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Miséria e violência: simbiose maldita

Posted By rubensteixeira On 8 fevereiro, 2008 @ 12:52 pm In Política Econômica,Rubens Teixeira | 1 Comment

Por Rubens Teixeira* 

     Os índices de violência em várias cidades do Brasil têm-se mantido em níveis elevados. Os números de mortos e feridos são comparáveis aos de guerra. De tanto se repetir que no Brasil há uma enorme desigualdade social sem que sejam tomadas medidas eficazes para se alterar este quadro, esta expressão não causa mais tanto impacto. Há uma resignação dos desfavorecidos e um desprezo da miséria alheia pelos mais ricos.  O “governo” é “eleito” o culpado e, dada a sua impessoalidade, não parece incomodar-se tanto. Tal “governo” é muito atuante e sensível durante campanhas eleitorais.

     O impacto causado pela violência é diferente nas diversas camadas sociais. Quanto maior o poder aquisitivo do afetado, maior será o clamor social. Esta e outras distorções sociais precisam ser corrigidas. Há direitos básicos, como saúde e educação, que são disponibilizados em função do quanto o cidadão se dispõe a pagar. Direitos que deveriam ser igualitários estão disponíveis de acordo com o poder aquisitivo.

     A razão é simples. Alguns cientistas com visão pouco democrática criaram a idéia de que os serviços de saúde e educação são serviços públicos não essenciais, podendo ser compartilhado com o setor privado. Já o serviço de segurança pública sim, é essencial, portanto, privativo do Estado. Em função disso há uma maior democratização das instituições de segurança pública. Não existe a delegacia de rico e a de pobre, embora se saiba das limitações e discriminações que se impõem aos de menor renda.

     A violência encontra na miséria ambiente propício para proliferação. Por exemplo, criminosos usuários de drogas são mais de 70% das classes A e B, conforme pesquisa divulgada pela Fundação Getúlio Vargas. Os mais abastados pagam para que a droga seja produzida e entregue a eles com segurança em um sistema que os mais vulneráveis são filhos da miséria. Em bolsões de miséria é mais fácil encontrar quem troca pouco tempo de vida por alguns momentos de “conforto e glória”.

     O cenário de miséria e violência em comunidades carentes é tratado com descaso pela maioria da sociedade. Mortes decorrentes da violência em áreas pobres não comovem tanto a opinião pública quanto situação idêntica em áreas nobres. Neste consenso social despreza-se os serviços de saúde e educação mas, pressionados pelos mais ricos, os governos gastam altas cifras de recursos no combate à violência, com ações predominantemente de confronto exatamente nos bolsões de pobreza e miséria, com grande número de mortos e feridos e pouco impacto nos níveis de criminalidade.

     O resultado imediato desta distorção é que todos, ricos e pobres, são afetados pela violência, embora que de forma diferenciada. A miséria é o ambiente propício para a proliferação da violência. A despeito das medidas e orientações necessárias para o controle de natalidade, devem ser garantidas pelo Estado condições básicas de atendimento digno de saúde e educação de qualidade. Crianças nascidas em favelas, se deixadas ao desamparo, podem mais facilmente ser cooptadas pelo crime, se educadas e bem tratadas poderão ser intelectuais, competentes profissionais e cidadãos do mais alto gabarito.

     O desprezo pela dignidade alheia não deve se tornar consenso social. O sentimento de empatia pelo próximo e o respeito à pessoa humana deveriam ser suficientes para mover o sentimento popular para que fossem tomadas medidas eficazes de proteção aos menos favorecidos.  Contudo, se não houver sensibilidade suficiente, deve-se enxergar o combate à miséria como prevenção a proliferação da criminalidade. Todavia, se esta realidade for utópica e faltar sensibilidade à sociedade, as conseqüências trarão resultados idênticos para todas as camadas sociais, pois o Estado não dará conta de conter a violência nos bolsões de miséria e suas conseqüências irão alcançar, como se já percebe, as regiões “nobres”, trazendo sobre ricos e pobres os mais danosos resultados, mortos e feridos.   *

Rubens Teixeira é formado pela AMAN; em Direito pela UFRJ; em Engenharia Civil e Nuclear pelo IME; e doutor em Economia pela UFF. Meus Artigos [1]


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1 Comment To "Miséria e violência: simbiose maldita"

#1 Comment By Rodrigo Medeiros On 8 fevereiro, 2008 @ 1:39 pm

Prezado Rubens

Estão ocorrendo releituras interessantes sobre a temática da violência. O economista Steven Levitt, por exemplo, levantou polêmicas correlações estatísticas sobre o número de abortos e as taxas de criminalidade. O paper ‘The Impact of Legalized Abortion on Crime’ está disponível em [7].

O ministro José Gomes Temporão, da Saúde, até que ensaiou entrar fundo no debate do planejamento familiar. Creio que se trata de um debate necessário. Os pais precisam se responsabilizar pela formação dos filhos. O Estado deve cumprir suas partes em termos da oferta de serviços públicos básicos (educação, saúde, saneamento básico, renda mínima, etc). Ele não pode suprir o afeto e a atenção dos pais.

Escutei de um amigo historiador e professor da UFF algo muito interessante. A sociedade brasileira herdou do campo a violência que hoje vivemos nas cidades. Nosso campo foi violento, do Império à República. A lei do mais forte sempre governou. E na lei da selva reina a barbárie… Quando se iniciam as migrações para as áreas urbanas, fruto do processo de industrialização substitutiva de importações, a violência também migra.

Certamente se trata de um tema polêmico e que não agrada aos fundamentalistas extremistas.

Um abraço,

Rodrigo L. Medeiros


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[2] ? Interesses, idéias e instituições: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/07/interesses-ideias-e-instituicoes/

[3] ? A Inflação Brasileira Recente: Uma Crítica ao Regime de Metas de Inflação: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/07/a-inflacao-brasileira-recente-uma-critica-ao-regime-de-metas-de-inflacao/

[4] ? Ata do Copom, reunião 17 e 18/7/2007: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/07/ata-do-copom-reuniao-17-e-1872007/

[5] ? Por que não se discute os gastos com juros?: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/07/por-que-nao-discutem-os-gastos-com-juros/

[6] De padrão asiático a latino-americano de crescimento no Brasil: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/08/de-padrao-asiatico-a-latino-americano-de-crescimento-no-brasil/

[7] : http://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=174508

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