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Blog do Desemprego Zero

Uma patifaria financeira

Escrito por Imprensa, postado em 6 dEurope/London fevereiro dEurope/London 2008 Imprimir Enviar para Amigo

DCI – www.dci.com.br

01/02/08 – 00:00 > OPINIÃO
Uma patifaria financeira

A crise do que se convencionou chamar de subprime, iniciada nos Estados Unidos e que está devastando o mundo das finanças no Hemisfério Norte, já demonstrou duas coisas: o tremendo fracasso dos sistemas de regulação dos mercados financeiros e o nível fantástico de imoralidade que se apossou dos operadores e administradores nos diversos escalões do sistema bancário.

Grandes bancos, algumas das maiores instituições mundiais, construíram condutos externos para realizar operações de alto risco e altíssimos retornos sem registro em seus balanços. É evidente que esses famosos “conduits” não poderiam funcionar sem a anuência e cumplicidade da alta administração: era ela que, valendo-se do prestígio das instituições, estimulava as operações de financiamento onde os papéis ruins eram transformados em papéis bem-aceitos pelos investidores porque tinham o carimbo do Banco e o selo de certificação AAA (“Triple A”) concedido pelas fajutas agências de “classificação de crédito”.

O sistema mundial de regulação dos mercados financeiros falhou redondamente todos esses anos em que se desenrolou a aventura das hipotecas que a partir dos Estados Unidos contagiou os demais países, especialmente no hemisfério norte. As agências fiscalizadoras, os próprios bancos centrais, as agências de risco e as tais certificadoras se omitiram. Foram incapazes de detectar as manobras de operadores extremamente ousados que abandonaram de vez os escrúpulos e passaram a guiar-se por um único “princípio”: realizar o maior lucro no menor prazo possível, embolsar os bônus e cair fora.

De preferência para o sol da Flórida, no melhor estilo do velho Al Capone… (para informação dos mais jovens, famoso gângster de Chicago, nos anos 30). Quando um sistema passa a trabalhar nessa base e não funcionam os controles externos, só pode terminar do jeito que terminou.

Não é a primeira nem a segunda vez nesses anos recentes que a economia real sofre as conseqüências de um processo dessa natureza, de falha na regulação e falência moral. Nos últimos dez ou doze anos tivemos uma crise a cada nove meses, produzidas exatamente por alguma patifaria no sistema financeiro. E seus efeitos não se restringem às origens.

O aumento da desconfiança e a descrença generalizada vão transportando a crise financeira para a economia real, como está acontecendo agora com a queda de crescimento da economia norte-americana. É inevitável que daí os efeitos se espalhem, atingindo em maior ou menor grau a economia real dos Delfim demais países.

É ilusão imaginar que o Brasil está imune. Em relação às crises anteriores nós estamos muito mais bem preparados: conquistamos uma situação sólida na área externa, temos estabilidade interna graças à seriedade da política fiscal e expectativa de inflação bem ancorada. Persiste uma sólida melhora da renda produzida por mais emprego e salários reais compatíveis com o aumento da produtividade. E a expansão do crédito dá sustentação ao crescimento do consumo.

Nessas condições, continuando o governo com a disposição de não reduzir os investimentos na infra-estrutura e tudo o mais, o impacto da crise será absorvido com menos trauma, sem nos desviar do crescimento, embora tenhamos de eventualmente aceitar uma ligeira redução do seu ritmo, mas não longe dos 5% este ano.

DELFIM NETTO



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