BRASIL: Firme e cego RUMO À INSIGNIFICÂNCIA ECONÔMICA
Escrito por NOSSOS AUTORES, postado em 12 dEurope/London fevereiro dEurope/London 2008
Bruno Galvão *
As recomendações econômicas para o Brasil são as mesmas há mais de 20 anos: “responsabilidade” fiscal, banco central exclusivamente preocupado com inflação, reformas liberalizantes, abertura comercial e financeira, privatização e diminuição do tamanho do Estado. Desde os fins dos anos 80, a equipe econômica acredita e executa esse tipo de política. Desde 1990, o Banco Central com a desculpa de estar preocupado exclusivamente com a inflação mantém as taxas de juros reais mais altas do mundo. O Brasil praticou uma radical e unilateral abertura comercial e financeira. Diversas reformas foram realizadas. Em quase todos os anos entre 1990 e 2007 o Brasil manteve substanciais superávits primários. O resultado é conhecido: aumento do desemprego, perda da competitividade brasileira, deterioração da infra-estrutura e crescimento muito abaixo da média dos outros emergentes. Em 1980, o Brasil tinha quase 11% do PIB do mundo subdesenvolvido. Em 2008, esse valor deve ser inferior a 5,5%. Essa mudança ocorreu basicamente após 1990, quando essa sugestão de políticas fiscais e monetárias restritivas, reformas e políticas de modernização da economia foram implementadas.
E, de novo, continuamos ouvindo o mesmo discurso. Hoje, o Blog do Nassif apresenta uma sugestão do FT para o Brasil. Continuam a mesma: gastos mais sábios do governo, estímulos ao setor privado, aumento da produtividade, reforma fiscal e trabalhista. Eu espero que todas as empresas buscam aumentar sua produtividade e não acredito que esse tipo de conselho possa vir a mudar a atitude das empresas. O que seria estímulo ao setor privado? Redução ainda maior do setor público? É um engano acreditar que Estado forte atrapalha o desenvolvimento de empresas desenvolvidas. Ao contrário, as principais empresas do mundo estão em países com Estado forte, como os dos EUA, França, Coréia, China e Japão. Estados fracos são os da África e da América Central. Aliás, república de banana significa isso: qualquer empresa multinacional derruba ou manipula os governos. Mas, ouvimos todos os dias na imprensa que Estado forte é sinônimo de subdesenvolvimento…. Será?
“Gastos mais sábios” é o nome mais bonito de redução dos gastos públicos. Não faz o menor sentido reduzir os gastos públicos, quando a quantidade exportada vai diminuir. Temos reservas suficientes para enfrentar qualquer ataque especulativo, desde que estivermos dispostos a desvalorizar o câmbio. Não entendo porque nos EUA é unanimidade que o governo deva fazer políticas monetárias e fiscais expansionistas, quando há crise, enquanto aqui é unanimidade que a resposta adequada a crises são políticas recessivas. Os EUA aprenderam com a crise de 29 que a política econômica ortodoxa é completamente equivocada. E, desde então, praticam uma política estrita política keynesiana contra-cíclica, como Tavares definiu seria um ultra-keynesianismo (citar a entrevista da Tavares).
A China também faz a mesma coisa. Durante a crise asiática, o governo deciciu que o país não podia crescer menos do que 7%. O que ele fez? Os gastos públicos iriam crescer ao dobro da taxa de crescimento do PIB. Resultado:o PIB chinês multiplicou em 10 nos últimos 30 anos, enquanto o Brasil praticamente manteve estável a renda per capita. Por outro lado, o Brasil que se torna cada vez mais insignificante para a economia mundial continua com as prescrições ortodoxas. Elogios do FT não resolve problemas econômicos. Esses elogios são os mesmo para o México, que, a despeito de fartos elogios da imprensa internacional, mantém um crescimento medíocre do PIB. Para milhares de mexicanos que morrem todos os anos tentando cruzar a fronteira, esses elogios não fazem a menor diferença. Para os brasileiros desempregados ou nas filas dos hospitais públicos esses elogios de nada servirão. Em 1980, o PIB conjunto do Brasil e do México era quase duas vezes maior do que da China, atualmente é menos de um quarto desse país.
* Mestre e Doutorando em economia pela UFRJ











13 dEurope/London fevereiro, 2008 as 10:33 am
Bom artigo. Precisamos realmente enfatizar que Estado e mercados nacionais fortes formam o binômio de qualquer nação desenvolvida. Certamente os arranjos institucionais diferenciam-se.
As complementaridades entre Estado e agentes privados nacionais precisam ser ressaltadas. John K. Galbraith, em seu último livro, ‘A economia das fraudes inocentes’ (Companhia das letras, 2004), menciona o mito dos dois setores: “Examinada de forma séria, a propalada divisão entre os setores público e privado não faz sentido. Não é realidade, é retórica. Uma parte cada vez maior do que é chamado de setor público está, para todos os efeitos práticos, no setor privado” (p.52).
O que seriam dos grandes grupos alemães sem a cooperação doméstica com o Estado nacional? Poderíamos repetir essa pergunta para o Japão, a Coréia, os EUA, o Canadá e a Grã-Bretanha.
O Estado nacional é um importante agente estimulador do processo de desenvolvimento econômico das sociedades organizadas. Além de criar as condições macroeconômicas para o respectivo processo, sua atuação direta não precisa ser descartada. O que seria do dinamismo tecnológico norte-americano no pós-guerra sem a relação do seu Estado nacional com o complexo militar-industrial? Na França, a indústria de defesa também mobiliza a cooperação entre Estado e agentes privados. A Volkswagen, até pouco tempo, era uma empresa controlada pelo Estado alemão.
Penso que precisamos evoluir para a construção de um paradigma diferente de relação entre o público e o privado. Certamente o aumento da profissionalização da administração pública brasileira ajudaria muito. Reduzindo as indicações políticas para os preenchimentos dos cargos nas diversas instâncias estatais, provavelmente se estreitaria a janela de oportunidades para administradores ineficientes e corruptos.
Trata-se de um problema de amadurecimento político. Alguns dizem que o sistema de indicações equaciona problemas de governabilidade. Afinal, os governantes não querem se tornar reféns dos legisladores. Sofrem as políticas públicas e o BC do doutor Meireles pode tranquilamente continuar decidindo que a cada real empregado no programa bolsa família sejam destinador pouco mais de R$16 para quem vive de juros e amortizações da dívida pública.
Como há uma desproporção numérica entre quem se beneficia desses gastos públicos, resta saber até que ponto se está efetivamente contribuindo para a construção de um país mais desenvolvido e equitativo. Ou se trata da manutenção do status quo em uma sociedade que não pode se dar a esse luxo? Eis uma questão.
Um abraço,
Rodrigo L. Medeiros
13 dEurope/London fevereiro, 2008 as 7:00 pm
Rodrigo,
Você foi no ponto onde eu queria chegar.
Acho que exagerei no título. É claro que o Brasil não está se tornando insignificante para a economia mundial, mas certamente está menos importante. A queda drástica da participação do Brasil no PIB do Terceiro Mundo, principalmente nos últimos 16 anos, não pode continuar a ser desconsiderada. E você exemplificou muito bem o que eu queria dizer: a importância do Estado no desenvolvimento das nações. Essa queda não é da época do governo Lula, vem desde o Collor. Mas, é amplamente ignorada pela imprensa, que não tem a menor auto-crítica de questionar se o modelo que ela tanto apoiou está correto.
Um abraço
Bruno
13 dEurope/London fevereiro, 2008 as 9:05 pm
Prezado Bruno
Gostei do seu artigo. Precisamos questionar o estado atual das coisas em nosso país. Não podemos acreditar que chegamos ao máximo do nosso potencial como nação. Longe disso…
O livro ‘Economia política internacional’ (Elsevier, 2005), do Reinaldo Gonçalves é muito interessante nesse aspecto. Ele articula de forma realista o posicionamento brasileiro no sistema internacional, incluindo nossas potencialidades e a opção vigente pela mediocridade.
No momento, acredito que estamos contribuindo para mostrar que existem caminhos viáveis alternativos.
Um abraço,
Rodrigo L. Medeiros
14 dEurope/London fevereiro, 2008 as 9:10 pm
Companheiros,
Creio ser o Brasil a nação do Ocidente que mais possui opções alternativas de desenvolver um caminho de desenvolvimento, pelas riquezas naturais, heranças históricas, e pelos valores concentrados em nosso país.
O modelo está errado. Não há projeto hegemônico. O governo Lula fez muitas coisas boas, mas não possui projeto. Esse é um dos nossos principais desastres, e é lamentável que a mídia não colabore em absolutamente nada para a construção de um novo Brasil. Lançam-se escândalos sobre escândalos e não se debatem as propostas.
Quero crer que isso está mudando e nossa democracia amadurecendo.
Abraços,
Eduardo.
15 dEurope/London fevereiro, 2008 as 12:24 pm
Sugiro que passemos ao texto do professor Carlos Lessa: http://desempregozero.org/2008/02/14/investimentos-do-exterior-no-brasil-e-brasileiro-no-exterior/
Um abraço,
Rodrigo L. Medeiros