Publicado originalmente na Coluna Econômica em 26.03.2008
Por Luis Nassif
Vamos a uma pequena aula sobre a retórica do mercado para justificar juros elevados.
Juros elevados afetam de diversas maneiras a economia como um todo, especialmente os mais pobres: encarecendo o custo dos empréstimos; aumentando a dívida pública; reduzindo recursos disponíveis para saúde, educação; provocando apreciação do real e competição desigual com produção externa.
O grande argumento a favor de juros elevados é o aquecimento da economia e o suposto risco da volta da inflação. Em geral, alega-se que o Banco Central é obrigado a exagerar nos juros pelo fato de não ter nenhuma medida, de outra natureza, capaz de auxiliar no combate à inflação.
Há dois pontos que explicam esse aquecimento. Um, o aumento dos prazos de financiamento de bens duráveis, especialmente automóveis. O outro, a apreciação do real que, em um primeiro momento, barateia os produtos.
Esta semana, o Ministério da Fazenda apresentou uma alternativa: redução dos prazos de financiamento de veículos, que hoje em dia chegam há 80 meses.
Para os que acreditam em superaquecimento do mercado, a medida tem lógica. Ataca-se um setor específico (o de veículos), onde o aquecimento é maior, uma ferramenta específica (o prazo de financiamento). Alcançado o objetivo de desaquecer as vendas, não haveria necessidade de manter a taxa Selic elevada. E com Selic menor, não haveria tanta apreciação do real. Portanto, atuaria nas duas pontas.
Pode-se discutir a eficácia ou não dessas medidas, ou as propostas alternativas. Mas o objetivo final de qualquer medida anti-aquecimento da economia é… desaquecer a economia. Ou não?
Ocorre que, ao esvaziar os argumentos pró-elevação das taxas de juros, esse tipo de medida impede a manutenção dos altos lucros do mercado. Razão pela qual passou a ser torpedeada pelos porta-vozes do mercado.
Os argumentos invocados são interessantes para se analisar mais de perto os sofismas de que se vale o tal do mercado para justificar juros elevados.
De repente, pessoas que sempre entram em pânico com qualquer sinal de aquecimento da demanda, tornam-se defensores intransigentes do consumo. Uma colega chegou a alegar que “democratizar o crédito é uma questão de cidadania”.
Concordo integralmente. Tanto que utilizei esse argumento em um debate, quando o economista Eduardo Gianetti da Fonseca ousou atribuir os juros altos à imprevidência dos mais pobres – que aceitam quaisquer taxa desde que a prestação caiba no orçamento.
Falou mais ainda: “Para o pobre que compra e paga em dia. Que não desvia dinheiro. Não tem conta em paraíso fiscal. Honra sua dívida porque ter nome limpo na praça é o seu patrimônio mais valioso. Talvez o único”.
Mas é uma demagogia miserável. Lendo assim, parece que tais analistas são contra qualquer forma de restrição ao consumo. Mas não é isso. Eles propõem que o desaquecimento da economia (isto é, a restrição ao consumo pela queda do nível de atividade) se dê através de juros elevados. É procedimento que afeta a atividade econômica como um todo, a renda, o emprego, o investimento. Gera uma notável transferência de renda para os chamados rentistas. Mas é medida apresentada como se fosse uma decisão científica inevitável. Cidadania, direitos, responsabilidade social? Corta essa, companheira!
Retórica de Gustavo
O mestre desse tipo de retórica foi Gustavo Franco. Leia o resto do artigo »