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CHUTANDO A ESCADA: Como os Estados Unidos usaram de todos os instrumentos para beneficiar e proteger suas empresas e empregos e HOJE HIPOCRITAMENTE defende que países pobres se abram sem qualquer proteção

Posted By Elizabeth Cardoso On 29 fevereiro, 2008 @ 12:22 pm In Desenvolvimento,Internacional,O que deu na Imprensa | 1 Comment

Fonte: Valor Online, em 28/02/2008

*Crítica publicada na revista Business Week (28/02/2008) sobre o livro “The Myth of Free Trade and the Secret History of Capitalism”, novo livro do economista e professor da Universidade de Cambridge, Ha-Joon Chang.

Imagine um país onde a regulamentação de investimentos provenientes de outros países é tão rigorosa que estrangeiros não podem possuir ações com direito a voto em instituições financeiras. Bancos estrangeiros são impedidos de abrir agências. Estrangeiros não podem ser proprietários das terras mais valiosas. O controle de mineradoras e madeireiras é, em larga medida, restrito a cidadãos nacionais. Companhias estrangeiras são sujeitas a impostos mais pesados do que as nacionais e em algumas jurisdições não dispõem de qualquer proteção legal. Estamos falando da China? De algum despótico país africano? Nada disso, diz Ha-Joon Chang, economista da Universidade Cambridge. São os Estados Unidos no fim do século XIX e início do século XX.

Esses são exatamente os tipos de políticas que deixam enfurecidos os defensores do livre-comércio. Mas neste seu livro Chang argumenta que as recomendações de políticas governamentais da “trindade profana” – Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional (FMI) e Organização Mundial de Comércio (OMC) – teriam sido inaceitáveis para os Estados Unidos, Reino Unido, Japão e outras potências quando se encontravam em processo de industrialização. Em vez de ajudar as economias emergentes, os defensores do livre- comércio – os “maus samaritanos” de Chang – causam, na realidade, mais mal do que bem.

Chang contesta praticamente cada princípio acalentado pelos defensores do livre-comércio. Proteção de patentes e direitos autorais, privatização e orçamentos equilibrados não são aspectos favoráveis inqüestionáveis, escreve ele. Segundo Chang, barreiras tarifárias, restrições a investimentos estrangeiros, inflação, gastos que geram déficits, e até mesmo corrupção, não são, necessariamente, males. O texto não é exatamente leve, e muitas vezes Chang se enreda em detalhes. Mas o livro apresenta uma argumentação embasada e compreensível contra a ortodoxia do livre-comércio.

Chang tropeça em não aceitar adequadamente que uma das razões para que Japão, Coréia e China tenham sido tão bem-sucedidas nos últimos anos é que os Estados Unidos derrubaram em larga medida suas barreiras tarifárias. Ele não parece admitir que os defensores do livre-comércio falam a duas platéias: buscam convencer tanto economias emergentes como o mundo desenvolvido de que mercados abertos são benéficos. Isso é importante porque o comprometimento do Ocidente para com o livre-comércio é frágil, e sem ele os países em desenvolvimento poderiam sofrer.

Apesar disso, Chang oferece muitas evidências históricas para apoiar sua argumentação. Até mesmo os atuais defensores entusiastas do livre-comércio, escreve ele, durante muito tempo praticaram as políticas a que hoje se opõem. No século XV, o Reino Unido exportou praticamente toda sua lã para o Continente, onde era convertida em artigos têxteis. O resultado foi que, enquanto os britânicos tiveram retornos relativamente bons vendendo sua lã, as fábricas têxteis européias colheram o grosso dos lucros. Então, Henrique VII impôs impostos sobre as exportações de lã e atraiu, através do Canal da Mancha para o Reino Unido, operários capacitados em tecnologias de fiação e tecelagem – o que, ao mesmo tempo, não só manteve a lã no Reino Unido, dando às fábricas nacionais uma chance para desenvolver-se, com também privou de matéria-prima os concorrentes estrangeiros.

Tanto nos EUA como no Reino Unido, políticas industriais que privilegiavam os fabricantes nacionais persistiram até períodos bem avançados no século XX. Chang cita o economista alemão Friedrich List, que em 1841 acusou os britânicos de “chutar a escada em que haviam subido para alcançar a mais alta posição econômica mundial”. Atualmente, argumenta Chang, os “maus samaritanos”, estão fazendo algo bastante semelhante aos países em desenvolvimento.

Será que isso faz sentido, vindo de um economista nascido na Coréia? Chang, ex-pesquisador do Banco Mundial e acólito de Joseph Stiglitz, agraciado com o Prêmio Nobel e crítico do livre-comércio, concorda que seu país natal beneficiou-se substancialmente da queda de barreiras comerciais. Samsung, Hyundai e a siderúrgica Posco transformaram-se em potências mundiais vendendo seus produtos em todo o mundo. Mas Chang argumenta que seu sucesso foi construído sobre uma base de políticas protecionistas e orientação dirigista de Seul, que permitiu à indústria coreana fortalecer-se no mercado interno antes de enfrentar competidores como Sony e Toyota (que, a propósito, tinham recebido proteção similar de Tóquio, uma geração antes).


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1 Comment To "CHUTANDO A ESCADA: Como os Estados Unidos usaram de todos os instrumentos para beneficiar e proteger suas empresas e empregos e HOJE HIPOCRITAMENTE defende que países pobres se abram sem qualquer proteção"

#1 Comment By PAULO EDSON DA SILVA REZENDE – ECONOMISTA On 12 novembro, 2009 @ 3:52 pm

O livro do prof Chang nos faz lembrar de como tudo começou e foi praticamente como descreve o autor. Os EUA, como sabemos no início do governo Dutra, quando o Brasil contava com o apoio financeiro do país até então parceiro na 2º guerra, recebeu a negativa de ajuda financeira. O Brasil neste momento necessitava de um empréstimo para alavancar seu poder industrial e o até então amigo americano o orientou a pedir empréstimo para os Bancos Mundiais que acabavam de ser criados para este fim. O que vemos então foi um verdadeiro “chute na escada” do Brasil que passou por sérias dificuldades para sair da crise.


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