ENTREVISTA COM CIRO GOMES NA FOLHA : Lula e FHC se acomodaram com o patrimonialismo
Escrito por Imprensa, postado em 17 dEurope/London fevereiro dEurope/London 2008
Presidenciável diz faltar “projeto” a petista, admite voto em Aécio e critica Serra
KENNEDY ALENCAR DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
PRESIDENCIÁVEL DO campo governista mais forte nas pesquisas sobre a sucessão de 2010, Ciro Gomes, 50, diz que falta “projeto estratégico” a Luiz Inácio Lula da Silva, mas que “o Brasil melhorou” na gestão do petista. Ciro (PSB-CE) afirma que Lula e o antecessor, Fernando Henrique Cardoso (PSDB), contemporizaram com o patrimonialismo. “Tive uma conversa explícita com FHC, reclamando do excesso de concessões e da frouxidão moral a pretexto da sustentação no Congresso. Ele disse: “Você é muito jovem e um dia vai se sentar aqui. Verá que caiu o presidente que não contemporizou com o patrimonialismo”. Fiquei chocado. No governo Lula, vi um pouco de novo a mesma coisa.”
FOLHA – FHC estabilizou a economia e deu início a uma rede de proteção social. Lula manteve a estabilidade, ampliou os gastos com os mais pobres e lançou plano de investimentos em infra-estrutura que ainda é incógnita. Quais seriam as prioridades do próximo governo? CIRO GOMES – Discordo da formulação da pergunta. Houve uma lavagem cerebral no Brasil protagonizada pelo Fernando Henrique. O governo Itamar Franco fez a estabilização com a fundação do real. Itamar foi jogado na lata do lixo, como se tivesse sido um presidente exótico, quando foi uma passagem benfazeja pela Presidência.
FOLHA – FHC não teve méritos?
CIRO – Sem FHC não teria havido o real, como também sem o Itamar não teria havido. As pessoas acham que tenho animosidade particular. Nenhuma. Quando FHC tomou posse, havia uma dívida pública equivalente a cerca de 38% do PIB. Ele deixou essa relação em 58% do PIB. Explodiu a dívida, aumentou muito a carga tributária, deprimiu a taxa de investimento aos menores valores desde a 2ª Guerra Mundial e levou o país ao colapso, inclusive na caricatura trágica do apagão.
FOLHA – O governo dele tem saldo positivo na história?
CIRO – Ele pessoalmente tem. O governo é um desastre sem precedente na história.
FOLHA – Quais devem ser os próximos passos do país?
CIRO – Falta ao Brasil um projeto estratégico. Percebo avanços importantes, conceituais com Lula. Por isso, o apóio.
FOLHA – Falta ao governo Lula um projeto estratégico?
CIRO – Ao Brasil.
FOLHA – Ao Brasil ou a Lula?
CIRO – Ao Brasil e ao governo Lula, evidentemente. Temos um privilégio hoje: a intuição de Lula, o compromisso verdadeiro com a causa nacional, com a causa dos mais pobres. Esses dois valores, que parecem uma abstração, embrionam um conjunto de valores coerente com o projeto nacional com o qual sonho. O Brasil melhorou com Lula, mas há muita debilidade institucional.
Há dependência da vontade do Lula, da presença pessoal dele.
FOLHA – Resuma esse projeto.
CIRO – Construir com começo, meio e fim uma economia política que tenha algumas clarezas. A produção brasileira não dispõe, mesmo no melhor momento dos últimos 20 anos, de condições simétricas às do empreendedor global para competir no mundo e no Brasil. A taxa de juros é global? Não estou falando que devemos revogar o capitalismo. Mas não tem conversa, o Brasil não superará o hiato tecnológico sem intervenção direta do Estado. No macro, a meta estratégica é liderar um esforço de elevação do nível interno de poupança. No micro, recuperar o Estado nas suas funcionalidades vitais. Isso foi satanizado. Nossas estradas e nossos portos estão arrebentados. O Brasil tem uma das mais agudas concentrações de renda do mundo organizado. Vai se resolver pelo espontaneísmo das forças de mercado?
FOLHA – É possível formar uma maioria no Congresso para implementar esse projeto?
CIRO – Possível, sim. Vejo interlocução no PSDB e em parte do DEM, sendo eu do campo hostil a eles na política. Tive uma conversa explícita com FHC, reclamando do excesso de concessões e da frouxidão moral a pretexto da sustentação no Congresso. Lá pelas tantas, ele me disse: “Você é muito jovem e um dia vai se sentar aqui. Verá que caiu o presidente que não contemporizou com o patrimonialismo”. Ele usou essa expressão. Fiquei muito chocado. No governo Lula, vi um pouco de novo a mesma coisa. Me incomodei muito.
FOLHA – Lula também contemporizou com o patrimonialismo?
CIRO – É o que estou lhe dizendo. Não deveríamos aceitá-lo, deveríamos manter sempre disciplina crítica contra isso, mas devemos reconhecer que é um traço da realidade. Como atenuar? Governo vai ter sempre corrupção. Vai ter sempre oposição pedindo uma CPI com a perspectiva de desmoralizar o governo para obter efeitos eleitorais. Isso tudo é normal. Não acho normal isso dominar 100% as energias do país, especialmente da imprensa.
A responsável não é a imprensa. A responsabilidade é dos políticos. Porém, a imprensa ajuda ao espetacularizar o escândalo, ao novelizar o escândalo. Não estou dizendo que o escândalo não deva ser tratado. Deve ser tratado duramente, mas não pode monopolizar as atenções da sociedade brasileira se temos tais e tantas questões graves.
Advogo que o modelo tributário, o modelo previdenciário, o marco central de economia política e a questão da institucionalidade política devam ser temas que fiquem fora do mundanismo do dia-a-dia do governo governando e oposição oposicionando. Em certos momentos, é profundamente democrático e não significa enquadramento do Congresso, convocar a população para mediar determinadas questões, com plebiscitos e referendos.
FOLHA – Qual dos três pré-candidatos à presidência dos EUA seria melhor para o Brasil, os democratas Barack Obama e Hillary Clinton ou o republicano John McCain?
CIRO – Há contradição entre a minha simpatia e o que a tradição histórica demonstra. Para a economia brasileira, os republicanos têm sido menos hostis, um pouco menos protecionistas. O padrão de consumo que os EUA têm está matando o planeta. Uma lógica assentada no combustível fóssil e no automóvel não é sustentável. A idéia de uma ação unilateral de guerras preventivas choca-se com a busca de uma ordem mundial amparada na paz. Os dois democratas estão mais comprometidos com essa visão, melhor para o planeta. Não disfarço minha simpatia pelos dois, mas McCain é figura bastante interessante. A ultradireita americana, neopentecostal e belicista, está meio sem representação nessas eleições.
FOLHA – Tem simpatia por um?
CIRO – Tenho, mas não digo. Vá que eu me eleja um dia presidente, tenho de tratar com um deles com o maior respeito.
FOLHA – O sr. é favorável ao fim da reeleição e a um mandato presidencial de cinco anos?
CIRO – Seria melhor para o Brasil. Há tendência de abuso por quem está no poder.
FOLHA – Lula prega que a aliança dos partidos da base com candidatura única em 2010 seria mais eficaz para derrotar a oposição. Concorda?
CIRO – Concordo.
FOLHA – É viável uma coalizão com PT, PMDB e PSB?
CIRO – Muito improvável.
FOLHA – Serão lançados dois ou mais nomes do campo hoje lulista?
CIRO – Muito provável.
FOLHA – O sr. hoje é o nome do campo governista que está mais bem posicionado. Quais os critérios para definir os candidatos?
CIRO – Pesquisa hoje é muito mais uma forma de notoriedade do que voto sedimentado. Mesmo na data, quando pesquisa tem tendência mais reveladora, é um critério despolitizado. Os critérios devem ser quem tem mais clareza da tarefa que se impõe ao sucessor de Lula e quem é mais viável.
FOLHA – Admite ser vice?
CIRO – Admito ser qualquer coisa. Não fui ministro do Lula com a maior honra?
FOLHA – Na hipótese de Aécio Neves ingressar no PMDB e de o partido integrar uma coalizão governista em 2010 com apoio de Lula e do PT, ele poderia ser o cabeça de chapa?
CIRO – Aécio é uma das grandes e boas novidades que a democracia brasileira está produzindo. Falta a ele uma vivência nacional. Nada que o talento, o espírito público e o carisma dele não supram rapidamente. Votaria nele em uma certa circunstância tranqüilamente.
FOLHA – Comporia chapa com ele?
CIRO – Não é provável. Ele é do PSDB. Pertenço comovidamente ao arco de sustentação do governo Lula.
FOLHA – Se ele fosse para o PMDB?
CIRO – Não acredito.
FOLHA – No caso dos cartões corporativos, o governo diz que a oposição faz luta política. Já a oposição vê um novo escândalo de corrupção.
CIRO – É um tema vulgar, desagradável. Há erros que devem ser pesquisados pelos órgãos institucionais que já estão fazendo o seu trabalho. É um caso que terá menos peso na vida do país. É tão fortemente artificial que não vai colar. Não se acha todo dia um mensalão.
FOLHA – A oposição está tentando achar um mensalão?
CIRO – Claro. Setores da oposição adoram isso, porque simplifica o debate. O PSDB aqui na Câmara começou o debate da CPMF indo para a tribuna defender a contribuição, falando de coerência. E terminou o debate no Senado com o PSDB inteiro votando contra. Estão desarvorados, perdidos, num mato sem cachorro. Parte dos defeitos graves do governo Lula são similitudes com eles. Os tucanos dizem: vamos examinar os cartões. Então o governo diz: desde 1998. Acabou a CPI.
FOLHA – Por que o sr. não gosta de José Serra e vice-versa?
CIRO – É um homem de valor, porém sem escrúpulos. Eu era muito amigo dele. Quando eu governava o Ceará, ele era o cara de maior mérito na bancada do PSDB. Por excesso de méritos, porque ele é muito qualificado intelectualmente, ninguém tolerava a idéia de o Serra ser líder da bancada. Porque não conversava com ninguém, não cumprimentava ninguém. É arrogante, prepotente, só ele sabe a verdade. FHC vivia esculhambando o Serra. O esporte preferido de FHC ainda é falar mal do Serra na intimidade.
Outro dia soube que um jornal distribuído gratuitamente no metrô de São Paulo pôs lá entre aspas que eu achava que o Serra não gostava de pobre. E, se fosse negro e nordestino, pior. Resultado: processo.
FOLHA – O sr. disse isso?
CIRO – Que eu me lembre, não. Que ele não gosta de pobre, eu sei. Posso responder a 50 processos, mas isso é uma opinião política. Ele pode dizer: o Ciro é feio. Qual o problema? Nunca processei ele. Mas processa para me constranger, obrigar a contratar advogado, perder dinheiro, penhorar meu salário, como ele fez. Ele penhorou agora o meu salário, mas a Justiça mandou devolver. Passei um mês sem dinheiro para pagar as contas, porque só tenho essa fonte de renda.
FOLHA – Por que o sr. não tem boa relação com a imprensa, sobretudo a escrita?
CIRO – Minha relação é boa. Como acho que a imprensa presta grande serviço ao criticar, a imprensa também tem de ter tolerância ao ser criticada.
FOLHA – Quais suas críticas?
CIRO – Primeiro, é nepotista. Lamento, mas são cinco famílias que controlam a grande imprensa do país. Isso não quer dizer que não tenho apreço e respeito por pessoas dessas famílias. Muitos têm espírito público. Tenho saudade do sr. Frias [Octavio Frias de Oliveira, publisher da Folha, morto em 29 de abril do ano passado]. Eu ia almoçar com ele duas, três vezes por ano. Ele adorava minhas maluquices. Ele perguntava, eu respondia. Ríamos para caramba. Tenho respeito e boa relação com outras pessoas da imprensa, mas a imprensa brasileira não é neutra. É conservadora. Vamos tratar isso como? Mais imprensa, mais liberdade de imprensa.
FOLHA – Em 2002, o sr. chegou a liderar as pesquisas. Dois episódios simbólicos, quando chamou de burro um ouvinte de uma rádio e afirmou que a função de sua mulher, Patrícia Pillar, na campanha era dormir com o sr., foram determinantes para não ir ao segundo turno?
CIRO – Foram duas das maiores besteiras das muitas que eu já fiz na vida. Nenhuma delas alcançou um centavo do dinheiro público. Me arrependo muito, mas aprendi amargamente. Não me perdôo. Mereci a repulsa dos eleitores porque não é sintoma de bom presidente.
FOLHA – Considera-se preparado hoje para ser presidente?
CIRO – Estou muito mais maduro do que jamais estive.
FOLHA – Um temperamento difícil não é um obstáculo para chegar à Presidência e, uma vez lá, não poderá estimular crises?
CIRO – Pode ser. Já disse e vou repetir, agora com muita mais serenidade e moderação. Não quero vender a alma para ser presidente. Sou uma pessoa indignada e quero morrer assim.
FOLHA – O sr. falou que temperança é boa para um presidente.
CIRO – Mais do que boa, é necessária. Aprendi com Lula.
FOLHA – Terá temperança?
CIRO – Só o tempo vai dizer.











18 dEurope/London fevereiro, 2008 as 8:27 am
A afirmação de Ciro é coerente ao dizer que os dois “transigiram com o patrimonialismo”. Mas creio ser a questão mais complexa do que imaginamos. Essa questão de recompensa com cargos, suborno com cargos, agrados e recompensas com cargos, é algo errado, todos sabemos. Mas para um Presidente fugir disso é muito difícil.
É necessária uma ampla reforma política antes de iniciarmos certos debates no país, que, isoladamente não conseguiriam, por si só, fazer o país avançar.
Muito sensata a entrevista,
abraços,
18 dEurope/London fevereiro, 2008 as 2:24 pm
Eduardo,
eu não acredito nessa história propagandeada aos quatro ventos de que a “reforma política será a grande solução”.
Não é. democracia se faz com as regras (reforma política) mas depende muito também a estrutura social, econômica e de anseios da sociedade.
Acredito que a grande mudança na política se dá pelo desenvolvimento econômico e social. As regras sempre podem ser burladas, mas quando a sociedade quer algo, não são as regras que vão impedir.
O Brasil (a maioria) precisar querer SER e acredidar capaz de ser um país justo, democrático e rico.
basta isso. Nesse processo, a reforma política é fundamental, mas é apenas uma das muitas coisas necessárias. não é o “remédio para todos os males”, como dizem por aí.
primeiro precisamos querer e acreditar.
abraços,
Gustavo
18 dEurope/London fevereiro, 2008 as 4:27 pm
Concordo com o Gustavo. Não podemos aceitar que a reforma política é a panacéia que nos retirará do atraso socioeconômico. Ainda mais se a mesma depender de quem se beneficia das atuais regras do jogo… Creio que devemos ter uma visão realista da política brasileira.
Em ‘Political parties’, um clássico da sociologia política, Robert Michels destaca a tendência oligárquica da concentração de poderes nos partidos. Uma minoria decide de fato o que realmente importa. Michels sinalizava já nos primeiros quinze anos do século XX que esse fenômeno iria desencadear conseqüências sociopolíticas perigosas para os sistemas democráticos.
Os partidos são importantes filtros de demandas da sociedade. No entanto, precisamos prestar atenção ao que José Murilo de Carvalho chama de “falsificação das vontades” (Cf. ‘Cidadania no Brasil’. 9.ed. Civilização Brasileira, 2007). Em uma sociedade tão desnivelada como a brasileira, o poder econômico é uma constantemente ameaça à democracia política.
Por que não se discute uma reforma do sistema financeiro nacional? Com uma das mais baixas relações crédito privado/PIB, o Brasil teria muito a ganhar com esse debate. Poderíamos começar adicionando que para cada real direcionado ao programa bolsa família, em 2007, o governo federal deslocou pouco mais de R$16 para quem vive de juros e amortizações da dívida pública. Uma baita diferença de escala no número de beneficiados pelo gasto público.
Além disso, o modus operandi vigente no BC brasileiro é de viés contracionista e, portanto, oponente dos necessários investimentos públicos.
Um abraço,
Rodrigo L. Medeiros
18 dEurope/London fevereiro, 2008 as 4:39 pm
Boa idéia!
18 dEurope/London fevereiro, 2008 as 7:17 pm
Concordo com vocês,
quando falei em reforma política, não quis dizer que ela seria a solução para tudo. Ela deve ser casada com uma lógica de refrma tributária, previdenciária, para fazer o país em conjunto progredir. Apenas entendo que não adianta se atacar certas questões sem obter a real percepção do que se necessita. O pais passou pelo mensalão, todo mundo dizia sobre a necessidade da reforma política. Nada foi feito. Agora foi a CPMF, reforma tributária alardeada, nada foi feito.
Essa destruição do Estado promovida pelo neoliberalismo foi também ideológica, no que se referiu você Gustavo. Nós tivemos grandes festas e esperanças no povo com a redemocratização, mas com o fracasso do governo Collor e FHC, caímos novamente na desesperança. E a esperança não pode morrer.
Vocês viram a entrevista do Mangabeira na TV Senado? O governo precisava de mais gente comn aquela cabeça. Ele falou até sobre essa questão, Gustavo, de resgatar confiança nacional; desenvolver um projeto estratégico para o país; disse que apresentará em breve ao presidente uma proposta de reforma política, etc, enfim, foi muito interessante.
Abraços,
18 dEurope/London fevereiro, 2008 as 8:10 pm
Eduardo,
é exatamente isso que estou dizendo, precisamos de esperança, mas esperança ainda é pouco, precisamos de crença, de fé em nós mesmos.
O resto a gente faz.
sem isso, dá no que deu, Reforma política só para boi dormir.
abraços,
Gustavo