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O PRAZER DE CONVIVER
Posted By NOSSOS AUTORES On 16 fevereiro, 2008 @ 12:54 pm In Crônicas,Maria de Fátima | No Comments
Por Maria de Fátima
O PRAZER DE CONVIVER
O ser humano, por sua própria condição, é um ser social. Ao nascer, é acolhido por uma família, com a qual aprende, bem ou mal, a viver e situar-se no mundo. E mais tarde o círculo vai-se ampliando, Primeiro na escola, depois no trabalho e na sociedade, somos desafiados a viver com pessoas diversas: colegas, amigos e mesmo desafetos, gente de nível cultural e social variado. Todos, membros vivos e atuantes da espécie humana.
Certa vez, num livro intitulado “Prazer ou Amor”, eu encontrei esta frase: “O maior prazer é o prazer de conviver”. Ela me fez pensar. A palavra “conviver” é desafiadora. Ela significa, literalmente, “viver com”.
O que é, exatamente, “viver com”?
Não é a mesma coisa que “viver por”. Neste caso, a pessoa, que não pôde realizar seus sonhos, ou não o quis, compraz-se totalmente no sucesso de alguém mais próximo, como se vivesse por ele. Sente as realizações do outro como suas e com elas se alegra e rejubila. Transfere para ela a tarefa de construir sua própria felicidade e vai vivendo assim, sem olhar para si mesma. Basta-lhe que o outro esteja bem.
Já “viver para” tem outra conotação. A pessoa se volta inteiramente para alguém a quem julga amar, ou para a família, um grupo, uma causa, um ideal. E esquece totalmente a si mesma, seus desejos, anseios e necessidades, carências a suprir, aspirações e sonhos. Só os outros existem, só eles contam. Há até certa vertente religiosa que incentiva esse “viver para”, enaltecendo-o como virtude cristã por excelência, como se alguém pudesse verdadeiramente amar a Deus e ao próximo sem começar por si mesmo.
“Conviver”, ou “viver com” é bem mais desafiador e gratificante. Implica conviver primeiro consigo mesmo, com sua fragilidade e sua força, suas riquezas e pobrezas, seu universo pessoal, abraçando-o com gratidão e alegria.
Esse primeiro desafio já não é fácil, sobretudo em nossa cultura, que privilegia a perfeição, ignorando que essa palavra significa completude, e que o ser humano que sente completo e acabado está morto, porque renuncia ao direito de estar aprendendo sempre. Mas não é só por isso que é difícil aceitar-se integralmente. Todos carregamos em nós certas áreas doloridas, que procuramos esconder, justamente porque doem. Mas integrá-las é fundamental para abraçar a própria vida com alegria e, assim, entregar-se à aventura de “amar o próximo como a si mesmo”.
Sentindo-nos vivos e felizes por ter sido chamados à festa da existência, poderemos tranqüilamente encarar os “com-panheiros”, aqueles que se sentam conosco à mesa desse banquete. Podemos dar-lhes a mão e olhá-los nos olhos, repartir com eles o pão e o chão, o ar e o espaço, e abrir-lhes a porta de nossa casa.
Tudo isso, porém, sem jamais abdicar de nossa identidade, daquilo que nos é mais próprio, mais íntimo e pessoal. Haverá companheiros que serão convidados a entrar mais em nossa intimidade, justamente aqueles em quem divisamos uma centelha da beleza divina, que se traduz numa maior abertura para o ser.
Com estes, poderei partilhar mais livremente o que sou: grandezas e limites, sonhos e dores. Poderei convidá-los a beber dos rios de minha ternura, porque sei que saberão me respeitar e estarão dispostos a acolher-me tal qual sou, sem cobranças ou exigências descabidas. E ao mesmo tempo estimular-me-ão a fugir da mesmice e da imobilidade, ajudando-me a descobrir novos caminhos, não tanto pelo que dizem e fazem, mas pelo que são.
“Conviver” é estar com o outro gratuitamente, sem querer impor-lhe nossos caminhos ou modos de ver, nossas crenças ou teorias. Certamente, poderemos partilhar com ele experiências que nos ajudaram e sugerir que, a partir do que elas nos ensinaram, ele possa abrir os olhos para enxergar outros caminhos. Mas nunca, jamais, tentar impor-lhe o que quer que seja. A imposição autoritária é apanágio dos tiranos e mata na raiz qualquer promessa de amizade verdadeira.
Em termos de convivência, somos todos aprendizes. Mas, se o percebemos, já é um motivo de alegria, porque infelizmente, em nosso mundo competitivo e do “salve-se quem puder”, o convívio harmonioso entre as pessoas não anda muito fácil. A maioria anda tão esbaforida, tão sobrecarregada com os problemas diários, que não tem tempo para acolher um sorriso, olhar uma flor, dar a mão ao outro e saudá-lo com um olhar de acolhida.
Ou – o que é pior – muita gente nem se toca para esta necessidade fundamental que é aprender a “ser-com”, aprendizado contínuo e jamais concluído, mas que nos assegura o privilégio maior: contemplar a beleza de Deus espelhada na face de um ser humano, quando este se atreve a abrir-nos a porta e convidar-nos a “viver com” ele, livre dos grilhões da posse, do autoritarismo e da objetivação.
Acredito sinceramente que para isto fomos feitos. Quando ou soubermos viver, mesmo que imperfeitamente, estaremos realizando a palavra bíblica do início da criação, porque nos tornaremos “imagem e semelhança de Deus”.
Maria de Fátima de Oliveira: Jornalista aposentada, autora do livro inédito Labirintos de Areia. Meus artigos [1]
Salve, Napô! Napoleão muda história do Brasil, não é Dom João VI ? [4]
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[4] Salve, Napô! Napoleão muda história do Brasil, não é Dom João VI ?: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/03/salve-napo/
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