A realidade das contas externas
Escrito por Imprensa, postado em 28 dEurope/London fevereiro dEurope/London 2008
Rolf Kuntz
O Estado de S. Paulo
Relaxem, têm dito analistas de comércio exterior. O aumento das importações, argumentam, reflete o crescimento econômico e a expansão dos investimentos. Há muita compra de máquinas e equipamentos e isso resultará em maior eficiência. A redução do superávit comercial é um fenômeno saudável, portanto, e não há motivo para preocupação. E ninguém deve perder o sono, acrescentam, por causa do déficit em conta corrente. O buraco, ainda pequeno, é coberto pelo investimento direto e a posição externa do País é sólida. Afinal, com reservas maiores que a dívida, onde pode estar o perigo? Toda essa conversa seria mais tranqüilizante, no entanto, se duas ou três luzinhas, nesse quadro, não piscassem como sinais de alerta.
A primeira e mais visível dessas luzinhas é o descompasso entre o crescimento das importações e o das exportações. Nos 12 meses terminados em janeiro, as vendas externas, US$ 162,94 bilhões, foram 16,8% maiores que as do período anterior. As compras, US$ 124,49 bilhões, cresceram no mesmo intervalo quase o dobro, 33,3%.Esse foi o resultado geral do período. Na ponta, o descompasso tem aumentado. Na comparação de janeiro de 2008 com janeiro de 2007, as exportações cresceram 20,9%, enquanto as importações se expandiram 45,6%. Como conseqüência, o superávit acumulado em 12 meses diminuiu 16,6%, mas o saldo de janeiro foi 62,48% menor que o de um ano antes. Os números de fevereiro confirmam a tendência: até dia 24, o saldo, US$ 976 milhões, foi 56,7% inferior ao de fevereiro de 2007. A erosão do superávit, portanto, vem ocorrendo velozmente e é preciso muito otimismo para atribuir esse fato apenas ao crescimento econômico e à boa disposição de empresários dispostos a reequipar suas fábricas.
A composição das importações é outra luzinha relevante. Bens de capital, de fato, são a categoria com maior crescimento na pauta de compras. Em janeiro, o valor das máquinas e equipamentos comprados no exterior foi 56,9% maior que o de um ano antes. Mas a importação de bens de consumo também tem crescido velozmente. O valor gasto no mês passado foi 48,7% maior que o de janeiro de 2007. As compras de bens de consumo duráveis superaram por 92,4% as de um ano antes, e, nesse conjunto, a evolução mais notável foi a dos automóveis, com variação de 271,7% entre as duas pontas. Não se trata, portanto, apenas de importações crescentes por causa das compras de bens de capital.
Tudo isso é saudável, dizem os mais otimistas, porque a concorrência externa força os produtores nacionais a buscar maior eficiência e eles enfrentam o desafio com a importação de máquinas e equipamentos. Mas a conversa a respeito de competitividade soa um pouco falsa nessa situação. O efeito do câmbio – e não só do crescimento econômico – é indisfarçável.
Os produtores de um país, dizem alguns, não devem depender só da relação cambial para competir globalmente. O argumento parece forte. Alemanha e Japão foram altamente competitivos, durante longo tempo, apesar de suas moedas valorizadas. Mas a comparação com o caso brasileiro é discutível.
É preciso, para uma análise realista, levar em conta a diferença entre o poder de competição de um setor produtivo e a eficiência geral de um país. Essa diferença é considerada nas comparações produzidas anualmente pelo Fórum Econômico Mundial e por outras entidades internacionais. O resultado é conhecido: no caso do Brasil, as principais desvantagens comparativas não estão no interior das empresas, mas no ambiente onde operam. Fábricas e fazendas podem ser competitivas, dentro de seus muros ou de suas cercas, mas ficam em desvantagem quando seus produtos são encarecidos por tributos de baixa qualidade, custos de transporte e de segurança e inúmeros custos de transações, como aqueles decorrentes do emaranhado burocrático.
No Brasil, o câmbio valorizado torna as empresas muito mais vulneráveis a todos esses fatores. Não tem sentido, portanto, desqualificar a discussão sobre o câmbio e cobrar dos empresários maior preocupação com a produtividade, quando a ineficiência está associada principalmente a fatores fiscais, institucionais e de infra-estrutura. A reforma tributária, essencial para a remoção de alguns desses obstáculos, está muito atrasada e sua discussão vai mal. O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) continua emperrado e os investimentos na infra-estrutura continuam lentos. Quando tudo isso é levado em conta, é possível, mesmo, relaxar e festejar a rápida erosão das contas de comércio e serviços do balanço de pagamentos?










