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DEFENDER CONTROLE DE CAPITAIS É FUMAÇA que ajuda a FUGA do debate pelo MEIRELLES e seus JUROS extremamente ALTOS

Posted By Gustavo On 26 fevereiro, 2008 @ 1:59 am In Desenvolvimento,Gustavo Santos,O controle de capitais é imprescindível para devolver,Política Brasileira,Política Econômica | 11 Comments

Gustavo Antônio Galvão dos Santos * (agradeço ao Jonatas pela inspiração e provoco o Léo como motivação)

Nas Universidades de economia há uma enorme preocupação sobre se deve ou não haver controles de capitais. Eu não tenho nada contra esses controles. Mas a discussão sobre regulação de capitais nesse momento é dispersiva e inútil. Isso é debate acadêmico irrelevante politicamente para o momento atual, pois ninguém dá trela, ninguém que tem poder quer e o país não precisa.
A única discussão política útil hoje que interessa sobre a movimentação de dólares  é: os juros precisam cair muito e muito rapidamente!! (clique aqui para ler sobre isso) [1]

O país precisa, todo mundo discute isso no ambiente político e jornalístico, a maior parte do empresariado quer e expressa isso de forma contundente e para os trabalhadores e para o governo é ótimo!

O setor financeiro é contra, parte do PSDB é contra, o DEM é contra. Todo mundo sabe. Mas não me interessa discutir sobre os motivos da taxa de juros brasileiras serem inacreditavelmente altas. Tratei sobre essa questão aqui (clique para ler) [2].  Me interessa entender porque os economistas progressistas são tão tímidos em gritar que as taxas devem cair.

Tenho uma hipótese: A maioria desses economistas se comprometeu durante os 8 anos do governo FHC a defender que a única maneira de reduzir os juros era fazendo controles de capitais. Esses economistas lêem menos jornal do que papers (artigos) científicos estrangeiros que foram escritos há alguns anos atrás e utilizaram dados ainda mais antigos. Ou seja, (1) esses economistas estão comprometidos em ser coerentes com os anos que defendiam o controle de capitais e (2) ainda não caiu totalmente a ficha de que esses controles não são necessários no momento atual.

Assim, continuam defendendo que os controles são imprescindíveis, por rigidez disfarçada de coerência e desinformação associada à falta de segurança alcançável só com o respaldo de um autor internacional.

O máximo de concessão que muitos fazem à nova realidade de excesso de liquidez internacional é dizer que os controles agora são necessários para evitar que se entrem dólares demais. Parece piada. Usam o motivo inverso para defender a mesma política… Haja teimosia.

 Não quero dizer que a discussão sobre controles não tem importância, quero dizer apenas que a importância dela é mil vezes menor hoje para a política brasileira e o futuro do país do que a discussão de se devemos reduzir fortemente os juros ou não. Apesar disso, na academia heterodoxa ocorre o inverso, poucos discutem sobre juros e muitos discutem sobre controles de capitais. Na minha opinião, esse desvio de prioridades beira o desvario às vezes. Principalmente pelo fato de defenderem os controles porque pode sair muito capital e porque pode entrar muito capital.
Bem, aí eu pergunto: a entrada de capitais está excessiva ou não? Se sim, qual é o risco de reduzir os juros?
O risco é a entrada deixe de ser excessiva!

Eu digo: Ora, mas isso é ótimo!
E se os juros ficarem tão baixos e saírem mais dólares do que entram?
Melhor ainda!!
Nesse caso o dólar vai se valorizar e a indústria brasileira voltará a ter competitividade externa e poderemos crescer acima de 7% graças ao crescimento das exportações e ao aumento do consumo e do investimento induzidos direta ou indiretamente pela queda dos juros.
E se o dólar desvalorizar demais, gerará inflação?
Um pouco, claro, mas será facilmente controlável, porque com 200 bilhões de reserva e exportações crescente o governo pode dar o TETO que quiser para a taxa de câmbio e, portanto, definirá a taxa de inflação máxima que aceita por nível de crescimento desejado.

O problema desse câmbio tão flutuante (poucos ou nenhum câmbio está tão flutuante quanto o nosso) é que a valorização do câmbio melhora pouco a inflação, mas a desvalorização piora mais sensivelmente a inflação (como dizem os economistas: os preços são rígidos à queda mas não tanto à subida). Entretanto, o efeito sobre a competitividade externa é similar. Por isso, um câmbio muito flutuante gera mais inflação, dada a competitividade externa média desejada, ou menos competitividade, dada a taxa de inflação desejada.
O melhor é o governo definir o câmbio que for considerado melhor para o país: competitivo e estável. Assim poderemos ter exportações crescentes e inflação baixa. como em toda a Ásia.
Mas o problema da maior parte dos economistas heterodoxos, e aí eu incluo o Léo Nunes, é que estão mais preocupados em defender o controle de capitais do que o crescimento econômico.
Aí fazem mil malabarismos para explicar o inexplicável: que o Brasil precisa indubitavelmente de controle de capitais hoje.
Isso é certamente falso.
O engraçado é que eles têm a cara de pau de dizer que precisamos de controle de capitais para impedir a valorização do câmbio porque está entrando muito capital e ao mesmo tempo acham que sem controle de capitais não se pode reduzir a taxa de juros porque sairiam muito capitais. O Meirelles adora essa argumentação confusa. Com ela as pessoas esquecem de ver a definição de juros como decisão unilateral de governo, mesmo sem controles…

Ora, matematicamente, entre um valor excessivamente alto e um valor excessivamente negativo, existe um espectro gigantesco! Em todo esse espectro, há espaço para redução da taxa de juros, mesmo porque temos interesse que haja uma saída líquida de capitais para favorecer a desvalorização do câmbio.
Ou seja, o controle de capitais é desnecessário para voltarmos a crescer muito e rapidamente! Isso sem falar no fato de que o crescimento econômico atrai muito capital externo para investimento direto que geralmente não está particularmente interessado em juros altos (por definição, pois estou me referindo ao capital que é atraído pelo crescimento).
Se o controle de capitais é desnecessário, só seria útil defender isso, se fosse uma medida fácil de ser implantada. Porém a resistência política a ela hoje e nos próximos 3 anos, ao menos, é intransponível. Ou seja, se os próximos três, ao menos, tem alguma importância, temos que discutir como derrubar os juros e ou o Meirelles e não o sexo dos anjos.
* Gustavo Antônio Galvão dos Santos: Mineiro de BH. Economista pela UFMG e mestre e doutor pelo Instituto de Economia da UFRJ. Meus artigos [3]


11 Comments (Open | Close)

11 Comments To "DEFENDER CONTROLE DE CAPITAIS É FUMAÇA que ajuda a FUGA do debate pelo MEIRELLES e seus JUROS extremamente ALTOS"

#1 Comment By Ricardo Summa On 26 fevereiro, 2008 @ 9:48 am

Gustavo, é isso mesmo.
Continuo dizendo que, com o diferencial de juros aumentado, a tendência do dolar é se valorizar, sem nenhum “piso psicológico” como dizem os “economistas genéricos da globonews”. O FED deve cortar de novo a sua taxa básica, e por aqui não há sinais de mudança, a não ser para cima.
Vai chegar um momento que a taxa de câmbio vai se tornar tão politicamente inviável que aqueles que se beneficiam das altas taxas de juros vão começar a propor controle de capitais (na entrada).

Abs
Summa

#2 Comment By Heldo Siqueira On 26 fevereiro, 2008 @ 10:04 am

Gustavo,

acredito que exista uma agenda de política econômica, que funcionaria, mais ou menos, como um plano estratégico. O primeiro passo, e fundamental, é recuperar a capacidade do Estado brasileiro de investir (na infra-estrutura, na reestruturação da regulação, na segurança), pq o outro Governo simplesmente acabou com a estrutura estatal! E os juros são o gasto mais inútil e caro das nossas despesas correntes.

Em outro momento, devemos discutir a estrutura tributária. Mas é claro, depois que tivermos acabado com essa loucura dos juros altos. Se discutirmos uma reforma tributária agora, teríamos que criar uma estrutura tributária para fazer face à essas despesas correntes malucas.

E acho que a última discussão seria a forma de atrair capitais externos. As regras e a verdadeira necessidade.

Mas falar de fora é fácil. Difícil é depois de sentar na cadeira lá, ter espaço pra fazer isso sem um montão de gente com “soluções de mercado”…

Abraços
Heldo Siqueira

#3 Comment By Rodrigo Loureiro Medeiros On 26 fevereiro, 2008 @ 11:21 am

Caro Gustavo

Reinaldo Gonçalves defende em ‘Economia política internacional’ (Elsevier, 2005) uma agência reguladora do capital estrangeiro no Brasil. Segundo esse competente economista, há evidências de “transferências de preços” que impactam negativamente no nosso balanço de pagamentos: assistências técnicas e serviços de consultoria, por exemplo.

Concordo contigo quanto à cortina de fumaça do controle de capitais, na saída ou na entrada. Há margens para que a Selic caia. Com isso, as grandes urgências nacionais, como é o caso das obras em infra-estrutura, poderiam ser atacadas. Até mesmo o PAC poderia gerar efeitos multiplicadores na economia. Segundo dados do relatório de mercado do BC brasileiro, os crescimentos econômicos de 2008 e 2009 serão menores do que o ocorrido em 2007, 5,2%.

Bom, os elevados spreads cobrados pelo concentrado sistema financeiro instalado no Brasil também poderiam cair. Pelo menos os bancos teriam que buscar outras aplicações além dos títulos públicos. Afinal, o capitalismo progressista se faz com risco assumido na forma de investimentos pelos agentes privados.

O Estado nacional pode ajudar, seja indiretamente como construtor das condições institucionais para o processo de desenvolvimento sustentado ou mesmo como agente direto dos investimentos.

Segundo John K. Galbraith: “Examinada de forma séria, a propalada divisão entre os setores público e privado não faz sentido. Não é realidade, é retórica. Uma grande parte, vital e cada vez maior do que é chamado de setor público está, para todos os efeitos práticos, no setor privado” (‘A economia das fraudes inocentes’. Companhia das Letras, 2004. p.52).

A cartilha do pleno emprego encontra-se postada neste blog: “Momento Nacional”.

Um abraço,

Rodrigo L. Medeiros

#4 Comment By Ricardo Summa On 26 fevereiro, 2008 @ 11:56 am

Desculpe o erro, o certo é: o real vai se valorizar.

#5 Comment By Bruno On 26 fevereiro, 2008 @ 2:36 pm

Fazer afirmação dessa sem dados é contra produtivo qualquer The Economist tem a taxa de juros dos países emergentes. E com uma trabalhinho um pouquinho maior se pega no FM as taxas de câmbio dos países e se vê que o Brasil foi o que de longe se mais valoriou. Não há qualquer motivo (inflação, saldo em conta corrente, déficit e dívida pública, crescimento, risco de desvalorização, etc.) para o Brasil ter a maior taxa de juros do mundo. Se a regra dos países emergentes é ter taxa de juros real entre 2% e 3% e não é regra ter controles de capitais como o Reinaldo Gonçalves pede, me parece que é dispensável. Mas, para entrar numa discussão tem que por dados.

#6 Comment By Gustavo dos Santos (meus artigos clique) On 26 fevereiro, 2008 @ 2:42 pm

Summa,
é isso! Mas o pessoal já está pedindo controle de capitais na entrada há muito tempo!
parece que essa é agora a única maneira de manter os juros estupidamente altos, porque a acumulação de reservas está fazendo a dívida pública crescer muito (o que chama muita atenção negativa entre os próprios ortodoxos) e a valorização do câmbio está destruindo muitos setores produtivos e trazendo muita reclamação.
a esperança do Meirelles era a crise americana, que não está se confirmando. Agora, eles vão pedir controle de capitais na entrada, com aplausos de economistas “progressistas” desatualizados…
Bruno,
a qual afirmação sem dados que vc está se referindo?

#7 Comment By Rodrigo Loureiro Medeiros On 26 fevereiro, 2008 @ 5:25 pm

[4]

#8 Comment By Jonatas Mendonça On 26 fevereiro, 2008 @ 9:47 pm

Prezado Gustavo,

Obrigado pela menção honrosa!! Que nunca nos falte inspiração…
Ainda estou “digerindo” o artigo e as respostas…
É preciso refletir um pouco…

Abraços a todos,

Jonatas

#9 Comment By Gustavo dos Santos (meus artigos clique) On 27 fevereiro, 2008 @ 12:43 am

Obrigado a todos que comentaram.
Summa,
concordo com vc e essa hora em que as pessoas começam a pedir controle de capitais na entrada já está começando a chegar.
Heldo,
concordo com tudo!
Bruno,
não acho que coloquei alguma informação que seja duvidosa. Mas concordo que para o leitor é importante colocar as informações, pois ele pode não conhecer ou não concordar. Coloquei as informações que você encaminhou. Acredito que seja suficiente.
Rodrigo,
concordo com tudo. Sou totalmente favorável à criação dessa agência que o Reinaldo Gonçalves está sugerindo! Mas essa é uma discussão de mais longo prazo, parte da academia, a sociedade e o sistema de poder precisam ser convencidos da proposta. Todavia, os juros e o câmbio estão extremamente equivocados eles demandam uma solução URGENTE. E esse é meu ponto principal, reduzir os juros é uma questão de URGÊNCIA.
Jonatas,
obrigado pelo comentário! Ficarei muito feliz em saber que vc continuará lendo e comentando em nosso blog.
abraços a todos

#10 Comment By Rodrigo Loureiro Medeiros On 27 fevereiro, 2008 @ 9:22 am

[5]
[6]

#11 Comment By Gustavo On 28 fevereiro, 2008 @ 3:39 pm

Neoliberalismo como instrumento ideológico do imperialismo americano:
[7]


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[1] (clique aqui para ler sobre isso): http://desempregozero.org/2008/02/26/contribuicao-dos-leitores-os-maiores-juros-reais-do-mundo/

[2] aqui (clique para ler): http://criticaeconomica.wordpress.com/2007/10/11/por-que-o-brasil-nao-cresce-porque-o-meirelles-ainda-nao-e-presidente/

[3] Meus artigos: http://desempregozero.org/category/todos-nossos-autores/gustavo-santos/

[4] : http://desempregozero.org/2008/02/26/financial-hypocrisy-by-joseph-e-stiglitz/

[5] : http://desempregozero.org/2008/02/27/i-encontro-internacional-da-associacao-keynesiana-brasileira-2/

[6] : http://desempregozero.org/2008/02/27/precos-altos-escondem-perdas-nas-exportacoes/

[7] : http://desempregozero.org/2008/02/01/o-monroe-e-o-garrincha/

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