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Márcio Pochmann: Antigüidade como impulso à formação, inovação e produtividade

Posted By Imprensa On 23 fevereiro, 2008 @ 11:24 am In O que deu na Imprensa,Política Social | No Comments

VALOR

* Márcio Pochmann

Um dos principais eixos estruturantes da reorganização do trabalho na nova economia do conhecimento encontra-se diretamente associado ao abandono do modelo taylorista de supervisão direta das atividades laborais. Cada vez mais ganham importância a autonomia do trabalhador e as equipes de empregados voltadas à resolução de problemas e à melhora da qualidade dos sistemas de produção.

O crescente envolvimento da mão-de-obra no processo produtivo permitiu ampliar consideravelmente o ganho de produtividade. Com maior participação, o trabalhador passou a fazer mais e melhor, com maior velocidade e menor custo, desestimulando a adoção de medidas espúrias de atendimento empresarial ao imperativo da competitividade.

De um lado, a crença de que o crescimento do lucro do empregador significaria ao trabalhador maior tempo de emprego e remuneração ampliada desestimulou a desconfiança que tradicionalmente separa o empregado do empregador. Da mesma forma, o acolhimento das contribuições da mão-de-obra pelo patrão implicou efetividade e eficácia crescentes nas funções exercidas (queda na porosidade do tempo de trabalho e no desperdício de material e aumento na durabilidade do equipamento utilizado e na aplicação dos insumos), com inegável redução dos custos de produção.

De outro lado, a formação laboral reconhecida pelo patronato na forma da maior longevidade no emprego na mesma empresa permitiu ao trabalhador converter em investimento o custo da qualificação contínua. Com isso, a inovação no processo produtivo deixou de ser matéria exclusivamente empresarial, para se transformar em assunto de interesse dos próprios trabalhadores.

Nesse sentido, as exigências de flexibilidade no interior do moderno sistema de produção expressaram intensa transição funcional por parte dos trabalhadores, cuja formação contínua se traduzia em mais inovação e, por conseqüência, produtividade superior. Confirma-se, em síntese, a perspectiva dos países que procuram sustentar o crescimento econômico pela via do trabalho com alta produtividade, sobretudo nas atividades de maior valor agregado e intensivo conteúdo tecnológico.


Inovação no processo produtivo deixou de ser matéria de exclusividade empresarial para se transformar em assunto de interesse dos trabalhadores


Mesmo não se configurando num todo homogêneo, percebe-se que a opção dos países da OCDE (Organização de Cooperação para o Desenvolvimento Econômico) aponta para a convergência da antigüidade do trabalhador no estabelecimento com produtividade e remuneração positivas. Isso porque perseguiram o imperativo da competitividade na forma da flexibilidade funcional de seus trabalhadores.Certamente não foi essa a opção brasileira. Ao invés da flexibilidade funcional, preponderou a flexibilidade quantitativa dos trabalhadores. Em outras palavras, o abusivo uso da rotatividade como mecanismo de intensificação primitivo do trabalho sem ganhos consistentes e sustentáveis de produtividade.Assim, o imperativo da competitividade acaba sendo perseguido com prejuízos ao trabalhador, com soma zero para o país. O empresário se ilude com o ganho no curto prazo, embora se inviabilize no médio e longo prazos. O Brasil também não vai se viabilizar como uma nação sustentada no padrão asiático de emprego, não adianta imaginar que será uma China no continente americano, só que com população menor. A enorme rotatividade da mão-de-obra expressa a opção de internalização do ciclo do fordismo adotado tardiamente no país, cuja produção interna se viabilizou com perda de participação do trabalho na renda nacional por meio da economia fechada e subdesenvolvida.O futuro do desenvolvimento sustentável está na flexibilidade funcional, não quantitativa (rotatividade). Entre 1980 e 2005, o Brasil ceifou 1/5 do poder aquisitivo do trabalhador enquanto a produtividade permaneceu estagnada, expondo sinais crescentes do atraso nas relações de trabalho. Dessa forma, a menor longevidade na empresa leva a menores salários, menor formação, contida inovação e produtividade estancada. Urge reinventar o regime de trabalho no Brasil. Incluir os informais e ampliar o tempo de serviço na mesma empresa somente com maior produtividade e formação contínua no próprio local de trabalho. Esses, entre outros requisitos da nova economia do conhecimento encontram-se atualmente esvaziados do sistema de relações de trabalho.A revitalização do regime de trabalho pode muito bem começar com a introdução da Convenção 158 da Organização Internacional do Trabalho. Ao invés da choradeira tradicional dos defensores do atraso, que somente consideram a competitividade fundada nas medidas espúrias do padrão de emprego asiático, chegou a hora da verdadeira modernização.

É o futuro do Brasil que está em jogo. Atualmente, patrões e empregados podem ser os portadores da boa nova, que não passa pela continuidade. O moderno é ser e fazer diferente, conduzido pela convergência da antigüidade como propulsora da formação, inovação e da verdadeira produtividade.

* Presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e professor licenciado do Instituto de Economia e pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Universidade Estadual de Campinas. Escreve mensalmente às quintas-feiras.


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