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A Vale nos vale?
Posted By Imprensa On 20 fevereiro, 2008 @ 5:01 pm In Desenvolvimento,O que deu na Imprensa | No Comments
Lúcio Flávio Pinto, jornalista
Adital [1], 19/02/2008
O Pará é uma das bases do enriquecimento da Vale do Rio Doce e do seu futuro. Mas não consegue partilhar os benefícios da empresa. Ela cresce cada vez mais, enquanto o Estado segue em rota oposta. Há como conciliar os
dois sentidos ou estamos condenados a ser um detalhe na grandeza da
corporação?
Quando a mina de Carajás começou a produzir, em 1984, cada tonelada de
minério valia 15 dólares. Até que a China entrasse vorazmente no mercado
internacional, na passagem do milênio, modificando de forma tão drástica o
perfil do setor, o preço do produto nunca fora além de US$ 25. Hoje, o rico
minério de Carajás embarca no porto da Ponta da Madeira, em São Luís do
Maranhão, a US$ 50, mas chega à China a US$ 140. O frete marítimo, de US$
90, é quase o dobro do valor de produção do minério e do frete terrestre,
para transportá-lo pelos quase 900 quilômetros da ferrovia de Carajás.
Sem o “fator chinês”, cuja dimensão nenhum futurológo pôde prever, os 100
milhões de toneladas que a Companhia Vale do Rio Doce extraiu no ano
passado da melhor mina de minério de ferro do planeta (de um total de 300
milhões de toneladas de sua produção) lhe renderiam, numa hipótese
provável, 2 bilhões de dólares. Mas a empresa faturou em 2007, só em
Carajás, como mineradora de ferro, US$ 5 bilhões brutos (sua receita global
deve ter superado US$ 32 bilhões). No entanto, quanto arrecadou de frete,
através da sua empresa de navegação? Certamente mais do que como
mineradora. Os números exatos, porém, ninguém conhece. Essa é uma
informação que a Vale não gosta de partilhar com a opinião pública.
Mais de 30% da produção de ferro de Carajás vai atualmente para a China.
Incluindo o Japão, a Ásia é o destino de quase 60% dessa montanha de
minério, transferida entre mares de um continente para outro. Nesse caso, o
valor do frete asiático ultrapassa em 10% os US$ 5 bilhões de receita bruta
da Vale com a venda do minério de Carajás. Parte considerável desse valor
entra para os cofres da ex-estatal, através da sua própria empresa de
navegação, que trocou de razão social provavelmente para permanecer à
sombra da holding. A outra parcela é paga a terceiros. Admitindo-se, para
efeito de raciocínio, que o frete médio para os 40 milhões de toneladas
restantes da produção de Carajás, destinada principalmente à Europa,
represente um terço do custo asiático, o transporte internacional de
minério ainda movimentará mais US$ 1,5 bilhão. Conta final dos fretes de
Carajás: uns US$ 8 bilhões.
Somadas as duas contas, só o minério de ferro de Carajás representou, no
ano passado, 13 bilhões de dólares. Quanto desse valor ficou para o Estado
do Pará? Se forem incluídos na avaliação itens como a massa de salários, a
compensação financeira, o royalty e compras locais, a percentagem pode ir a
algo próximo de 10%, se tanto. O índice podia crescer significativamente se
a Vale pagasse ICMS, do qual foi poupada pela nefanda lei Kandir (por
coincidência, entrou em vigor no ano da privatização da CVRD), que
desonerou os exportadores de matérias primas e produtos semi-elaborados. E
subiria muito mais se, no estabelecimento de algum equilíbrio entre a
empresa e o Estado, fosse considerado como parâmetro o PIB do minério de
ferro.
O que a Vale está deixando em território paraense é uma pequeníssima parte
da riqueza que o Pará lhe possibilita alcançar. Ainda mais se considerados
os outros bens minerais que a empresa já está explorando ou vai começar a
explorar (e em escala aceleradamente intensificada) em Carajás: cobre,
níquel, ouro e manganês, que, somados, em pouco tempo, ultrapassarão o
valor da conta do minério de ferro, se forem destinados a mercados de boa
receptividade. Considerados ainda a bauxita, a alumina e o alumínio, o Pará
é o reduto por excelência da diversificação que a Vale busca para sair da
dependência do minério de ferro, ainda a sua principal mercadoria.
O futuro da Vale tem sua matriz no Pará, mais do que em qualquer outro
Estado brasileiro e qualquer das regiões do mundo nas quais a empresa já se
fixou (Canadá, Moçambique e Indonésia). Depois de ter adquirido em 2006 a
canadense Inco, dona da maior reserva de níquel e segunda maior produtora
desse metal, por 19 bilhões de dólares (o maior negócio já feito por uma
empresa da América do Sul), a Vale está se propondo um lance de valor mais
de quatro vezes superior (entre US$ 80 bilhões e US$ 90 bilhões): a compra
da anglo-suíça Xstrata, a sexta maior mineradora do mundo, com presença
forte em cobre, níquel e carvão. As jazidas de cobre e níquel de Carajás
deverão contribuir bastante para colocar a Vale no topo do ranking
internacional dessas substâncias, em associação com os novos depósitos
adquiridos em outros países pela companhia.
Desta vez, ao que parece, a opinião pública está mais atenta do que durante
a operação com a Inco. Mas não parece tão bem informada para avaliar
adequadamente o significado desse negócio. Apesar das declarações
tranqüilizadoras do presidente da Vale, Roger Agnelli, sugerindo que sua
empresa já tem porte suficiente para encarar um desafio internacional de
tal envergadura, deve-se recear pela evolução no grau de desnacionalização
da antiga estatal. A característica original dessa desnacionalização não é
a perda do controle formal da empresa, já que, na pior das hipóteses, as
ações ordinárias representarão metade do capital total da monstruosa
corporação que resultaria da simbiose entre a Vale e a Xstrata, com valor
de mercado batendo próximo de US$ 200 bilhões. O controle nominal do
capital continuaria com o fundo de previdência Previ (dos funcionários do
Banco do Brasil), o Bradesco e o BNDES.
Alívio para os nacionalistas? Só para eles. Um olhar mais rigoroso sobre os
papéis evidenciará de imediato que a Mitsui, mesmo sendo uma compradora de
minério da Vale, passou por sobre as normas da desestatização e hoje tem
seu naco de ações ordinárias, que lhe conferem participação nas decisões da
empresa. O Bradesco, principal agente da modelagem da venda, em 1997,
também transformou em pó as salvaguardas do edital de alienação e hoje é o
segundo maior acionista. E o Bradesco, através de sua cria de maior
sucesso, Roger Agnelli, fez da criatura sua imagem e semelhança. A Vale
está se tornando uma típica paper company dos novos tempos, entidade de
marca mais financeira do que econômica, apesar de seus volumosos ativos
materiais.
O significado desse novo perfil (de velha conformatura, mas com ênfase
original) pode ser aquilatado pelas aventuras do empresário Eike Batista, o
alquimista do papel. Ele usa uma fórmula-padrão: junta informações
privilegiadas, recruta gente estrategicamente situada, tirando-a de seus
empregos com salários vantajosos e participação na receita, e investe como
um bólide em setores de risco – mas de futuro – para aplicar golpes de
audácia fantástica. Em um ano criou uma empresa de mineração e a está
vendendo à Anglo American por incríveis US$ 5 bilhões, 50% a mais do que o
valor de compra (US$ 3,2 bilhões) do controle acionário da CVRD, que hoje
vale US$ 140 bilhões.
Se a MMX é pouco mais do que papel (sua única jazida real está no Amapá),
por que a Anglo se dispôs a gastar tanto? Provavelmente para conquistar
posições no país (ainda) sede da Vale, justamente a empresa que a destronou
do segundo lugar dentre as maiores mineradoras mundiais. Seu foco está na
infraestrutura, que poderá montar com o controle de uma empresa de grande
potencial, e na detenção de informações privilegiadas.
A Vale não apenas tem jazidas valiosas no Brasil: possui uma logística sem
pararelo em qualquer outro país. Essa rede de transporte e de energia só
pôde ser formada graças à sua condição de empresa estatal. Quando foi
privatizada, esse fator foi equivocamente considerado circunstancial e
sub-avaliado, como todo processo de privatização, uma das chagas abertas no
coração dos interesses nacionais pelo governo do príncipe Fernando Henrique
Cardoso, nosso tardio déspota esclarecido.
A desnacionalização, camuflada, mas poderosa, vem a reboque dessa teia de
engrenagens financeiras, tecida por personagens como Agnelli em gabinetes e
bolsas espalhados pelo planeta, sem muita consideração por sedes
territoriais e governos nacionais. Quando comprou a Inco, por pressão do
governo canadense, a Vale cedeu o poder decisório sobre o níquel, que agora
está no Canadá. Apenas transitoriamente? É o que a Vale declara, mas por
enquanto não pode oferecer como garantia mais do que palavras. De fato,
Carajás passou a ser um elo da engrenagem do níquel comandada a partir do
Canadá.
O mesmo, em escala multiplicada, poderá acontecer com a incorporação da
Xstrata, se a compra vier a se consumar. Só que, por seu tamanho, a
operação será ainda mais intrincada. Dos 80/90 bilhões de dólares de que
precisará, a Vale já tem a garantia de um consórcio de bancos para US$ 50
bilhões. Espera amealhar US$ 30 bilhões com a troca de ações preferenciais
com os acionistas da Xstrata para manter seu endividamento num valor
aceitável pelas agências de risco (que seria em torno de US$ 35 bilhões,
mas deverá estourar esse limite). O restante virá por outras vias (o BNDES
de sempre, agora ainda mais disposto, e geração de caixa).
Os jogadores de Wall Street já têm dois terços das ações preferenciais, que
representam 40% do capital global da Vale (e chegarão a 50% se a transação
com a Xstrata for realmente realizada). Ao invés de pulverizar suas ações
no Brasil, tornando-se uma empresa do tal capitalismo popular, a Vale será,
cada vez mais, um braço das paper company e seus boys de ouro. O que elas
querem? Dividendos e mais dividendos, negócios e mais negócios, preços
sempre mais elevados, lucros e lucros.
Essa sofreguidão é tanta, ao sabor das selvagens regras do mercado
financeiro, que cada notícia de compra de empresa pela Vale é seguida por
uma queda das suas ações. É o reflexo da expectativa de redução do
pagamento de dividendos, que todo investimento de expressão provoca a curto e médio prazo. Perder posição na classificação de risco afeta a imagem da
companhia em Nova York, a principal bolsa de comercialização de seus
papéis, onde a Vale foi a empresa estrangeira mais negociada no ano
passado.
Se montanhas de commodities continuarão a ser sugadas do Pará no rumo da
China insaciável, deixando buracos no ponto de origem, isso é detalhe, ou
circunstância. É nisso em que nos estamos a transformar – e a reduzir. Não
é um destino glorioso, nem justo. Mas o tempo passa e a possibilidade de
reverter esse quadro se torna mais remota, inclusive porque os patamares
elevados de preços não se manterão e a crise, mesmo com a poderosa demanda chinesa, está batendo à porta. Quando se for abri-la, ela revelará uma
surpresa: o que podia ser uma fonte de riqueza será uma forma de pobreza.
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