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Cristovam Buarque : ” O Brasil está ameaçado pela “invasão” de um exército de 72 milhões de adultos.

Posted By Imprensa On 4 fevereiro, 2008 @ 12:00 pm In O que deu na Imprensa,Política Brasileira | 1 Comment

País Ameaçado
Artigo publicado na Folha de S. Paulo, no dia 31/01/2008
Cristovam Buarque *

O Brasil está ameaçado pela “invasão” de um exército de 72
milhões de adultos. São os eleitores sem o ensino fundamental
completo. Adultos que aqui nasceram e, sem nenhuma culpa, serão
agentes da desagregação nacional nas próximas décadas. Por causa
dessa “invasão”, dentro de 30 anos estaremos ainda mais
mergulhados na violência, na corrupção, na baixa produtividade,
na falta de capacidade para criar capital/conhecimento, nas
desigualdades social e regional.

Não foi a Abin, nem as Forças Armadas, nem a Polícia Federal que
identificou a ameaçadora “invasão” que o Brasil sofre: foi o TSE,
ao mostrar que são 104 milhões os eleitores sem o ensino médio
completo, dos quais 28,8 milhões são analfabetos ou apenas sabem
ler e 72 milhões não concluíram o ensino fundamental.
E esses dados não mostram que raros dos que concluíram o ensino
médio tiveram cursos com a qualidade que os tempos atuais exigem,
para a pessoa e o país. Mesmo que os dados não sejam exatos (são
do momento do cadastramento do eleitor, sem estudos continuados
posteriores), eles confirmam uma realidade conhecida.

Se algum país quisesse dominar o Brasil no século 21, não teria
estratégia melhor do que abandonar a educação de nosso povo, como
nossos próprios dirigentes fizeram ao longo de décadas. Nas
próximas, essa situação vai trazer conseqüências catastróficas
para o país.

Na democracia: o eleitor sabe votar corretamente,
independentemente do grau de instrução, mas, sem educação, não
tem alternativas de emprego ou renda, precisa de soluções
imediatas para seus problemas. Em vez de votar em um candidato
que propõe mudar o quadro futuro da saúde, vota naquele que lhe
oferece uma caixa com o remédio para resolver sua doença atual. É
um voto inteligente, mas que leva à fragilidade da democracia e
ao aumento da corrupção.

Corrupção: a eleição democrática por um eleitorado sem
alternativa induz à compra e à venda de votos, daí ao
descompromisso do eleito com o eleitor e ao uso do cargo em
benefício próprio. O eleitor não tem qualificação e perde o
direito de cobrar do seu representante.

Economia: não há futuro para a economia sem mão-de-obra altamente
qualificada, com trabalhadores preparados para usar instrumentos
modernos. Também não há futuro para a economia que não é capaz de
criar capital-conhecimento. Se toda a população jovem não estiver
bem educada para fornecer quadros competentes às universidades,
estas não desenvolverão o capital-conhecimento com base na
ciência e nas técnicas de nível superior que o mundo moderno
exige.

Emprego: a economia está trocando operários por operadores. Em
vez de formar um operário com um simples curso, é preciso formar
um operador de ferramentas inteligente, usando computadores. Isso
exige um bom segundo grau completo, idiomas estrangeiros,
inclusão digital.

Segurança: é possível que a maldade seja uma característica mais
comum entre os educados do que entre os iletrados. Mas, sem
alternativas de emprego, estes últimos ficam sem renda para
sobreviver e mais facilmente caem na tentação de pequenos crimes
- se ficarem impunes, terão incentivo à criminalidade; se forem
presos, cairão nas universidades do crime que são as cadeias.

Desigualdade: os dados do TSE não mostram a desigualdade entre o
nível de educação do eleitor pobre e o do eleitor rico, mas
mostra a desigualdade regional no acesso à educação. O aumento da
desigualdade entre as pessoas e entre as regiões será uma das
conseqüências previsíveis dos dados divulgados. Alguns conseguem
educar-se, têm alternativas, empregos, renda. Outros ficam
excluídos.

O pior é que os educados não despertam para os riscos que o país
corre. Uma parte nem deseja mudanças, outra defende o voto dos
analfabetos sem defender a erradicação do analfabetismo; defende
que o capital do patrão deve passar às mãos dos trabalhadores,
mas não defende que a escola do filho do operário seja tão boa
quanto a escola do filho do patrão, como venho defendendo. O
governo Lula continua essa tradição da esquerda generosa, mas não
transformadora.

Aos eleitores sem alternativas por falta de educação devemos
perdoar suas opções eleitorais, aos eleitores educados não há
perdão pela imoral tolerância com a mãe de todos os problemas: o
abandono da educação.

Talvez a “CPI do Apagão Educacional” que o presidente do Senado,
Garibaldi Alves, se comprometeu a implantar neste primeiro
semestre possa servir para acordar o Brasil do risco que nos
ameaça.

* Professor da Universidade de Brasília, senador pelo PDT / DF.

Jornal do Commercio

Região em Risco
Artigo publicado no Jornal do Commercio, no dia 25/01/2008
Cristovam Buarque *
www.cristovam.org.br [1]

O Tribunal Superior Eleitoral prestou um grande serviço ao
Brasil, especialmente ao Nordeste, ao divulgar a análise do nível
educacional dos eleitores brasileiros. Mesmo que os dados não
sejam exatos, já que se referem ao momento do cadastramento do
eleitor, sem necessariamente captar estudos continuados
posteriormente, eles confirmam uma realidade conhecida. Os dados
são assustadores, e mostram os riscos que enfrenta o Brasil.

Com os milhões de adultos sem Ensino Médio completo, o Brasil não
conseguirá dinamizar sua economia, porque este é o tempo da
economia baseada no conhecimento. Estamos deixando para trás o
potencial intelectual da nossa população adulta. Não vamos criar
emprego, porque emprego exige qualificação; não vamos fortalecer
nossa democracia, porque, sem qualificação, os eleitores têm
ficam reféns de suas necessidades, forçados a dar o voto em troca
de um remédio, de uma camisa. E a conseqüência é a corrupção do
eleito sem compromisso, porque já pagou pelo voto recebido.

O Brasil é um país ameaçado e sem futuro, se não fizer uma
revolução na educação.

O mais grave nos dados do TSE, porém, é a perspectiva de aumento
da desigualdade entre pessoas e regiões. Eles mostram um Brasil
dividido entre uma minoria educada e a maioria sem educação. Os
primeiros terão várias opções, seus filhos serão ainda mais bem
educados, e a desigualdade vai se ampliar.

O Sudeste tem 19,8% de eleitores que declaram ter completado
Ensino Médio, uma taxa baixa para uma região rica. Mas no
Nordeste, apenas 8,25% declaram ter concluído o mesmo nível. Não
é difícil imaginar o que vai acontecer no futuro, uma taxa tão
catastrófica. O Nordeste se distanciará cada vez mais na
capacidade de competir, de assegurar qualidade de vida, dinamizar
a economia, e de reduzir a desigualdade social dentro da região.

Lamentavelmente, os dados do TSE não despertarão a opinião
pública. A imensa maioria – os eleitores que não estudaram – não
vai sequer tomar conhecimento deles, e os que estudaram não se
sensibilizarão. Não perceberão que estamos condenados a um futuro
que inviabilizará nossas cidades por causa da violência, da
miséria, da ineficiência. Não despertarão para a necessidade de
fazer uma revolução pela educação, garantindo escola de qualidade
para todos - com escolas para os filhos dos pobres tão boas
quanto as dos filhos dos ricos -, como venho defendendo.

Se, há 50 anos, a Sudene tivesse iniciado essa revolução, em vez
de perseguir a velha obsessão por uma industrialização forçada, o
nível educacional do Nordeste não estaria tão defasado com
relação ao Sul. A população educada atrairia investimentos, a
igualdade de oportunidades reduziria a violência e a miséria. O
Nordeste não estaria tão desigual em relação às demais regiões do
País.

Pena que a seca da terra tenha sido visível nos anos 50,
provocando a criação da SUDENE, mas que a seca da mente seja
invisível e não sensibilize. Porque, aparentemente, os 4,47% dos
eleitores nordestinos que declararam ter concluído o Ensino
Superior são entendem a realidade diante dos seus olhos.

A contribuição do TSE foi valiosa. Não veio da Abin, nem do
Ministério da Defesa, mas do órgão que fiscaliza e contabiliza as
eleições. Esperemos que os eleitores entendam, e na próxima
eleição o TSE possa contabilizar votos por uma revolução na
educação.

Para colaborar com isso, o novo presidente do Senado, Garibaldi
Alves, se comprometeu a levar adiante uma CPI diferente: a CPI
das causas do apagão educacional no Brasil e no Nordeste.

* Professor da Universidade de Brasília, senador pelo PDT / DF.


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1 Comment To "Cristovam Buarque : ” O Brasil está ameaçado pela “invasão” de um exército de 72 milhões de adultos."

#1 Comment By Rodrigo Loureiro Medeiros On 5 fevereiro, 2008 @ 7:54 pm

[6]


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[2]

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[3] ? A questão dos impostos e juros: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/07/a-questao-dos-impostos-e-juros/

[4] ? Manifesto Grupo Crítica Econômica: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/07/manifesto-grupo-critica-economica/

[5] ? O que é política de pleno emprego?: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/07/o-que-e-politica-de-pleno-emprego/

[6] : http://desempregozero.org/2008/02/04/pisar-no-freio-ou-no-acelerador-entrevista-de-marcio-pochman-do-ipea-o-problema-e-o-bc/#comment-594

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