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O EGOÍSMO NADA REPUBLICANO

Posted By rubensteixeira On 8 fevereiro, 2008 @ 1:06 pm In Política Social,Rubens Teixeira | 2 Comments

Por Rubens Teixeira* 

      O Rio de Janeiro convive com sérios problemas estruturais, dentre eles destacam-se deficiências na infra-estrutura habitacional, de transporte, de saúde e de educação. A casa alheia, definida pela Constituição da  República como “asilo inviolável”, não parece gozar desta prerrogativa na consciência de alguns governantes e formadores de opinião. Procura-se explicar de forma simplória que as favelas existem porque os trabalhadores optam por morar perto do emprego, como se morar longe do local de trabalho fosse alternativa viável. Não espanta a opinião pública que essas moradias precárias sejam permanentemente violadas, seja pelo poder público, seja por delinqüentes.

      O egoísmo social no Brasil é latente e histórico. A falta de sensibilidade em submeter os cidadãos menos favorecidos ao submundo da miséria é um consenso que ocupa posição privilegiada e pétrea no inconsciente coletivo de boa parte da sociedade. Há um esforço em impor a idéia de que não há o que se fazer para mudar as condições sub-humanas em que vivem os alijados dos direitos básicos de cidadania. Exemplo disso são as campanhas contrárias que se fazem a projetos que visam melhorar as condições de moradia dos que vivem nas comunidades carentes.

      Seria difícil para uma mente mediana um “insight” que identificasse como prioritárias e emergenciais obras destinadas à melhoria das condições de habitação em comunidades carentes? A instalação e o aparelhamento de hospitais e postos de saúde para os que dependem deste serviço do governo não deve mesmo merecer prioridade? Seria razoável aos formadores de opinião entenderem que as favelas próximas aos grandes centos são geradas pela indolência de alguns cidadãos que não querem morar longe dos trabalhos? Estes formadores de opinião utilizam-se de trens e ônibus lotados nas linhas que tomam itinerários longínquos dentro do município? Os formadores de opinião já perceberam que enquanto na Zona Sul há muitos ônibus com poucos passageiros, no mesmo horário, o do rush, na Zona Oeste há poucos ônibus com muitos passageiros? Caso perceberam, porque não se ocupam em exigir do prefeito que implemente uma otimização dos transportes coletivos? Porque tanto esforço em combater as medidas destinadas a melhorar as condições de vida de quem mora em locais pobres?

      Obras sociais nos bolsões de pobreza são vistas como eleitoreiras, mas omitem-se opiniões com relação a obras faraônicas na Barra da Tijuca, como a da Cidade da Música. É deselegante comentar que estas obras são feitas com recursos da prefeitura que poderiam ser empregados na melhoria das condições de habitabilidade dos bairros pobres da Zona Oeste ou mesmo nas comunidades carentes da Zona Norte.

      Este comportamento é próprio de um país que, embora se defina como democrático na sua Constituição, no inconsciente da classe dominante é aristocrático. Esta classe, nada republicana, está preocupada apenas em aumentar a sua fatia do bolo. Ocupa-se em pensar soluções para os que efetivamente precisam do socorro dos serviços públicos quando os efeitos da desgraça alheia começam a trazer-lhe desconforto, ou por insurgência dos miseráveis, ou por sentimento de culpa, por vezes fundamentados em uma péssima razão religiosa. Faz-se o bem não pelo próximo, mas para livrar-se do sentimento de culpa.

      As amarras que prendem a inteligência dos leões de chácara do capital que dominam boa parte dos meios de comunicação de massa impedem-lhes enxergar que não há como enjaular seres humanos. Acuados, os carentes se insurgirão de alguma maneira, seja tirando-lhes o conforto nas mansões, seja perturbando-lhes o lazer nas ruas e parques, seja atrapalhando-lhes o tráfego nos grandes centros, e, os mais desvalidos moralmente, subtraindo-lhes o patrimônio ou a vida.

      Dividir o bolo e dar condições dignas de vida não é apenas uma opção de bondade. Parcela da população abastada e religiosa parece não enxergar os fundamentos básicos de sobrevivência. Caso se queira qualidade de vida devem-se garantir condições dignas de sobrevivência a todos. Campanhas pela paz não resolverão questões relativas à justiça social. No contexto do egoísmo coletivo, paz e justiça social são igualmente utópicas e movimentam-se no mesmo elevador. Sobem e descem conjuntamente.  Como disse Montesquieu, a injustiça que se faz a um, é uma ameaça que se faz a todos. 

Rubens Teixeira é formado pela AMAN; em Direito pela UFRJ; em Engenharia Civil e Nuclear pelo IME; e doutor em Economia pela UFF.  Meus Artigos [1]


2 Comments (Open | Close)

2 Comments To "O EGOÍSMO NADA REPUBLICANO"

#1 Comment By Gustavo On 8 fevereiro, 2008 @ 5:07 pm

Bom texto, Rubens!
nesses tempos de exaltações políticas, temos que relembrar as raízes do problema da violência: a injustiça. O Prefeito César Maia tem que explicar sobre as prioridades que ele escolheu em seus 12 anos de governo. Cidade da Música “Roberto Marinho” é prioridade por que? e o que Roberto Marinho tem com relação à música?
Nesse período a violência não melhorou. Parabéns pelo artigo!

#2 Comment By Peter Esteves On 10 abril, 2009 @ 9:53 pm

Parabéns Dr. Rubens Teixeira pela lucidez do artigo! Ele descreve com clareza cristalina a dificuldade da massa desfavorecida economicamente e a indiferença dos que ocupam o poder e poderiam fazer alguma coisa para mudar este status quo vergonhoso, do qual foi dito com muita propriedade, que nenhum dos elementos que o compõem sairá incólume.


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[2] REPÚBLICA E CIDADANIA: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/11/republica-e-cidadania/

[3] CPMF: AS VERDADEIRAS RAZÕES DA DERROTA: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/12/cpmf-as-verdadeiras-razoes-da-derrota/

[4] A CPMF, a Transposição do São Francisco e a luta contra o "Populismo": http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/12/a-cpmf-a-transposicao-do-sao-francisco-e-a-luta-contra-o-populismo/

[5] Projeto Cimento Social: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/12/projeto-cimento-social/

[6] Exército brasileiro inicia projeto Cimento Social no Morro da Providência no Rio: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/12/exercito-inicia-projeto-cimento-social-no-morro-da-providencia-no-rio/

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