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Efeitos da crise sobre o câmbio
Posted By Imprensa On 4 fevereiro, 2008 @ 8:00 pm In O que deu na Imprensa,Política Econômica,Propostas de Mudanças para o Banco Central | No Comments
VALOR – 01/02/2008
Efeitos da crise sobre o câmbio
Claudia Safatle é diretora adjunta de Redação e escreve às sextas-feiras
Apesar das incertezas quanto à extensão e profundidade da crise externa, o governo trabalha com três cenários sobre seus possíveis impactos na taxa de câmbio:
1) Crise aguda – Esta seria resultante da combinação de recessão da economia americana e mundial com uma brutal aversão ao risco, suficiente para secar os fluxos de capitais para o país. As exportações brasileiras teriam forte desaceleração, as importações continuariam elevadas por causa do crescimento doméstico e o saldo comercial teria queda abrupta. Nesse caso, considerado improvável pelos economistas oficiais, haveria uma desvalorização de algo entre 10% e 15% na taxa de câmbio e alguma pressão sobre a taxa de inflação. O dólar iria para algo entre R$ 2,10 e R$ 2,15. A meta de inflação de 4,5% com margem de tolerância de dois pontos percentuais, porém, seria suficiente para acomodar esse “choque”;
2) Desaceleração – Os Estados Unidos não entrariam em recessão. A economia americana cresceria 1% este ano e os preços das commodities ficariam mais ou menos estáveis. A redução dos juros nos EUA, acompanhada da paralisação da queda da Selic aqui, ampliaria o diferencial de taxas, o que aumentaria as operações de arbitragem. Nesse ínterim, o Brasil viraria grau de investimento, mais dólares entrariam na economia brasileira neste e nos próximos anos e a taxa média de câmbio teria maior valorização, indo para a casa de R$ 1,60 ou menos, derrubando a inflação. A essa taxa de câmbio, o saldo comercial iria minguar.
3) Cenário quase neutro – O impacto da crise sobre a taxa de câmbio seria neutro. Nessa hipótese, mantêm-se as projeções para as contas externas em linha com o que o Banco Central calcula, com um leve déficit em conta corrente, plenamente financiado pelo ingresso de investimentos diretos. Nesse caso, a taxa média de câmbio se manteria no intervalo de R$ 1,70 e R$ 1,75, com uma valorização sobre a taxa média de R$ 1,95 registrada no ano passado. Não haveria recessão na economia americana e o impacto da crise sobre o comportamento da balança comercial dependeria da magnitude da desaceleração da economia internacional, mas não seria muito diferente das projeções oficiais, que indicam redução do superávit comercial para US$ 30 bilhões.
Do comportamento da taxa de câmbio dependerá o enfrentamento do governo a pelo menos dois problemas: inflação e balança comercial. O secretário de Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa, chama a atenção para o fato de que todos os analistas prevêem um impacto pequeno nas exportações brasileiras, no caso de uma desaceleração da economia mundial. Isso se explica, disse, “porque as exportações já desaceleraram”.
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“A restrição externa é dinâmica”, diz Barbosa
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Ele alerta para o fato de as exportações estarem crescendo a taxa bem inferior ao crescimento das importações. “A restrição externa pode aumentar ou diminuir, mas não vai embora. Ela é dinâmica. E a restrição externa é essa: pode-se ter déficit ou superávit em conta corrente, mas não se pode ter por tempo indefinido uma diferença grande entre a taxa de crescimento das importações e exportações. No longo prazo, o que dá a taxa de crescimento das importações é a taxa de crescimento das exportações”, explica.
Nos cálculos dos técnicos da área econômica, se a economia americana crescer algo como 1% este ano, as exportações brasileiras cresceriam 3% e as importações, 15%. A hipótese mais otimista, que conta com uma desaceleração leve da economia mundial, é que as exportações cresçam 6% e as importações, 20%. Essas expectativas são ligeiramente distintas das do Banco Central, que prevê 6,6% de aumento das exportações e de 22,4% para as importações.
Para os economistas liberais, isso não é um problema, avalia Barbosa. “Para eles pode-se ficar com déficit em transações correntes por muito tempo, com importações crescendo mais do que as exportações, que o mundo vai nos financiar. O aumento da competição vai eliminar os fracos, os fortes vão sobreviver e a produtividade da economia vai aumentar”. A visão da qual ele compartilha, porém, não é essa. “A outra visão é que vamos ter que lidar com isso, seja via medidas tributárias ou ajuste cambial gradual.”
O dilema, segundo ele, se coloca para 2009 e 2010, porque “para este ano temos claramente chance de ter financiamento externo que evitará um ajuste cambial mais forte”. Agora, um cenário externo adverso pode antecipar isso, e a grande questão é como fazer as exportações retomarem uma trajetória mais robusta de crescimento.
“Acho que vamos ter que atuar em todas as frentes – redução de custos com redução de impostos, melhor infra-estrutura logística – e não só no câmbio. Mas sem o câmbio, também, não será suficiente.” Barbosa lembra que o governo estava preparando uma grande desoneração de impostos sobre bens de exportação, mas a derrubada da CPMF adiou esse projeto para 2009, se a arrecadação de impostos permitir.
Dados elaborados pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) mostram que a deterioração das contas de comércio de bens industriais em 2007 foi enorme. O setor teve, em 2005, superávit comercial de US$ 9,9 bilhões, que caiu para US$ 5,9 bilhões em 2006 e registrou, em 2007, déficit de US$ 7,8 bilhões, voltando aos padrões do ano 2000. O Iedi fala do risco de a economia brasileira especializar-se (na exportação de commodities). O secretário do Ministério da Fazenda não vislumbra consequências dessa natureza, por enquanto. “Para termos a especialização perversa, o desequilíbrio tem que ser mais prolongado. O tamanho da economia brasileira, o mercado interno, impede isso e nos dá tempo para fazer o ajuste”.
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[2] ? A questão dos impostos e juros: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/07/a-questao-dos-impostos-e-juros/
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[4] ? O que é política de pleno emprego?: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/07/o-que-e-politica-de-pleno-emprego/
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