Miguel Nicolelis: Pode o Nordeste vir a ser a Califórnia? Flor de Cactos
Escrito por Imprensa, postado em 22 dEurope/London fevereiro dEurope/London 2008
Pode o Nordeste vir a ser a Califórnia brasileira ? Fosse esta a afirmação
do vulgo da esquina, seria motivo de deboche… Mas sendo a opinião de um
dos maiores cientistas brasileiros, a proposição merece ser examinada com o
devido cuidado.
Flor de cactos, artigo de Miguel Nicolelis (Carta Capital, 7/2)
“Em bom português, para quem tem olhos e quer ver, o Nordeste pode e tem
tudo para se transformar na nossa Califórnia”
Miguel Nicolelis é pesquisador na Universidade Duke (EUA) e líder do
projeto do Instituto Internacional de Neurociência em Natal
(nicoleli@neuro.duke.edu). Artigo publicado na “Carta Capital”:
Para a maioria dos brasileiros, principalmente aqueles que vivem no Sul e
Sudeste, qualquer menção ao sertão nordestino imediatamente evoca
tradicionais imagens de destituição, miséria, abandono e atraso.
Invariavelmente, essas amargas lembranças servem apenas para reforçar a
opinião de que uma realidade tão implacável e inóspita jamais se renderá a
qualquer política pública ou iniciativa privada que vise ao desenvolvimento
da região.
Assim, dentro desse estereótipo nacional, nada é capaz de prosperar diante
do sol escaldante, o solo seco e os desolados jardins de cactos que dominam
a paisagem da Caatinga.
Essa visão fatalista ignora que o sertão nordestino há séculos serve de
palco para o desenrolar de um grande épico de sobrevivência, construído dia
a dia pela ingenuidade natural e obstinação de todas as formas de vida que
lá habitam.
Formada por uma vegetação altamente adaptada à falta crônica de água,
ornada por uma flora típica e própria, a Caatinga há muito deixou de ser
considerada, ao menos em termos botânicos, como uma simples degeneração da
Mata Atlântica. Na realidade, trata-se de um dos biomas mais especializados
do mundo, parte integral e única do extraordinário patrimônio natural
brasileiro.
Todavia, diferentemente da floresta amazônica, do Pantanal, e até mesmo do
Cerrado, a Caatinga ainda não encontrou seu espaço próprio na consciência
nacional, que vira-e-mexe prefere rejeitá-la, como se fosse uma filha a
quem se nega paternidade, nome e pensão.
O fascínio que atrai milhares de brasileiros a visitar as inúmeras e
exuberantes praias do Nordeste esvai-se em segundos quando o sertão é
mencionado como uma nova provável fronteira de desenvolvimento que começa a
se desenhar no horizonte futuro do País.
Improvável, respondem de imediato os mais gentis e cautelosos. Impossível,
bradam os chamados realistas. Inimaginável, decretam os fatalistas. O que
pode crescer e prosperar nesses infindáveis e desolados jardins de cactos,
perguntam todos em coro?
Durante uma viagem de alguns dias por muitos recantos extraordinários do
interior da Paraíba e do Rio Grande do Norte, encontrei a resposta para
esta pergunta. E ela não poderia ser mais singela e simples. São flores,
muitas flores, que brotam desses jardins de cactos, outrora abandonados
pelo ocaso predito, para colorir a paisagem desse sertão com matizes de
esperança e sonho.
E é a partir dessas ainda frágeis florescências, tão inesperadas quanto
belas, que desabrocha a concreta sensação, para quem o visita, de que o
destino do Nordeste brasileiro, dado como natimorto inviável, pode se
transformar numa inesperada fronteira de desenvolvimento e progresso, com
repercussões significativas para todo o Brasil e o mundo.
Em bom português, para quem tem olhos e quer ver, o Nordeste pode e tem
tudo para se transformar na nossa Califórnia.
Os primeiros sinais do que está por vir podem ser obtidos no interior
paraibano, nas primeiras plantações experimentais do pinhão-manso (Jatropha
curcas), uma planta oleaginosa que cresce nos tabuleiros do sertão, muito
bem adaptada à falta d”água crônica.
Num futuro próximo, essa e outras culturas, valendo-se do casamento da
moderna biotecnologia com uma nova agricultura do Semi-Árido, podem
transformar as terras do sertão na maior usina de biocombustível do mundo.
E, no processo, revolucionar o desenvolvimento econômico e social da
região.
Exemplos como esse proliferam pelo sertão. Somado ao acesso à tecnologia,
tem provocado mudanças no cotidiano dos habitantes. É como conta Gustavo,
estudante de um vilarejo chamado Residência, no Rio Grande do Norte.
Primeiro, diz ele, chegou a água, depois a eletricidade. Daí chegaram as
antenas parabólicas e a televisão. Por isso, do Brasil ele sabe tudo e para
tudo tem uma opinião.
Dos problemas do tráfego aéreo à criminalidade das grandes cidades, Gustavo
está a par da agenda nacional. Para o menino, o sertão está muito bom e só
tende a melhorar. Assentindo em silêncio, procurei gravar cada detalhe
daquela florada humana desabrochando, ali, no lugar onde poucos imaginaram
que cacto também desse flor.











22 dEurope/London fevereiro, 2008 as 2:28 pm
Miguel Nicolelis é um cientista reconhecido mundialmente, além de um dos grandes intelectuais brasileiros.
Acho muito interessante que ele tenha escolhido a mesma comparação do Nordeste com a California, como fez o Profº Carlos Lessa. Mesmo que por razões um pouco diferentes – mas que são perfeitamente complementares.
O Profº Lessa, em artigo publicado aqui no blog, sustenta que a agricultura irrigada,principalmente a fruticultura, pode ser uma vigorosa base econômica para o crescimento regional.
Nicolelis dá entender, em seu artigo, que uma flora muito específica e adaptada já apresenta condições naturais de constituir tal base econômica, talvez até prescindindo de irrigação. Mas insiste que é preciso oferecer serviços públicos aos habitantes da região para melhorar as condições de vida. Faz questão de mencionar a oferta de água como fator imprecindível. Não apenas para não morrer de sede, mas para ter acesso a saneamento e outros tantos serviços impensáveis sem oferta segura de água.
O Nordeste possui imensas potencialidades, mas ainda nos falta implementar políticas que estejam à sua altura. E a integração das bacias com o rio São Francisco é uma das formas de começar.
24 dEurope/London fevereiro, 2008 as 5:49 pm
Caro Eduardo,
vc está certo!
abraços
25 dEurope/London fevereiro, 2008 as 11:07 pm
Perfeito, Eduardo.
O Nordeste possui mesmo grandes potencialidades. Um dos graves problemas brasileiros continua sendo sua aguda concentração de renda, que é uma das mais perversas do mundo em desenvolvimento.
Creio igualmente que o projeto São Francisco será um avanço extraordinário, e concomitantemente abrirá espaço para grandes avanços a posteriori.
Abraços,