Flexibilização do caráter
Escrito por Imprensa, postado em 19 dEurope/London fevereiro dEurope/London 2008
Monitor Mercantil de 18/02/08
Paulo Metri *
A flexibilização da linguagem caminhou junto com a flexibilização da moral e do caráter. Quando alguém quer fazer algo errado e amoral, nesse pouquíssimo admirável mundo novo, utiliza a flexibilização semântica para transfigurar o seu ato danoso. Por exemplo, neoliberais queriam acabar o monopólio estatal do petróleo, mas não podiam dizer isso abertamente, pois se tinha medo que a fala honesta trouxesse rejeições, em virtude do povo gostar do monopólio. Assim, a emenda constitucional no 9 e o projeto de lei do petróleo (hoje, lei 9478) foram aprovados, dizendo-se que flexibilizariam o monopólio, quando, na verdade, o acabavam.
Como não existe mulher meio grávida e não existe mais purgatório, só céu e inferno, não existe monopólio flexibilizado. Mas, o ministro Eros Grau, utilizando o “juridiquês” que o permite justificar qualquer coisa para os comuns, criou um raciocínio gongórico para dizer, salvo engano, até porque o “juridiquês” era muito violento, que existe um monopólio de atividades e outro dos produtos e, no caso do petróleo, a União detém o primeiro, podendo exercê-lo utilizando a contratação de empresas, mas o segundo não seria detido pela União. Mas, os professores de economia, que não têm a mesma flexibilidade, precisam explicar como, no Brasil, as atividades do setor do petróleo compõem um monopólio da União e, hoje, a Shell e a Petrobrás produzem e vedem petróleo brasileiro e, brevemente, teremos outras empresas fazendo o mesmo.
Se o povo queria o monopólio, tanto que eles tiveram que usar uma artimanha para poder acabá-lo, os representantes do povo não teriam que satisfazer a vontade popular? Flexibilizaram o entendimento do desejo popular ou os objetivos declarados dos seus mandatos?
Os senhores políticos, com exceções, têm flexibilizado, freqüentemente, suas colunas vertebrais, submetendo-se a posições vergonhosas, subalternas e humilhantes, esquecendo-se que, dessa forma, magoam e causam desesperança entre seus representados. E a troco de que? Nenhum dos políticos é louco masoquista, portanto, se assim agem, é porque uma explicação lógica existe, eventualmente, em um mundo de lógica flexível.
Como o sofá retirado da sala pelo pai controlador e sem o respeito da filha, vamos banir o vocábulo “flexibilizar” do nosso idioma, para, pelo menos, ouvirmos frases mais honestas, do tipo: “proponho acabarmos o monopólio”. Aliás, essa sugestão não irá funcionar, pois os possíveis eufemismos são inúmeros, como: “proponho afrouxarmos o monopólio”.
Mas, lembrem-se que, à medida que a Constituição é flexibilizada, seus salários, o mercado de trabalho e a qualidade de vida são enrijecidos. Quem fala enganando, não engana só na fala.
* Paulo Metri é diretor do Instituto Solidariedade Brasil











19 dEurope/London fevereiro, 2008 as 3:37 pm
Paulo,
até hoje não consigo entender o verdadeiro sentido da expressão “aparelhamento do Estado”, que os partidos de direita combatem. Na verdade, se analisarmos os países desenvolvidos são os que detêm o melhor “aparelho” estatal, eficiente em cobrar e em gastar. No caso do “desaparelhamento” brasileiro, deve se referir ao sucateamento ocorrido na década passada.
Aparelhamento já!!!
21 dEurope/London fevereiro, 2008 as 11:50 am
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