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O adeus à era Bush

Posted By Rodrigo Medeiros On 25 fevereiro, 2008 @ 6:38 pm In Conjuntura,O que deu na Imprensa | No Comments

Fonte: CartaCapital, 15/02/2008.

Nouriel Roubini

O economista da New York University e chefe do site de análises econômicas RGE Monitor, Nouriel Roubini, compara as diferenças entre as propostas para a economia norte-americana dos três principais candidatos a assumir a Casa Branca: Hillary Clinton, Barack Obama e John McCain. Comenta ainda os reflexos da eleição sobre a economia global. A conclusão é inequívoca. Seja quem for o novo morador da Casa Branca, haverá menor ênfase na guerra antiterror e maior aproximação com a América Latina.

CartaCapital: A começar pelos democratas, o que diferencia Hillary de Obama?

Nouriel Roubini: Não há diferenças fundamentais entre eles. Mas é possível se detectar algumas ênfases, principalmente no que se refere ao sistema de saúde. De maneira geral, os democratas vêm engrossando o discurso da universalização dos cuidados médicos. Hillary promete que todos terão planos de assistência médica, com subsídios do governo. Já Obama vai focar a política de saúde na assistência às crianças, e não necessariamente aos seus pais. Cálculos de alguns estudos mostram que essas iniciativas elevariam os gastos com saúde de 120 bilhões de dólares para cerca 140 bilhões de dólares ao ano. Em contrapartida, com 20 bilhões de dólares a mais por ano, o dobro de americanos teria acesso, de alguma forma, à assistência médica.

CC: Estamos falando sobre mais gastos, enquanto o déficit fiscal dos Estados Unidos é enorme.

NR: Isso não está muito claro nos programas dos candidatos. Nos Estados Unidos, muitas empresas já oferecem planos de saúde. Uma das saídas seria taxar as que não o fazem para financiar os desprotegidos.

CC: Qual dos dois é mais bem preparado para enfrentar a atual crise econômica americana?

NR: Em princípio, Hillary parece mais bem preparada para dar respostas técnicas, como a sugestão de congelar por cinco anos as hipotecas mais problemáticas, em comparação ao plano de Bush, que beneficiará apenas 10% dos mutuários em dificuldades. O discurso de Obama é mais amplo e não foca especificamente a questão dos desdobramentos do crédito subprime.

CC: McCain parece mais progressista do que a maioria de seus pares republicanos. Como ele enfrentaria os problemas econômicos?

NR: No Partido Republicano, McCain é considerado um dissidente. Ele não necessariamente segue as tradições políticas do partido. No passado, manifestou-se contra o corte de impostos (dos mais ricos) e tem posições divergentes sobre a indústria de armamentos e de tabaco. Num espectro mais amplo, ele se mostra muito mais preocupado com o enorme déficit fiscal (causado por Bush). McCain parece menos ideológico em suas posições, mais pragmático, mas ainda não deixou claras as propostas econômicas.

CC: Como a crise e a eventual recessão americana afetarão os resultados das eleições?

NR: Estudos acadêmicos mostram que a inflação e o nível de atividade econômica sempre foram cruciais para as eleições. Por exemplo, se o ano é de recessão, o partido no poder na Casa Branca historicamente perde para a oposição. Como 2008 será recessivo, os democratas tendem a vencer os republicanos por uma larga margem de 10 pontos porcentuais. Algo como 55% versus 45%. Claro que, como McCain é uma espécie de dissidente, ele lutará com todas as forças para mostrar que fará um governo diferente de Bush. Acredito que, a partir de agora, mais do que há seis meses, os três candidatos vão se esforçar para mostrar saídas da recessão, porque é a principal preocupação da sociedade americana hoje.

CC: Percebemos uma mudança quase semiótica nesta eleição. Há uma candidata mulher, um negro filho de imigrantes e um republicano menos conservador. É engano ou qualquer um que vença será melhor para o mundo?

NR: Do ponto de vista geopolítico global, todos os candidatos sabem que os EUA, de alguma maneira, perderam muito de sua reputação. No entanto, do lado dos democratas, não devemos esperar iniciativas muito à esquerda. Pertencem ao centro, basicamente. Claro que há diferenças pontuais, sobre o timing da questão da retirada das tropas do Iraque, por exemplo. Já McCain terá uma visão mais global sobre as desavenças internacionais, muito mais ampla do que Bush. Ao menos, ele tende a não ser tão moralista e unilateral.

CC: E para os mercados emergentes, como o Brasil, o resultado da eleição fará alguma diferença?

NR: Sim. Porque a administração Bush concentrou-se basicamente na guerra contra o terrorismo e deixou de lado, por exemplo, a América Latina. Acredito que, na questão da política externa, haverá uma reaproximação diplomática grande com os vizinhos do Sul.


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[1] Sobre o papel do Estado: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/sobre-o-papel-do-estado/

[2] Tem São Paulo demais: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/tem-sao-paulo-demais/

[3] EDITORIAL do Cadernos do desenvolvimento do centro Celso Furtado: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/editorial-do-cadernos-do-desenvolvimento-do-centro-celso-furtado/

[4] País perdeu os 'anos de ouro' da economia mundial: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/pais-perdeu-os-anos-de-ouro-da-economia-mundial/

[5] Espantando o vôo de galinha: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/espantando-o-voo-de-galinha/

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