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Blog do Desemprego Zero

VISÃO DE PASSAGEM

Escrito por NOSSOS AUTORES, postado em 25 dEurope/London fevereiro dEurope/London 2008 Imprimir Enviar para Amigo

Maria de Fátima *

Em certa região, havia uma praia que funcionava como estrada, ligando os povoados litorâneos com a sede do município. Na maré seca, por ali passavam pessoas a pé ou a cavalo, e até veículos motorizados.

Em determinado trecho, porém, erguia-se uma elevação, mistura de rochas e falésias, que exigia cuidados. Havia duas pedras no caminho, que se abriam como passagem. Mas nunca com a maré alta. Era preciso esperar que as águas recuassem, abrindo o espaço necessário para a travessia.

Mariazinha, uma garota que falava com árvores, pedras e flores, certo dia entabulou uma conversa com aquela passagem, enquanto a maré vazava. E começou um diálogo.

  • - Passagem, o que você costuma ver todos os dias?
  • - Rostos sorrindo. Outros chorando. Passos firmes ou incertos. Por aqui transitam as mais diversas formas de vida. Animais vergados ao peso de cargas… Outros, rasteiros, como répteis, esgueirando-se devagar. Ainda outros, os crustáceos, correndo pela praia, para logo depois se enfiarem na areia…
  • - A vida se expressa de formas tão variadas, não é mesmo? E você, como passagem, deve dar espaço a todas elas, sem reter nenhuma.
  • - É. Simplesmente deixo-as passar. Admiro sua variedade e cor, suas formas e volumes… Elas vão e vêm, algumas com freqüência. Outras, simplesmente, passam apenas uma vez. Vão para nunca mais voltar… Por isso preciso estar atenta a todas. Se não as observar bem, perderei de uma vez a oportunidade de conhecer a beleza do transeunte que jamais retornará…
  • - E quais foram as mais belas formas já observadas?
  • - Ah! São tantas! Mas nada se compara a uma criança. A vida humana em botão, promessa de flor que ainda se esboça! Quantos universos no olhar de um só menino! Quanta esperança, curiosidade, sonhos, desejo de crescer e de expandir-se.. Pena é que, muitas vezes, o olhar do adulto que o leva pela mão é tão frio, duro e rígido que mata no nascedouro aquela maravilha…
  • - Olhares têm o poder de matar? Como é isso, passagem?
  • - É que as crianças ainda são brotos delicados… Tenros, preciso de sol e calor para crescer em todo o seu viço. Precisam de águas puras… Se a natureza, o céu e as nuvens, providenciam tais elementos para as plantas, cabe aos pais, ou outros adultos, fornecê-los com generosidade aos pequeninos. Mas nem sempre eles têm condições de oferecê-los. As dores, as preocupações da vida, o excessivo egoísmo, tornam as pessoas duras como pedra. E aí, já viu! O sopro frio da morte se abate sobre a flor entreaberta e a faz estiolar-se…
  • - Que tristeza, não é, passagem? Mas que outras coisas lindas você observa por aqui?
  • - O amor, a amizade, a delicadeza que une as pessoas entre si. Os seres humanos são os mais belos e complexos que palmilham minhas areias. Seus pés deixam pegadas fortes ou fracas, dependendo da firmeza de seus passos. Alguns são tão especiais que eu gostaria de retê-los comigo para sempre, e espelhar-me na luminosidade de seus olhos. Mas preciso aprender a não segurar nada… A deixar passar, pura e simplesmente, admirando a beleza que se me oferece, consciente de que ela é efêmera, como tudo na vida!

E Mariazinha, olhando o relógio, exclamou:

- Obrigada, passagem! Tenho que ir, porque as aulas começarão daqui a pouco. Mas agradeço pelo que aprendi com você. E, a partir de agora, também eu estarei mais atenta à beleza de cada ser. E ao instante presente, que passa e não volta, mas encerra, em sua precariedade, o encantamento, a força, o mistério da Vida!

* Maria de Fátima de Oliveira: Jornalista aposentada, autora do livro inédito Labirintos de Areia. Meus artigos



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