e de outro.
Antes de assumir o Ministério da Fazenda, Mantega era crítico contumaz da política de juros conduzida por Henrique Meirelles. Ao assumir a pasta, há dois anos, interrompeu os ataques. Não significa, porém, que passou a concordar com o Banco Central. Volta e meia, Mantega exibe sinais de desconforto com a política de juros.
A situação se agravou este mês porque o Comitê de Política Monetária (Copom), composto pelos diretores do Banco Central, deixou claro que o aumento das taxas de juros está no radar. A ata da reunião do Copom de março informa que foi cogitado um aumento de 1 ponto de porcentagem na taxa, atualmente em 11,25% ao ano. O Copom volta a se reunir nos dias 15 e 16 de abril e boa parte dos economistas aposta em alta.
Preocupado, o Ministério da Fazenda fez uma manobra para tentar “desarmar” a alta de juros. Segundo fonte do governo, o objetivo era mostrar que há outras formas de conter a inflação, além de elevar os juros. Porém, a operação se mostrou uma trapalhada.
No feriado de Páscoa, assessores qualificados de Guido Mantega fizeram chegar aos principais jornais do País a informação de que o governo está preocupado com o aumento do consumo no mercado interno, que pode provocar inflação. O foco da preocupação estaria na venda de automóveis por crediário. Uma possível medida para “esfriar” a demanda interna, aliviando a pressão inflacionária, seria encurtar os prazos de financiamento, que hoje chegam há 99 meses.
A informação repercutiu mal, pois trombava de frente com todo o esforço feito desde o início do governo, para aumentar o acesso da população ao crédito e ao consumo. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reclamou. Mantega recuou.
Na quinta-feira, o diretor de Política Econômica, Mario Mesquita, disse que as operações de crédito, alvo da alternativa sugerida pela Fazenda, não são a principal fonte de pressão da demanda. “A renda, a massa salarial, é tão ou mais importante em algumas regiões e em alguns casos que o crédito”, disse, ao divulgar o relatório trimestral de inflação.
No início deste mês, Fazenda e Banco Central já haviam se estranhado por causa dos juros. Ao comemorar o crescimento de 5,4% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2007, Guido Mantega comentou: “Estamos derrubando mitos da economia brasileira, como o mito do PIB potencial. Há não muito tempo atrás, dizia-se que não podíamos crescer mais do que 3%. Está provado que podemos crescer mais do que 5% sem gerar pressões inflacionárias”. Leia o resto do artigo »