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Câmbio pode determinar efeitos de crise global no país

Posted By Imprensa On 12 fevereiro, 2008 @ 8:28 pm In O que deu na Imprensa,Propostas de Mudanças para o Banco Central | No Comments

Vera Saavedra Durão
VALOR – 07/02/2008

Leo Pinheiro/Valor

Carlos Thadeu de Freitas, ex-BC: taxas entre 4,5% a 4% para

o PIB deste ano por conta de exportações menores

A taxa de câmbio é a variável macroeconômica chave para explicar um possível alcance do impacto da crise internacional sobre a economia brasileira, avaliam economistas ouvidos pelo Valor. Aurélio Bicalho, economista do Banco Itaú,

sustenta que a combinação de três fatores – forte desaceleração da economia mundial, queda dos preços das commodities e elevação da aversão ao risco – pode causar uma depreciação do real influindo na trajetória do crescimento econômico e determinar a direção da política monetária em 2008. Carlos Thadeu de Freitas, ex-diretor do Banco Central e economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio (CNC), nâo vê o país mergulhado numa depreciação cambial por conta da redução de atividade da economia americana. “Este cenário para mim é terrorista”, diz.

Bicalho traça dois cenários de impacto do câmbio sobre o Brasil decorrente de uma crise externa. O pior cenário, de uma desvalorização forte do real devido a uma recessão profunda nos EUA, é o menos provável. Ele reduziria a taxa de expansão do PIB brasileiro para 4% este ano e derrubaria o produto real para 3%, em 2009. O cenário de maior probabilidade para o Itaú é o deterioração das contas externas, com redução das exportações pelo encolhimento da demanda global, sem contudo influir no comportamento do câmbio. Neste ambiente, o PIB brasileiro cresceria 4,4% em 2008 e 4,2% em 2009.

Mesmo considerando pouco provável o cenário de valorização do dólar no país, o economista do Itaú crê que uma apreciação da moeda americana teria efeito-dominó sobre a economia, levando o Banco Central a concretizar a probabilidade de alta da Selic, com conseqüente recuo do investimento e do consumo das famílias. Bicalho calcula que o aumento do juro básico e a diminuição do investimento e do consumo levariam o PIB a perder cerca de 0,3 ponto percentual em sua taxa de crescimento em 2008. Já numa conjuntura mais amena, sem pressão à vista do câmbio, a economia continuaria em expansão, não chegando porém ao patamar de 5% a 5,4%, taxas previstas para 2007.

Para o economista do Itaú, o que reforça a probabilidade deste cenário é “o acúmulo de reservas e a melhoria do perfil da dívida pública”. Estes fatores reforçam a resistência da economia brasileira a choques externos, avisa.

Thadeu de Freitas concorda com Bicalho que o comportamento da economia brasileira diante da crise está ligada à dinâmica da taxa de câmbio. Mas neste momento acredita que é muito difícil o dólar subir em relação ao real num quadro de crise nos EUA que não seja o de uma recessão profunda e duradoura. No entender de Thadeu de Freitas, o que vai acontecer é uma queda nas exportações, que vai impactar o PIB de 2008. Ele trabalha com projeção de superávit comercial de US$ 25 bilhões para este ano. “Em 2007 apostei em crescimento de 5,2% para a economia, mas este ano prevejo taxas entre 4,5% a 4% por conta de exportações menores e também avalio que o consumo das famílias vai encolher devido ao crédito mais caro, influenciado pelo juro futuro, hoje na faixa de 13% a 15%.” Freitas ressalta que não há no horizonte sinais de pressões inflacionárias e considera a última ata do Copom “muito assustadora”.

Para o economista-chefe da CNC, se a crise global aumentar a aversão ao risco dos emergentes, a situação do Brasil pode complicar e levar a depreciar o câmbio, gerando alta de preços, mesmo com a queda das commodities metálicas e agrícolas. “Apesar de termos US$ 180 bilhões em reservas, nenhum país aguenta uma fuga de capitais que pode se desencadear se a crise piorar para valer.”

No Brasil, a dívida pública imobiliária fechou 2007 com 45,6% do PIB, enquanto as reservas respondem por 13,75% do PIB e os meios de pagamentos disponíveis, por 69,5% do PIB. “Se todo mundo quiser trocar reais por dólares, nossas reservas não aguentam. Mas este cenário para mim é terrorista. Não considero esta hipótese”, disse Thadeu de Freitas.

Setor externo prejudicará mais o PIB em 2008

Sergio Lamucci


As importações devem continuar a crescer a um ritmo bem superior ao das exportações neste ano, fazendo o setor externo tirar cerca de 2 pontos percentuais do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 2008. Se confirmado esse cenário, será um aprofundamento da tendência já registrada nos dois anos anteriores. A estimativa é de que, em 2007, a contribuição negativa do setor externo para a expansão da economia tenha ficado na casa de 1,4 a 1,5 ponto.

Com essa dinâmica de exportações e importações, mesmo um crescimento forte da demanda interna não deve ser suficiente para garantir um PIB acima de 5% neste ano, como ocorreu em 2007. O comportamento do setor externo, contudo, deve manter o espaço para que o consumo das famílias e o investimento avancem a um ritmo expressivo, sem provocar pressões inflacionárias exageradas.

Os economistas do Credit Suisse projetam um crescimento do PIB em 2008 de 4,5%, uma desaceleração em relação aos 5,4% estimados para 2007. Para o banco, o setor externo deve contribuir negativamente com 1,9 ponto percentual para o PIB. Nessa estimativa, a demanda doméstica (consumo das famílias, consumo do governo, investimento e variação de estoques) deve responder por 6,4 pontos da expansão em 2008.

Num ambiente de desaquecimento da economia global, a demanda pelos produtos brasileiros deve diminuir, movimento que o câmbio valorizado ajuda a intensificar. O economista-chefe do Credit Suisse, Nílson Teixeira, espera um crescimento de apenas 1,5% das quantidades exportadas de bens e serviços em 2008, um ritmo bem inferior aos já não muito animadores 7% do ano passado. Em comparação, o volume de importações deve avançar 16%, um pouco menos que os 21% de 2007. Para a contabilidade do PIB, o que conta são os volumes de compras e vendas externas de bens e serviços, e não os valores.

Para Teixeira, o arrefecimento do ritmo de expansão do PIB se deverá em grande parte à perspectiva de menor crescimento da indústria de transformação – 5% neste ano, abaixo dos 6% estimados para o ano passado. ‘”A desaceleração da indústria de transformação se justificará pelo desaquecimento da demanda externa pelos produtos exportados pelo Brasil e pela ligeira redução do ritmo de crescimento dos investimentos”, apostam os economistas do Credit Suisse. Teixeira diz que “o efeito isolado da desaceleração das exportações será responsável por deduzir 0,8 ponto percentual do crescimento do PIB em 2008″, em relação a 2007.

As importações, por sua vez, devem seguir firmes. Além de impulsionadas pelo avanço forte da atividade econômica, o câmbio valorizado barateia as compras externas. O economista Fernando Rocha, da JGP Gestão de Recursos, projeta elevação de 25% nas importações de bens e serviços neste ano, ganhando força em relação ao ano passado. Com isso, mesmo estimando expansão de 5% nas quantidades exportadas em 2008 – mais do que o 1,5% esperado pelo Credit Suisse -, ele diz que o setor externo vai contribuir negativamente com 2,2 pontos percentuais para a variação do PIB neste ano. Rocha prevê que a economia crescerá 4,8% em 2008, por apostar numa demanda interna forte.

A JGP e o Credit Suisse esperam um encolhimento significativo do superávit comercial, de US$ 40 bilhões em 2007 para a casa de US$ 25 bilhões neste ano. Como também acredita que as remessas de lucros e dividendos seguirão elevadas, dada à perspectiva positiva de rentabilidade das empresas, Rocha acredita que a conta corrente (medida das transações de bens e serviços do país com o mundo) ficará deficitária em 0,8% do PIB. Em 2007, o Brasil ainda teve um superávit em conta corrente de 0,3% do PIB. O Credit Suisse espera uma deterioração um pouco mais lenta das contas externas, apostando num buraco de 0,5% do PIB.

Em termos contábeis, o setor externo “tira” parte do crescimento do PIB porque as importações avançam a um ritmo bem superior ao das exportações. Nas contas nacionais, as compras externas entram com sinal negativo. Para analistas como os do Credit Suisse, é isso que permite a forte expansão do consumo das famílias e do investimento, sem provocar pressões inflacionárias indesejáveis. Teixeira estima que o consumo das famílias tenha crescido 6% em 2007, percentual que pode se acelerar para 6,4% em 2008. No caso do investimento, a expectativa é de um avanço de 13,1% no ano passado, e de 10% neste ano. Para o Credit Suisse, os dois principais componentes da demanda doméstica vão contribuir com a maior parcela do crescimento do PIB em 2008 e em 2009.

Rocha diz que o comportamento do setor externo permitiu ao BC reduzir mais os juros ao longo dos últimos anos. “A demanda doméstica pôde crescer mais”, avalia ele, para quem não é um problema ter um déficit moderado em conta corrente, desde que por períodos não muito extensos.

O economista Bráulio Borges, da LCA Consultores, aposta numa contribuição negativa do setor externo para o crescimento do PIB de 1,6 ponto percentual, número próximo ao que, acredita ele, foi registrado em 2007. Borges estima uma expansão da economia de 4,4% em 2008, por crer numa desaceleração mais significativa do consumo das famílias. Em vez de algo na casa de 6%, como em 2007, ele projeta um avanço de 5,2%.

Borges diz que a alta dos preços dos alimentos diminui a renda disponível, devendo afetar os gastos de consumo, principalmente dos mais pobres. Além disso, ele acredita no arrefecimento do crédito. Borges lembra que os juros de mercado subiram nos últimos meses, e há sinais de que os prazos de financiamento encolheram um pouco, por conta da maior incerteza em relação ao cenário externo e à inflação. Com o aumento das importações e a aposta na maturação de investimentos, Borges acredita que não será necessário elevar os juros – pelo contrário. É a mesma expectativa de Teixeira, para quem “as importações manterão papel relevante para atenuar pressões inflacionárias que surjam por causa do forte crescimento da demanda doméstica”. Os dois consideram que há espaço para o BC reduzir a taxa Selic ainda neste ano, que poderia atingir 10,75% ao ano em dezembro. Atualmente, a taxa está em 11,25%. Rocha é mais cauteloso. Ele aposta na manutenção dos juros até o fim do ano, mas não descarta um aumento da Selic caso as pressões inflacionárias continuem elevadas. De qualquer modo, Rocha também vê um efeito estabilizador do aumento das importações sobre os preços.



 


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[2] ? A questão dos impostos e juros: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/07/a-questao-dos-impostos-e-juros/

[3] ? Manifesto Grupo Crítica Econômica: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/07/manifesto-grupo-critica-economica/

[4] ? O que é política de pleno emprego?: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/07/o-que-e-politica-de-pleno-emprego/

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