Câmbio valorizado leva produção e empregos para fora, diz Marcopolo
Escrito por Imprensa, postado em 18 dEurope/London fevereiro dEurope/London 2008
FOLHA DE SÃO PAULO – 18.02.08
Da Reportagem Local
Na virada do mês, a Marcopolo lançou, em parceria com a Tata Motors, o primeiro ônibus criado especialmente para o mercado indiano. É no país asiático que inaugurou sua mais recente fábrica e onde deverá abrir, em 2009, a maior unidade do setor no mundo. Serão 5.000 funcionários, produzindo 25 mil ônibus ao ano.
Em 2008, a empresa também pretende inaugurar outra fábrica na Rússia. Rubens de la Rosa, presidente da Marcopolo, diz que a empresa entrou numa segunda fase de internacionalização, a qual foi levada graças à valorização cambial. Ele dá outros detalhes do processo na entrevista abaixo: (CB)
FOLHA – A Marcopolo mudou seu processo de internacionalização?
RUBENS DE LA ROSA - Até alguns anos atrás, nossa estratégia internacional era exportar o kit de peças e montar lá fora, no esquema de CKD [em que há só a montagem de kits prontos]. Só que, com o real cada vez mais valorizado, fizemos contas e percebemos que algumas fábricas não tinham mais condições de comprar componentes brasileiros. Alteramos o formato e começamos a procurar e desenvolver fábricas e fornecedores nos diferentes países.
FOLHA – O governo deveria ter atuado mais fortemente para evitar a queda do dólar?
DE LA ROSA - Em vários momentos achamos que o dólar tinha chegado ao piso e sofremos muito com sua queda. Até que chegamos à conclusão de que não poderíamos mais trabalhar pensando no dólar. Gostaríamos que o esforço do governo tivesse sido maior, mas a força da especulação foi muito grande. Deveríamos ter pensado em alguma tributação a quem ganhou com a oscilação da moeda e os juros brasileiros, mas entendo a restrição.
FOLHA – A solução então é produzir lá fora?
DE LA ROSA - A produção lá fora é uma realidade porque não consigo exportar.
FOLHA – Houve redução de vagas, com a diminuição da produção brasileira voltada à exportação?
DE LA ROSA - Por sorte, o mercado brasileiro está bastante aquecido. Quem produzia para atender às exportações teve seu trabalho redirecionado para o mercado interno. Apesar de estarmos produzindo e vendendo mais em dólares, as vendas em reais têm hoje peso maior do que há alguns anos.
FOLHA – O Brasil tem uma boa política para a internacionalização de empresas?
DE LA ROSA - Não existe um sistema no qual a empresa possa se apoiar para movimentar-se de maneira consistente no exterior. Nem em áreas em que já há resoluções formadas as coisas andam. A Lei Kandir, que prevê a volta do ICMS [Imposto sobre Circulação de Mercadoria] sobre bens exportados, não funciona no emaranhado tributário brasileiro. Poderíamos ter apoio do governo em gastos de pesquisa e prospecção, por exemplo, ou de órgãos como o Itamaraty. Recebi há pouco a visita de um país querendo fazer negócio com a Marcopolo. Não foi uma empresa, foi um país. O Brasil não tem essa iniciativa.
FOLHA – O governo não deve ter outras prioridades que ajudar grupos privados a avançar no exterior?
DE LA ROSA - Muitos países têm políticas de internacionalização. Ainda não é prioridade aqui porque o mercado interno é muito absorvente. Chegará um momento, no entanto, em que ter marcas fortes internacionais será importante ao país.
FOLHA – A crise americana tem afetado os negócios da Marcopolo?
DE LA ROSA - Acabei de passar 15 dias na Ásia e ninguém menciona a crise. Por enquanto, a turbulência parece restrita mais ao mercado de capitais do que à economia real. Poderá haver contágios, com o encolhimento da economia americana, mas ônibus não é bolsa da Louis Vuitton. A decisão de compra é no longo prazo e menos suscetível à movimentação de mercados. Só seremos afetados se houver recessão brutal.










