DE MÃO BEIJADA
Escrito por NOSSOS AUTORES, postado em 2 dEurope/London fevereiro dEurope/London 2008
Publicado no Jornal do Commercio de 29/01/08)
Sergio Ferolla, brigadeiro, membro da Academia Nacional de Engenharia
Paulo Metri, conselheiro do Clube de Engenharia
Alan Greenspan, o ex-presidente do Banco Central Americano, afirmou em seu
recém lançado livro de memórias: “Entristece-me que seja politicamente
inconveniente reconhecer o que todos sabem, que a guerra no Iraque é,
sobretudo, por causa do petróleo”. Dessa forma, os EUA e seus aliados,
dentre eles a Inglaterra, objetivavam não só garantir o suprimento do
petróleo a partir daquele país, como tornar mais seguros os fornecimentos
da Arábia Saudita e de outros países árabes.
No artigo “It’s the Oil”, do London Review of Books, Jim Holt afirma que o
Iraque é a menos explorada das nações ricas em petróleo do mundo e tem 115
bilhões de barris de reservas, podendo, como estimado pelo “Council on
Foreign Relations”, ter mais 220 bilhões de barris não descobertos. Ele
continua dizendo que o valor do petróleo do Iraque, em grande parte leve e
com baixo custo de produção, seria da ordem de US$ 30 trilhões, aos preços
de hoje. E conclui que, para efeito de comparação, o custo total projetado
da invasão e ocupação dos EUA é de cerca de US$ 1 trilhão, significando
que, em termos de realpolitik, a invasão do Iraque não é um fiasco e, sim,
um retumbante sucesso.
Os EUA e a Rússia travam acirrada disputa na busca de alianças com países
produtores de petróleo ou que estejam na rota de seu escoamento. Depois do
término da União Soviética, alianças no Cáucaso e na Ásia Central, regiões
ricas em petróleo, com países desse antigo bloco, foram disputadas através
de compensações comerciais e financeiras, ações diplomáticas, apelos a
estratégias comuns e coerção militar. Hoje, os EUA têm alianças com a
Geórgia, a Ucrânia e a Moldávia e dominam, militarmente, o Afeganistão. A
Rússia tem conseguido atrair para sua área de influência o Cazaquistão, a
Bielo-Rússia, o Tadjiquistão, o Quirguistão, o Uzbequistão, o Turcomenistão
e a Armênia.
O corte de fornecimento de gás natural da Rússia a países da Europa
ocidental em 2007, a pretexto de renegociar o preço do gás fornecido à
Ucrânia, pode significar a intenção de lembrar a esse país e a toda Europa
ocidental que não é possível esse antigo país satélite da União Soviética
tornar-se um fervoroso aliado dos EUA. Nicolas Sarkozy, nas suas primeiras
viagens, como presidente francês, foi à Líbia, Argélia, Arábia Saudita,
Emirados Árabes, Catar e Egito, para buscar garantir o suprimento de
petróleo para a França, dentre outros objetivos, e a Alemanha, ao articular
recente aproximação com a Rússia, também visou assegurar o suprimento
futuro de óleo.
“O nacionalismo de recursos trata-se de uma decisão estratégica de países
com recursos energéticos para usá-los em seu próprio desenvolvimento, em
vez de otimizar as receitas das empresas”, afirma Roger Tissot, analista do
mercado de petróleo da PFC Energy. Robert Samuelson, no artigo “Geopolitics
at $100 a Barrel” no Washington Post de 14/11/07, diz que: “O barril a US$
100 sugere uma nova era geopolítica quando a energia cara serve como uma
arma política. Os produtores a usarão para facilitar as agendas nacionais e
os consumidores buscarão tratamento preferencial. Nós já vemos isso no
desconto do petróleo venezuelano de Hugo Chávez para aliados prioritários e
os esforços frenéticos da China para assegurar suprimento garantido.”
Enquanto tudo isso ocorre no mundo, no Brasil, o MME e a ANP entregam o
petróleo nacional para empresas estrangeiras, que irão exportá-lo, através
de contratos de 30 anos de duração, obtidos nas rodadas de leilões. Além do
mais, pagam poucos impostos e taxas, quando comparados aos de outros
países, compram poucos bens e serviços no Brasil, enfim, trazem poucos
benefícios para a sociedade brasileira. Precisamos aprender com os
poderosos a dar mais atenção ao patrimônio nacional e, com visão
estratégica, vislumbrando horizontes de longo prazo, impedirmos que o nosso
valioso petróleo continue a ser entregue de mão beijada.










