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Acabar com o monopólio neoclássico em economia

Posted By Imprensa On 22 fevereiro, 2008 @ 5:12 pm In Internacional | 25 Comments

  Thomas Palley*

Nos últimos 25 anos, o chamado Consenso de Washington – que compreendemedidas destinadas a expandir o papel dos mercados e a restringir o do Estado – tem dominado a política de desenvolvimento econômico. Conforme disse John Williamson que cunhou a expressão, em 2002, estas medidas “são princípios de base, sendo, por isso, que deram origem a consenso”.

Mas agora deixou de ser assim. Dani Rodrik, um reconhecido economista da Universidade de Harvard, foi a mais recente voz a questionar os fundamentos intelectuais do Consenso de Washington num convincente novo livro, intitulado One Economics, Many Recipes: Globalization, Institutions, and Economic Growth. A tese de Rodrik é a de que, apesar de haver apenas uma economia, existem muitas receitas para assegurar o sucesso do desenvolvimento econômico.

Rodrik prestou um serviço muito importante ao constatar de forma tão aberta a existência da “economia única”. Um crítico que fizesse a mesma afirmação – que a economia apenas permite uma única abordagem teórica – seria tido como paranóico e seria ignorado, ao passo que a reputação de Rodrik cria uma oportunidade de debate que, de outra forma, não seria possível.

A tese das “muitas receitas” diz que os países se desenvolvem com êxito ao seguirem políticas ecléticas, feitas à medida, que respondem a condições locais específicas, em vez de seguirem fórmulas genéricas de melhores práticas concebidas por teóricos da economia. Esta teoria desafia o Consenso de Washington e a sua fórmula de aplicação universal em matéria de privatização, mercados de trabalho desregulamentados, liberalização financeira, integração econômica internacional e estabilidade macroeconômica baseada numa baixa taxa de inflação.

No entanto, se bem que a tese das muitas receitas atraia um grande interesse, usufrua de suporte empírico e sugira um espírito de pluralismo teórico, a reivindicação de uma “economia única” é errônea, uma vez que dá a entender que a economia neoclássica dominante é a única economia autêntica. Parte da dificuldade em explicar esta restrição reside no fato de haver uma disputa na família dos economistas neoclássicos, que divide aqueles que acreditam que as economias de mercado do mundo real se
aproximam da concorrência perfeita e aqueles que não acreditam nisso.

Os crentes identificam-se com a Escola de Chicago, cujos principais exponentes incluem Milton Friedman e George Stigler. Os descrentes identificam-se com a Escola do MIT, associada a Paul Samuelson. Rodrik pertence à Escola do MIT, bem como outros nomes conhecidos, como Paul Krugman, Joseph Stiglitz e Larry Summers. Esta divisão esconde a uniformidade subjacente do pensamento.

A Escola de Chicago advoga que as economias de mercado do mundo real produzem resultados em grande medida eficientes (o chamado Eficiência de Pareto”), que as políticas públicas não podem melhorar. Assim, qualquer intervenção do Estado na economia há de sempre prejudicar alguém.

Em contrapartida, a Escola do MIT (Massachusetts Institute of Technology) sustenta que as economias do mundo real sofrem as consequências das falhas onipresentes nos mercados, onde se incluem a concorrência imperfeita e os monopólios, as externalidades associadas a problemas como a poluição e a incapacidade de fornecer bens públicos, tais como iluminação das ruas ou a defesa nacional.

Consequentemente, as intervenções estatais dirigidas às falhas de mercado – bem como às generalizadas imperfeições da informação e à inexistência de muitos mercados necessários – podem beneficiar todas as pessoas.

Nada disto tem a ver com equidade, que é um assunto diferente. Com efeito, nem a Escola de Chicago nem a Escola do MIT defendem que os resultados do mercado são equitativos, porque os resultados reais dos mercados dependem da distribuição inicial dos recursos. Se essa distribuição não for equitativa, os atuais e futuros resultados também não o serão. Os economistas de Chicago parecem crer que a falta de equidade nos resultados do mundo real é aceitável e, o que é ainda mais importante, que as tentativas para remediar essa situação são demasiado dispendiosas, porque a manipulação dos mercados provoca ineficiências econômicas. Eles estão convictos de que a intervenção do governo tende a gerar os seus próprios fracassos, bastante dispendiosos, devido à incompetência burocrática e à procura de rentabilidade fácil, mediante as quais os interesses privados
tentam orientar as políticas em seu próprio benefício.

Os economistas do MIT pensam exatamente o contrário: a equidade é importante, o mundo real é de uma injustiça inaceitável e os fracassos do governo podem ser evitados através de um quadro institucional idôneo, onde se inclui a democracia. Estas diferenças refletem a riqueza intelectual da economia neoclássica, mas justificam em nada a afirmação de que apenas existe uma única economia. Em contrapartida, economistas heterodoxos como Thorsten Veblen e Joseph Schumpeter há muito que trouxeram à luz inúmeras das atuais questões mais urgentes da economia neoclássica, incluindo o
papel das normas sociais e a relação entre inovação tecnológica e ciclos econômicos. A economia heterodoxa engloba conceitos teóricos de base que são, fundamentalmente, incompatíveis com a economia neoclássica em qualquer das suas duas formas contemporâneas. Estes conceitos resultam em explicações significativamente diferentes do mundo real, incluindo a distribuição dos rendimentos e os fatores determinantes da atividade econômica e do crescimento. Além disso, muitas vezes resultam na prescrição de diferentes políticas.

O falecido Robert Heilbronner – um dos mais conhecidos discípulos de Schumpeter – via a economia como uma “filosofia materialista”. Tal como os filósofos se dividem quanto à natureza da verdade e do entendimento, a economia divide-se quanto ao funcionamento do mundo real. Os paradigmas devem coexistir em economia, tal como nas outras ciências sociais. No entanto, na prática, o predomínio da crença numa “economia única”, especialmente na América do Norte e na Europa, tem levado cada vez mais a uma visão tacanha e exclusivista desta disciplina.

Esta realidade é difícil de comunicar. Um dos motivos reside no fato de os economistas neoclássicos liberais, como Stiglitz e Krugman, partilharem valores com os economistas heterodoxos, e os valores partilhados facilmente propiciam uma análise partilhada. Uma outra razão é que os economistas heterodoxos e da Escola do MIT também concordam muitas vezes em matéria de políticas aplicáveis, mesmo que os seus raciocínios sejam diferentes. Por último, a maioria das pessoa nem quer acreditar que os economistas possam ser audaciosos a ponto de imporem uma concepção única da economia.

A tese das “muitas receitas” enriquece o contributo da economia neoclássica para o debate sobre o desenvolvimento e muitas das suas propostas normativas contarão com o apoio dos economistas heterodoxos. Contudo, peca por não ter em conta as profundas divisões intelectuais existentes em matéria de desenvolvimento econômico, comércio e globalização, porque recusa admitir a legitimidade dessas discordâncias. Ao reiterar a tese da “economia única”, Rodrik revela inadvertidamente a censura infligida à economia contemporânea. O grande desafio não é reconhecer que existem muitas receitas, mas sim criar espaço para outras perspectivas de análise e política econômicas.

*Thomas Palley é economista e reside em Washington. É formado em Relações Internacionais pela Universidade de Oxford, mestre em Relações Internacionais e Ph.D. em Economia pela Universidade de Yale.


25 Comments (Open | Close)

25 Comments To "Acabar com o monopólio neoclássico em economia"

#1 Comment By Heldo Siqueira On 23 fevereiro, 2008 @ 8:55 pm

Desde Marx já se sabe que existem várias abordagens e várias receitas para o desenvolvimento econômico. O Sraffa há 50 anos tinha mostrado que o equilíbrio geral é matematicamente incompatível com o equilíbrio parcial, o que inviabiliza completamente a abordagem neo-clássica (novo-clássica).

Mas esses economistas continuam acreditando na tendência da economia real ao equilíbrio. Essa discussão na verdade, já é batida. O questão é que as respostas da abordagem dos ciclos reais de negócios para a economia real são desastrosas. Como vc explica uma crise (ou desequilíbrio) na economia real se vc (pré)supõe que ela está sempre em equilíbrio?!?!

O Stiglitz disse em um livro que o problema é que a teoria falha quando vc mais precisa dela (na verdade, falha nos outros momentos também, mas quando a coisa está indo bem, ninguém questiona muito), ou seja, nos momentos de crise.

Na verdade, acho que é uma tremenda cara de pau desses pretensos liberais apresentarem como novidade (descoberta por eles ainda) a idéia de haver várias fórmulas para o desenvolvimento!!

Abraços

#2 Comment By Gustavo dos Santos (meus artigos clique) On 23 fevereiro, 2008 @ 9:48 pm

Caro Heldo,
é isso aí! Sempre que acontece uma crise (qualquer crise) os economistas ortodoxos, obviamente, não consegue responder e aí lêem os heterodoxos escondidamente e, Voilá, descobrem a roda novamente.
é impressionante como redescobrem a roda…
quer dizer que podem existir diversas fórmulas para o desenvolvimento… quem diria…
obrigado Heldo!
abraços,
Gustavo

#3 Comment By Heldo Siqueira On 24 fevereiro, 2008 @ 7:25 pm

Gustavo,

Acho que esses são momentos mais delicados para os ortodoxos. Na verdade, a alegação liberal é que não existe um consenso entre os heterodoxos de como seria “a política de desenvolvimento”. Aí dizem que não existe uma “ciência econômica ortodoxa”.

Para mim, a discussão é que interessa, e formar consenso (como o consenso de washington) é besteira. Então, vivemos (nessas rupturas) interessantes oportunidades de mudar a discussão de foco.

Por exemplo, os “ortodoxos” dizem que o câmbio atual é fruto da ortodoxia liberal. Quando na verdade, o câmbio brasileiro está relativamente desvalorizado pela decisão (acertada) do Banco Central de compor reservas. Mas a discussão é: Será que seria necessário compor reservas se o BC estivesse com a taxa de juros no lugar certo (quando falo no “lugar certo” quero dizer, se não fosse esse desparate que é a taxa brasileira)?!? Além disso, essa crise é mais grave que as outras?!?!

Acho que são assuntos que engrandessem àquelas pessoas que valorizam a discussão e (pelo menos eu sou assim) vêem com maus os consensos.

Abraços e espero que a discussão continue!!
Heldo Siqueira

#4 Comment By Gustavo dos Santos (meus artigos clique) On 24 fevereiro, 2008 @ 7:35 pm

Heldo,
tudo bem?
eu não sou a princípio contra consensos. Em si eles não são bons nem maus. Eles só não podem ser impostos.
A definição se o câmbio está ou não valorizado depende de nossos objetivos políticos.
Para quem é desenvolvimentista, o câmbio está valorizado.
O câmbio brasileiro não está “desvalorizado”, porque à taxa de crescimento de desejamos ter, tipo 7% ao ano, nós não teríamos superávit em conta corrente.
Portanto, o câmbio está valorizado. Como a maioria das pessoas acha quase consensualmente. Este é um quase consenso correto.
abraços,
Gustavo

#5 Comment By Heldo Siqueira On 24 fevereiro, 2008 @ 7:51 pm

Gustavo,

Na verdade, a derrota do Botafogo (e vitória do Flamengo) pode estar alterando (estou tomando um montão de cervejas desde o início do jogo) meu senso de razão (sou gremista, mas moro no ES e meu pai é botafoguense roxo, então sabe como é que é né?!?! Torci pro Flamengo o tempo todo!!).

Não falei mal de consensos pq acho que são unanimidades (quase concordo com aquele ditado que diz que toda a unanimidade é burra). A questão é que consensos, em geral, meio que impedem o surgimento de novas idéias. E isso eu discordo completamente!!!

Hoje, dizemos que compor reservas é um consenso, mas há 3 ou 4 anos atrás era coisa de heterodoxo. Não era questão de se a idéia era boa ou não, mas era simplesmente pq era heterodoxa a idéia de controlar o câmbio. Hoje, os caras de palistas (é o jeito que chamamos os “pragmáticos” aqui na ufes) admitem que compor reservas é uma política boa (mesmo que interfira na livre regulação do câmbio).

Por outro lado (e agora estou fazendo o papel de advogado do diabo) não existiria tanto dólar sobrando por aí pra ser comprado, se a taxa de juros brasileira não estivesse atraindo tanto capital externo. Ou seja, compor reservas sem as taxas de juros atuais seria uma política meio que impensável.

Tenho mais dúvidas que respostas, mas acho que a discussão (e não o consenso) é que eliminarão minhas dúvidas. Espero que não seja mau interpretado.

Abraços,

Heldo Siqueira

#6 Comment By Gustavo Santos On 24 fevereiro, 2008 @ 11:10 pm

Heldo,
vc está certíssimo! e essa vitória do flamengo também deixou as coisas meio confusas aqui. Sou Atleticano (Galo), moro no Rio, e minha namorada adora futebol e é flamenguista roxa e gosta de pegar no meu pé.
Tudo bem, também tenho 2 pés atrás com consensos e unanimidades. só quis dizer que de um ponto de vista lógico, me parece que o problema estava na utilização de poder para impor essas coisas. Mas tenho dúvidas em relação a isso também. Isso é detalhe.
o que importa aqui é a questão do câmbio.
o problema é que do governo FHC para cá fomos obrigados a dar uma importância imensa ao que dizem os economistas ortodoxos.
no resto do mundo eles não tem essa importância toda. são apenas ideólogos úteis para o posicionamento conservador, mas não operam tão diretamente a política.
Por isso há uma clara diferença entre a política dos países e o que é pregado pela ortodoxia. Aqui também era assim. Mas algo aconteceu em 1994 que fez com que esses economistas ortodoxos acadêmicos dominassem completamente o direito a definir os cargos no Banco Central e na Fazenda. O que não mudou nada na BC. e mesmo na gestão Mantega da fazenda a história mudou pouco.

a verdade é que nesta década quase todos os países estão acumulando enormes reservas de dólar. E os americanos estão desincentivando-os a fazer isso, pois querem que o dólar se desvalorize.

só no Brasil do Lula que tenta-se acumular ao mínimo, mas ainda assim estamos nos 200 bilhões de reservas. Se não acumulássemos o dólar estaria abaixo de um e já teríamos desligado quase todas as máquinas da indústria paulista.

E como vc está alertando, os juros elevadíssimos tem um papel importante nisso. mas nem tanto quanto parece. só juros não é suficiente. estamos acumulando isso tudo também porque a moeda nacional não é mais tão arriscada e isso decorre do fato de não termos mais um déficit estrutural em conta corrente.
O superávit em conta corrente + mais o excesso de liquidez internacional é que estão nos entupindo de dólares e isso acontece independentemente da taxa de juros. em todos os países com superávit em conta corrente e um porte razoável está acontecendo grande acumulação de reservas. independentemente das taxas de juros.
Se tivéssemos colocado as taxas de juros lá embaixo e permitido que o câmbio ficasse em três reais, comprando todos os dólares disponíveis a essas taxas, além de estarmos crescendo a 10% ao ano, estaríamos com pelo menos uns 400 bilhões de dólares em reservas. Porque as exportações estariam lá no céu e estaríamos atraindo quantidades imensas de capital para investimento direto e aplicação em bolsa de valores.
Os bancos e a elite da elite brasileira morre de medo disso, porque o presidente seria tão popular que se fizesse um plebiscito para ter mandatos indefinidos, ganharia.
E eles morrem de medo dessa possibilidade, porque temem que com isso o presidente seja mais forte do que eles.
a elite financeira quer baixo crescimento e presidente fraco, por isso apostam em juros estratosféricos e dólar barato. Ou seja, desemprego, crescimento baixo, mas ainda com alta rentabilidade financeira.
abraços

#7 Comment By Rodrigo Loureiro Medeiros On 25 fevereiro, 2008 @ 3:59 pm

Prezados

Resido no ES como o Heldo e pude constatar o sabor da vitória rubro-negra no domingo. Um título da Taça Guanabara com direito a um ridículo choro de perdedor no vestiário alvinegro. Coisa que faria o falecido João Saldanha urrar de fúria com tamanha pequenez. Convenhamos, existem coisas mais sérias no Brasil do que futebol.

Quanto ao debate sobre a teoria do desenvolvimento econômico. Gosto muito de pensadores como Robert Heilbroner e Dani Rodrik. Ambos são heterodoxos, mas trabalham com o ferramental neoclássico. Como compreendem o papel das instituições, o conjunto de normas que estruturam o convívio social, a ortodoxia acaba sendo empurrada para o limbo.

O debate da acumulação de reservas cambiais é bem interessante. Lembro-me que no primeiro governo FHC (1995-1998), isso seria equacionado com juros altos e abertura econômica unilateral. Pelo menos era o que diziam os sábios econômicos de então. E é claro, populismo cambial para garantir o projeto de reeleição do sociólogo… O saldo dessa política este sendo pago até hoje.

Sou da opinião de que o pior não foi o efeito financeiro do crescimento da dívida pública durante o citado período. O problema central reside no paradigma adotado como modus operandi no BC brasileiro. Independente de quem passe por lá, precisa passar antes pela chancela de “bom comportamento” junto à Febraban.

Tenho muitas dúvidas quanto ao “câmbio certo”. Penso que em economia política esse debate é um campo para a falta de ação do Estado. O argumento de que o “mercado saberá definir o câmbio adequado” é bem simplista e reconfortante para alguns.

Ha-joon Chang, professor de Universidade de Cambridge (UK), em ‘Chutando a escada’ (UNESP, 2004), sugere algumas dicas para se buscar associar câmbio e produtividade média da economia naiconal. Certamente esse modelo é problematizável, apesar de facilitar a comparação entre os sistemas econômicos nacionais.

Em síntese, o Brasil poderia ter acumulado reservas cambiais pelas vias do aumento da produtividade sistêmica de sua economia. Para tanto, investimentos em infra-estrutura são essenciais. (A lentidão do PAC é preocupante.) O modus operandi do BC brasileiro, por sua vez, vem dificultando o aumento da competitividade nacional. A não ser que queiram restaurar a competitividade pelas vias da socialização dos prejuízos à la complexo cafeeiro da Primeira República. Vantagens comparativas estáticas…

Lembro que o trabalho ‘Estudo de competitividade da indústria brasileira’ (1994), um projeto do MCT coordenado por Luciano Coutinho e João C. Ferraz, poderia ter sido utilizado como base de ações desenvolvimentistas no governo do sociólogo. FHC preferiu as vias do neoliberalismo que o conduziram aos salões das elites liberal-internacionalistas.

Um abraço,

Rodrigo L. Medeiros

#8 Comment By Eduardo Alves On 25 fevereiro, 2008 @ 11:43 pm

Companheiros,

Sou carioca da gema, moro na cidade do Rio e isso aqui em dia de decisão parece até Copa do Mundo. O pior de tudo é ter que aturar um monte de flamenguista no dia seguinte. Gente que nunca pensávamos que gostasse de futebol começa a zombar dos outros e a dizer que sempre foi flamengo. Mas, num país de tantas contradições…

Esse debate econômico é muito amplo, vastíssimo, e dá azo a discussões intérminas. Um dos problemas que vejo é que o guia do debate é sempre o momento, a conjuntura, mas ela nem sempre revela a realidade. Muitos neoliberais se animam em vangloriar, valendo-se disso do fato muito alardeado (do qual discordo) que Lula seria o continuísmo de FHC.
A verdade é que a justiça deve ser feita: risco-país menor da história, dólar equilibrado, dívida com FMI liquidada, robustez em contas correntes. A lamentação é o conservadorismo do governo em certas questões, como o juro, onde todos sabemos haver margem para reduções significativas.

O Brasil é o país com mais condições objetivas de desenvolver caminhos alternativos de desenvolvimento. Cada país deve encontrar seu caminho de acordo com suas idiossincrasias, peculiaridades. O neoliberalismo foi um desastre para a América do Sul, mas nos Estados Unidos permitiu alguns ganhos.
O modelo mais aplicável é aquele pertinente ao potencial do país.

Concordo com Heldo, o que constrói é o debate. Se Marx tivesse vivido até 1929, ele diria “eu não falei? Olha a crise do capitalismo!”. Mas se estivesse aqui em 1990, depois da queda do muro de Berlim e da dissolução da União Soviética, talvez chorasse.

Acho que vivemos momentos de muitas transformações no pensamento econômico e político. Transformações para melhor.

Abraços.

#9 Comment By Gustavo dos Santos (meus artigos clique) On 26 fevereiro, 2008 @ 12:57 am

Caro Eduardo,
concordo com vc e o Heldo, inclusive com relação aos flamenguistas e seu histórico de vitórias com arbitragens duvidosas. Mas esse é um assunto muito delicado e cuja conclusão que só podemos encontrar no encontro de duas retas paralelas.

Só vou fazer uma pequena discordância: tentaram nos vender que os EUA adotam políticas neoliberais. Mas isso não é verdade. Eles são hiper-capitalistas. Hiper-individualistas. Hiper-conservadores. Mas não neoliberais como isso é defendido aqui no Brasil.
Qualquer ameaça de redução do emprego, eles jogam as taxas de juros no chão, gastam dinheiro público a rodo e jogam o defícit público no céu. O que eles chamam de recessão lá é uma taxa de desemprego+subemprego 3 vezes maior do que a nossa quando estamos no máximo de geração de empregos e o banco central resolve aumentar as taxas de juros para reduzir o crescimento…
abraços,
Gustavo

#10 Comment By Rodrigo Loureiro Medeiros On 26 fevereiro, 2008 @ 10:47 am

Prezados

O futebol é um esporte que movimenta paixões. Compreendo que a derrota tenha um sabor amargo para os perdedores. Sou da opinião de é preciso aprender a perder para que as vitórias sejam saboreadas com maior hombridade. Afinal, trata-se apenas de um jogo de futebol.

O título brasileiro do Botafogo de 1995, por exemplo, é até hoje difamado pelos santistas. Carlos A. Montenegro, então presidente do Botafogo, falou naqueles tempos que era choro e perdedor. Lembro-me de uma final estadual entre Fluminense e Bangu. O Flu venceu por 1 x 0 e o juiz do jogo não marcou um pênalti escancarado no Cláudio Adão, atacante do Bangu. Este talentoso jogador, por sua vez, acabou o jogo com a camisa rasgada. Quem falou em roubo nesses dois casos?

Lembro-me também daquele torneio mundial no Rio que o Vasco montou junto à FIFA para ver se conseguia se igualar ao Fla. Perdeu na final para o Corinthians que jamais venceu a Libertadores e, portanto, aquele título mundial perdeu legitimidade. O time paulista era apenas o campeão brasileiro.

Os mais antigos dizem que a seleção de Pelé e companhia precisava fazer muitos gols na Copa porque os juízes costumavam anular gol da seleção brasileira. Vejam se aquele timaço ia perder tempo pensando em juiz…

O futebol tem muitas histórias desse gênero. Não me lembro de uma cena ridícula como a que vi na tv neste último domingo, 24 de fevereiro. Quanta pequenez. Ah se o João Saldanha estivesse vivo… Ele não iria pegar leve.

Bom, a turma do choro dos perdedores deve ser praticamente a mesma que justifica nossas mazelas pelas vias do imperialismo ianque: “o Brasil é subdesenvolvido porque não nos deixam jogar com liberdade no sistema internacional, pois sempre há um juiz ladrão para garantir o resultado final para alguns”. Sei que as dimensões são distintas, mas creio que se trata de um caso para a psicanálise. Talvez Miguel de Cervantes tenha uma resposta satisfatória para os cavaleiros andantes da pós-modernidade que confundem moinhos com gigantes.

Quanto ao Brasil, penso que nós mesmos somos nossos principais adversários. Albert Hirschmann cansou de mencionar que havia por aqui uma visão hegemônica de fracasso nacional. Ele ficou muito impressionado com isso.

Os EUA não são neoliberais. Nunca o foram. As receitas pregadas por eles não são praticadas domesticamente. Se o fossem neoliberais realmente, a rodada de Doha da OMC e a ALCA não seriam emperradas.

Concordo com o Gustavo quanto à necessidade de que a taxa básica de juros caia no Brasil. Não há motivos reais para tamanho conservadorismo. O PAC e as demais urgências nacionais agradeceriam muito.

Um abraço,

Rodrigo L. Medeiros

#11 Comment By Eduardo Alves On 26 fevereiro, 2008 @ 7:46 pm

Caros amigos,

Futebol realmente é algo complicado, talvez mais complicado que política e economia… rsrsrs

Com relação às taxas de juro no Brasil serem elevadas, acho que isso é ponto indiscutível entre nós. Todos pensamos igualmente que há margem para reduções.

Agora, os EUA hoje podem não ser neoliberais como se apregoa por aqui, mas em dado momento nas décadas de 80 e 90 foram neoliberais, com grande ênfase. A Inglaterra abriu os caminhos, que depois foram seguidos pelo Reaganismo. Redução do papel do Estado, dos tributos, privatização, tudo isso são premissas neoliberais adotadas pelos norte-americanos.

Hoje concordo que não, mas antes de se espalhar pelo mundo subdesenvolvido, foi aplicado por lá. Vejo que hoje (gostaria de saber a opinião de vocês) as ideologias políticas se perderam. Ninguém mais sabe o que é esquerda, direita, centro, etc. A mídia aborda essas questões muito mal, os políticos (com exceções) não sabem sequer suas posições.

Vou citar um exemplo disso que considero uma aberração intelectual, nessa perda de identidade ideológica. Sendo o PFL um partido por natureza liberal, espera-se atitudes dessa ordem. Já o PSDB é de feição social-democrata e comporta-se de forma liberal.
E os dois são sempre parceiros.
O que vocês acham disso?

Abraços,

#12 Comment By Rodrigo Medeiros On 26 fevereiro, 2008 @ 8:52 pm

Caro Eduardo

O neoliberalismo não avançou na Grã-Bretanha e tampouco nos EUA porque não havia naqueles países um contexto propício para tanto. Ronald Reagan declarou guerra ao “império do mal” e pisou fundo nos déficits fiscais e no keynesianismo da guerra nas estrelas.

No livro do Alan Greenspan, ‘A era da turbulência’ (Elsevier, 2008), o ex-presidente do FED conta que o recém-eleito presidente Reagan chamou Paul Volcker, então chairman do FED, para uma conversa. Reagan disse para Volcker baixar a taxa básica de juros. Este último, por sua vez, argumentou que havia um conjunto de razões técnicas para não fazê-lo e defendeu a “independência” do FED. Pois bem, Reagan disse a ele que o povo norte-americano já se perguntava se havia a necessidade do Sistema da Reserva Federal…

A taxa básica de juros norte-americana foi abaixada pelas vias da política e do interesse nacional. Posteriormente, em 1987, Greenspan seria conduzido à presidência do FED por Reagan. Equilíbrio fiscal só com Clinton.

Já na Grã-Bretanha, o próprio governo Thatcher recuou nas reformas pró-mercado, pois percebeu a importância das instituições e da presença do Estado no manejo da economia. A vitória do trabalhismo, em 1997, acentuaria a presença inteligente do Estado britânico no volante da economia.

Por aqui, infelizmente, o fatalismo do fim da história nos conduziu ao pensamento único.

Um abraço,

Rodrigo L. Medeiros

#13 Comment By Gustavo dos Santos (meus artigos clique) On 27 fevereiro, 2008 @ 12:57 am

Caro Eduardo,
eu concordo com o Rodrigo. A imprensa tenta vender que o neoliberalismo é a “cópia” dos EUA. Mas isso não é verdade. A diferença básica é que lá eles defendem minimamente o povo e o interesse nacional. Isso significa, entre outras coisas, que não aceitam muito desemprego. O neoliberalismo daqui significa antes de tudo que “desemprego não é um problema”, “problema é só inflação”. Nesse caso, os EUA também adotam a velha máxima deles: “façam o que digo e não o que eu faço”.
Sobre o PSDB, pode ser que na fundação do partido havia tendências social-democratas nele. Mas FHC jamais foi social-democrata. Sempre foi um liberal econômico e um anti-nacionalista. A “teoria da dependência” que ele “formulou” mostra isso claramente. veja:
[1]
Quando ele virou presidente o PSDB virou a cara dele e está assim até hoje. A aceitação do resto do partido desse neoliberalismo do FHC era quase natural, tendo em vista que os partidos social-democratas estão associados ao sindicatos e ao trabalhismo e esse espaço em São Paulo já era do PT…
abraços

#14 Comment By Heldo Siqueira On 27 fevereiro, 2008 @ 10:33 am

Amigos,

acho que um dos grandes desserviços que os cientistas econômicos e políticos prestaram à sociedade moderna foi a “nomenclaturização” (não achei outra nome para inventar moda) dos movimentos políticos. A maioria dos movimentos políticos e econômicos já nascem com nomes, quando, na verdade, são apenas rupturas ou retomadas de movimentos anteriores.

O neoliberalismo, na verdade, foi a retomada do processo de globalização (mundialização, grandes descobertas, qualquer coisa que se queira chamar…) de antes das grandes guerras mundiais quando vc tinha várias potencias querendo tomar a posição de imperialistas mundiais para um mundo que se tornava cada vez menor. Não tem nada de “neo” nisso! Com o fim da guerra fria, vc tinha apenas uma potência e ela aplicou o imperialismo.

Esse movimento esteve o tempo todo subordinado aos interesses imperialistas (ou capitalistas, ou qualquer outra coisa). A única coisa realmente diferente foi o cenário em que o imperialismo ocorria, que agora era o mercado. Mas o próprio mercado tem as soluções para a reversão do processo de “colonização”.

Então, qualquer política econômica que se queira importar vai estar moldada nesse sentido. Para mim, até o papo sobre o fato de a poupança vir antes do investimento é conversa fiada que tentam passar nos países “em desenvolvimento” para que aceitem capitais externos.

Falou galera

#15 Comment By Rodrigo Loureiro Medeiros On 27 fevereiro, 2008 @ 12:28 pm

Prezados

É com imensa satisfação que participo deste debate. Só assim que se pode almejar esclarecer fatos e construir caminhos viáveis e democráticos de desenvolvimento econômico sustentado.

Seguindo o pensamento keynesiano, poupança e investimento são os dois lados da mesma moeda. Não é necessário se ter poupança disponível para se realizarem investimento no curto prazo. As experiências recentes do Leste asiático demonstram como o investimento pode construir poupança doméstica.

O que se faz de fato com o excedente do processo de acumulação capitalista é o ‘x’ da questão. Ele vai ficar rolando no mercado financeiro, especulando em torno de papéis, sem vinculação com as reais necessidades das forças produtivas de bens e serviços? Conhecemos bem essa situação.

Dados do FMI revelam que a relação crédito privado/PIB brasileira, cerca de 30-34%, é uma das mais baixas do planeta. Essa relação anda inclusive em descompasso com o que se passa nos chamados “países em desenvolvimento” (NIC – new industrialized countries). Na Coréia do Sul, por exemplo, essa relação tem chagado aos 90%, ao passo que no Chile ela gira em torno dos 70%.

Menos crédito para a produção = menor crescimento econômico = elevadas taxas de precarização das relações de trabalho, informalidade + desemprego. Segundo a CEPAL, a taxa de ocupação da força de trabalho no Brasil é de 51%, ou seja, 49% das pessoas em idade ativa encontram-se no desemprego ou mesmo na informalidade.

E ainda tem gente que duvida que o INSS venha a ter problemas caso seja mantido o modus operandi da política econômica brasileira. Isso para não falar na nossa precária infra-estrutura, que, em termos de competitividade sistêmica da economia nacional, é a principal parcela do famigerado Custo-Brasil.

Um abraço,

Rodrigo L. Medeiros

#16 Comment By Gustavo Santos On 28 fevereiro, 2008 @ 12:03 am

Rodrigo,
concordo com vc!
Heldo,
penso o mesmo. Especialmente essa parte que ficou especialmente boa: “qualquer política econômica que se queira importar vai estar moldada nesse sentido. Para mim, até o papo sobre o fato de a poupança vir antes do investimento é conversa fiada que tentam passar nos países “em desenvolvimento” para que aceitem capitais externos.”
O que eu chamo de neoliberalismo não é o processo histórico político-econômico internacional, mas uma das ideologias em dispusta política. O neoliberalismo não é novo de fato, é apenas uma reformulação do mau e velho liberalismo econômico recomendado principalmente para países periféricos. Sempre o liberalismo econômico convive sempre com outras ideologias, como o socialismo, o nacionalismo econômico, a democracia-social (para não confundirmos com pSDb) e o anarquismo.
Esse seu parágrafo que eu destaquei:
(“qualquer política econômica que se queira importar vai estar moldada nesse sentido. Para mim, até o papo sobre o fato de a poupança vir antes do investimento é conversa fiada que tentam passar nos países “em desenvolvimento” para que aceitem capitais externos.”)
é exatamente uma (precisa) crítica à ideologia neoliberal.
abraços,
Gustavo

#17 Comment By Eduardo Alves On 2 março, 2008 @ 8:54 pm

Gustavo, concordo com tudo. Inclusive com relação ao PSDB o que eu quis dizer foi exatamente isso: FHC não foi social-democrata. Mas ideológicamente, na sigla, o partido é. Esses desatinos são muito hostis à boa política.

Rodrigo, gostei das explicações.
Mas, me diga uma coisa (quero só aprender). Você afirmou que “os EUA não são neoliberais; nunca o foram”. O neoliberalismo, como ressureição do liberalismo, não veio à tona como um caminho a ser seguido no pós Guerra Fria? E os carros-chefe, via privatizações, não foram eles e a Inglaterra?

Gostaria que me explicasse melhor, pois eu pensava dessa forma.

Quero destacar sua frase no final de um dos comentários: “por aqui, o fatalismo do fim da história nos conduziu ao pensamento único”.

É verdade.

Grande abraço.

#18 Comment By Rodrigo Loureiro Medeiros On 2 março, 2008 @ 9:40 pm

Caro Eduardo

Não podemos confundir neoconservadorismo com neoliberalismo. Certamente há interseções entre ambos. Reagan e Thatcher eram convictos conservadores. O discurso era pró-mercado e livre-iniciativa. Principalmente se isso significava abertura de mercados para o capital anglo-saxão.

A ditadura militar argentina salvou o governo de Thatcher. Seus índices de popularidades estavam quase no chão quando o nacionalismo britânico mobilizado em torno das Malvinas salvou a Dama de Ferro. Depois foi só bater em cachorro morto… (a ditadura militar argentina.) Lembro que quotas de importações foram levantadas nos EUA contra o Sistema Toyota de Produção na década de 1980. (Protecionismo.) Neoliberalismo norte-americano? E ainda tem o episódio do Reagan peitando o Paul Volcker, chairman do FED, para que a taxa básica de juros caisse nos EUA. Independência do banco central?

A questão central é que ambos não puderam colocar o Estado somente executando funções básicas – educação, judiciário, segurança pública e defesa nacional. John K. Galbraith utilizou muito a expressão “tirania das circunstâncias” para se referir ao fato de que um político tem margens de manobras limitadas na arena diária das relações sociológicas.

Se isso se processa quando há governos progressistas no poder, o mesmo se pode notar nos governos conservadores.

A relação cooperativa pelo desenvolvimento econômico nacional entre Estado e mercado nos EUA e na Grã-Bretanha é antiga. Os barões ladrões do capitalismo anglo-americano cumpriram seu papel na construção de uma grande economia nacional. Desenvolveram seus negócios pelas vias das concessões públicas e criaram a maior economia do planeta. Está tudo no livro ‘Os magnatas’ (LPM, 2006), de Charles R. Morris. Um recuo histórico maior nos faz lembrar que Francis Drake e Henry Morgan, corsários da Coroa britânica, cumpriram seus papéis com rara eficiência contra os reinos ibéricos.

Ressalto que a gestão dos respectivos bancos centrais foi importante para a história de ambos os países. O Banco da Inglaterra é do final do século XVII, para limitar o poder da Coroa e garantir tanto a liquidez e a solvência da economia britânica, já o FED seria criado em 1913 para cercear o poder de mercado de John P. Morgan e companhia.

O Brasil e os demais países da América Latina, por sua vez, são herdeiros da tradição ibérica. Algo que o livro ‘Raízes do Brasil’, de Sérgio Buarque de Holanda, explica muito bem. Somos diferentes por conta do nosso processo de formação diferenciado.

Um abraço,

Rodrigo L. Medeiros

#19 Comment By Heldo Siqueira On 3 março, 2008 @ 2:23 pm

Olá pessoal,

gostaria de levantar a questão sobre se existe realmente um consenso acerca da teoria neoclássica e do liberalismo ou se esse consenso é forçado.

Acho que o caso FHC é emblemático nesse sentido, afinal, ele foi eleito por ter feito o Plano Real. E a única coisa que ele deveria ter feito era manter a estabilidade macroeconômica. Mas ao invés disso, saiu vendendo empresas estatais e abrindo a economia desregradamente. E isso com a imprensa dizendo para as pessoas todos os dias que era para fazer isso que ele tinha sido eleito. E pior!!! Que era a única coisa a ser feita!

Li uma frase interessante outro dia, quando um jornalista, após a segunda eleição do Lula, havia dito que “o povo votou contra a opinião pública”. E achei engraçada a frase, pois demonstra toda a arrogância da imprensa em achar-se dona da opinião pública. Quer dizer, segundo essa perspectiva torpe, a opinião pública é a opinião de alguns idiotas que se acham donos da verdade.

Escrevi tanto para dizer que não existe, na verdade, um monopólio da teoria neoclássica. Na verdade, teorias econômicas são como aparelhos de televisão, afinal, quem usa não precisa saber como funciona! Quem se utiliza da teoria neoclássica (liberal) não quer saber se Sraffa destruiu a noção de “tudo mais constante” e as condições de equilíbrio parcial e equilíbrio geral. Ou seja, as pessoas só precisam de teorias econômicas para justificar seu discurso.

E num país em que a imprensa se acha dona da opinião pública, nada mais justo que também se considerem donos da “ciência econômica correta”. Nos outros lugares do mundo, as pessoas preferem dar ouvidos a outros teóricos, pq precisam justificar outros interesses (em alguns até interesses populares).

Ficou embolado o texto, mas a idéia é essa…

Abraços

#20 Comment By Gustavo On 3 março, 2008 @ 3:19 pm

Heldo,
acho que eu entendi. Concordo com vc, as pessoas (conservadoras e donas no poder) colocam a teoria neoclássica lá no céu, exatamente porque ela se parece muito com os próprios preconceitos (conservadores).
abraços
ps.: Adorei a frase da imprensa: “na eleição de 2006 o povo votou contra a opinião pública” …
piada pronta né?

#21 Comment By Eduardo Alves On 3 março, 2008 @ 11:11 pm

Rodrigo, muito obrigado pela explicações. Agora entendi bem seu raciocínio e aprendi um pouco mais.

Heldo, concordo com Gustavo, são piadas prontas.
Só que gostei mais do “teorias econômicas são como aparelhos de televisão, afinal, quem usa não precisa saber como funciona”.

Lembrei-me do “a teoria na prática é outra”…

Um grande abraço a todos.

#22 Comment By Eduardo Alves On 3 março, 2008 @ 11:15 pm

Gustavo,

você já pensou na possibilidade de a equipe do blog elaborar algum trabalho impresso com os artigos, comentários e debates que aqui realizamos?

Um livro, ou periódico, algo que venha a ser publicado.
Não sei se já é feito algo nesse sentido, mas é interessante pois a forma como discutimos surgem observações tão valiosas que vale a pena tentarmos espalhar isso mais e mais.

Abraços,

#23 Comment By Gustavo dos Santos (meus artigos clique) On 3 março, 2008 @ 11:45 pm

Eduardo,
vc tem razão, a frase do Heldo é fantástica:
“teorias econômicas são como aparelhos de televisão, afinal, quem usa não precisa saber como funciona”.
Vale um artigo com esse título para ficar registrada.

Fico lisonjeado por considerar que nossas discussões valem uma publicação em papel.

O Rodrigo Medeiros já fez essa sugestão. O que considero uma excelente idéia. Poderíamos fazer já, pois acho que temos material suficiente. Infelizmente quase todos aqui são voluntários (trabalham em outros empregos) e nos mantemos com uma vaquinha ainda desorganizada.
Para fazer isso teríamos que colocar alguém por conta de selecionar os artigos (organizadores), e principalmente correr de patrocínio. O que não é difícil, pois uma publicação dessas pode ser feita com pouco mais de mil reais, se fizermos a arte nós mesmos.

Para conseguir, precisamos melhorar nossa organização… O que estou tentando fazer. Mas precisamos também de mais estagiários, o que significa uma vaquinha maior ou procurar um patrocinador. O que também demanda tempo…
E eu que estou mais à frente hoje, estou bem cansado com esse turno dobrado. Mas estou tentando me organizar para pensar o futuro.
Por falar nisso, será que vc e o Heldo não gostariam de nos ajudar (sem qualquer compromisso) como colaboradores ou editores.
Não precisa fazer nada especificamente que vcs já não fazem.
A idéia é apenas colar novas notícias do interesse de vcs (se quiserem), fazer comentários (ganhariam uma foto como nós) e participar de nossos grupos de discussões onde falamos sobre os passos para nosso desenvolvimento.
não há qualquer compromisso ou cobrança. Todo mundo aqui é totalmente voluntário e nunca pedimos para fazerem nada. é tudo espontâneo.
o que acham?
abraços

#24 Comment By Heldo Siqueira On 4 março, 2008 @ 11:29 am

Olá

Primeiramente, não posso aceitar os louros sobre a frase da teoria econômica e a televisão. Na verdade, no período que estive estudando em Salvador, tive aulas com o João Damásio e ele falava que quando criança, achava que o sinal da televisão vinha junto com a energia elétrica pelo fio. Afinal, quando a tv estava desligada não possuía sinal. No final das contas, para ele que só assistia não fazia nenhuma diferença de onde vinha o sinal…

Depois gostaria de dizer que me sinto muito lisonjeado por saber que algumas pessoas apreciam o que eu escrevo. Gosto muito das discussões e sempre quis um espaço (como é esse) para discordar de algumas barbaridades que ouvimos por aí. Na verdade, me sentiria muito satisfeito de poder colaborar, entretanto, dificilmente poderia editar, pq não faço a mínima idéia de como se faz isso…

No mais, preciso saber os assuntos e o tipo de colaboração que poderia dar. (meu e-mail está aí pra isso)

Abraços

#25 Comment By Rodrigo Loureiro Medeiros On 5 março, 2008 @ 10:50 am

O debate está ótimo neste post. Creio ser importante manter o debate no campo da economia política, em torno das políticas de pleno emprego e do social-desenvolvimentismo, tomando os devidos cuidados com “as crises de plantão” veiculadas pela mídia. [2]

Um abraço,

Rodrigo L. Medeiros


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[2] : http://desempregozero.org/2008/02/29/renascimento-desenvolvimentista-e-integracao-economica-na-america-latina/

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