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METAMORFOSE

Posted By Imprensa On 24 fevereiro, 2008 @ 11:32 am In Contos,Maria de Fátima,Todos (nossos autores) | No Comments

Maria de Fátima

Era uma vez uma pequena lagarta, que vivia feliz sobre uma folha aveludada e fofa, parte de uma árvore frondosa e muito verde. Naquela folha a lagartinha se sentia segura e acolhida, alimentada e bem-vinda.

Um dia, porém, não se sabe como, desabou uma tempestade tão forte sobre a floresta que a árvore foi atingida em cheio, e a largatinha foi jogada longe, bem longe de seu habitat. Lançada ao chão, quase se espatifa sobre a dureza das raízes… Arrastando-se como pôde, encostou-se na haste de um galho seco que jazia no solo, também ele derrubado pela força dos ventos…

E criou uma casca protetora. Enclausurou-se nela com todas as suas forças, tentando proteger-se do vento e da chuva, dos raios e trovoadas. Tentava alimentar-se como podia, sugando a vida que ainda restava no galho. Quando o vento era muito forte, o galhinho era jogado em todas as direções, ia e vinha… Mas a pequena lagarta permanecia lá, segurando-se como podia para não ver seu abrigo rompido e virar poeira cósmica.

O tempo foi passando… Aquele pequeno graveto permanecia lá, ao sabor dos ventos e da chuva, abrigando a larva em sua longa espera… Nenhum lenhador se interessava por um galho tão minúsculo, que passava despercebido até aos olhares dos moleques, passantes descuidados, que vinham brincar ali de vez em quando.

Um dia, aconteceu que uma fada muito bonita, de olhos brilhantes como estrelas, resolveu passear no bosque. Passando sob uma árvore florida, descobriu lá, ao rés do chão, aquele mínimo graveto e, encrustada nele, a larva endurecida…

“Meu Deus – murmurou ela – que poderosa é a vida para esconder-se em tão pequeno envoltório!” De repente, a luz do seu olhar e o calor do seu coração conseguiram tocar aquela carcaça inerte e perceber nela o embrião de uma borboleta, capaz de voar, de abrir os olhos para a amplidão do horizonte, abrir as asas e saudar a vida.

Aquele toque alvoroçou a larva adormecida, e ela começou a mexer-se devagar, devagarinho mesmo, porque ficara muito tempo imóvel e não treinara a aventura do vôo… Mas, de súbito, conseguiu abrir os olhos, movendo de leve suas anteninhas, mobilizando-se toda… Sentiu que algo saía do seu corpo e percebeu a leveza das asas…

Começou a batê-las e ensaiar seu primeiro vôo… Ele foi lento e desajeitado, mas vieram outras tentativas. E dizem que até hoje a pequena borboleta anda pela floresta, ensaiando vôos cada vez mais altos, exibindo a beleza do azul que brilha em asas fortalecidas pela experiência diária e saboreando o prazer de flutuar no espaço e embriagar-se de amplidão.

Maria de Fátima de Oliveira: Jornalista aposentada, autora do livro inédito Labirintos de Areia. Meus artigos [1]


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