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A “CENSURA-PRÉVIA” DO CARRO ALEGÓRICO SOBRE O HOLOCAUSTO FOI UM DESRESPEITO E UMA OFENSA

Posted By Gustavo On 10 fevereiro, 2008 @ 12:31 pm In CULTURA,Desenvolvimento,Gustavo Santos,Política Brasileira | 3 Comments

Coloco abaixo um post de Lígia Frias do blog A Lanterna de Psique [1]. E comento abaixo.

É DE ARREPIAR! – COMENTÁRIOS AO TEXTO ” O LADO NEGRO DA FORÇA – SARAVÁ E MAZEL TOV ” DE SÉRGIO BESSERMAN

Caro Sérgio, concordo com você: não foi censura. Estamos em uma democracia e o que ocorreu foi o acolhimento, pela justiça, de um pedido em que se alegou “vilipêndio ao sentimento religioso”. Respeito. Ação é realmente um direito abstrato e incondicionado.
O que entristece é constatar que a democracia no Brasil é da minoria, não da maioria. Serve aos que tem força política e $. Neste contexto, a discussão sobre a proteção ao direito das minorias fica comprometida.
No Brasil, são os milhares de descendentes de negros caçados por portugueses na África, separados de suas famílias e trazidos para as senzalas do Brasil (tão bárbaras qto os campos de concentração) os excluídos. Talvez, até, eles tenham passe-livre em alegorias e alas carnavalescas por encontrar no evento a sua maior possibilidade de expressão – é onde podem protestar pelo tratamento indigo e por sua exploração. A minoria dominadora, no entanto – com embasamento histórico, claro – associa o evento à balbúrdia e o protesto perde a força. Conveniente…
Como efeito colateral ter-se-ia que qualquer menção a fato histórico ficaria com um tom de “brincadeira”, mas, incrívelmente, isto não acontece… Lembro-me bem de um ano em que aquela menininha que gritava queimada depois do bombardeio de Napalm foi lembrada por um destaque em cima de um carro alegórico que causou emoção em toda a platéia. Quantas escolas, neste ano, lembraram o terror em Hiroshima e nem por isso a comunidade nipônica se sentiu ofendida?
Me incomoda a manutenção da posição que esquece massacres como o de Sabra e Shatila e santifica o Holocausto Judeu. Direitos humanos são para todos, não para um grupo, seja ele qual for: judeus, palestinos, negros, turcos, árabes, índios, brancos, cristãos, pagãos, ateus, mulçulmanos, hutus – todos!
Concordo que a faixa sobre o carro poderia ser uma saída honrosa e evitaria o mal-estar, mas, de todo modo, seria direcionadora. Concordo até que a estética do carro poderia não ser a melhor para demonstrar indignação com os fatos históricos… Mas também acredito e defendo o senso crítico de pessoas em pleno séc. XXI!
Não tenho dúvidas de que a exaltação ao Nazismo ou o desrespeito às vítimas do Holocausto seriam violentamente reprimidos pela multidão na Sapucaí e pelos telespectadores do desfile! Na história recente do nosso país os procedimentos de tortura e censura foram experimentados e não agradam a nenhum brasileiro. Nem um, nem outro. Por isso a revolta geral. De um lado e de outro. O problema é que ninguém pôde avaliar… Ficamos na suposição do que seria…
Há quem diga ser melhor assim já que, se cometida, a apologia ao crime poderia ter consequências devastadoras. É verdade! Na pior das hipóteses, no entanto, duvido que um carnavalesco colocaria em jogo um ano de preparação somente para adotar uma postura anti-semita. Ok, poderia ser para provar que a sociedade brasileira é hipócrita, mas quem ainda não sabe disto?
Acho que a evolução da humanidade acontece na medida em que se reconhece o outro como igual. Por isso, respeito o pedido feito e a decisão tomada, ainda que a ache equivocada. Eu gostaria, no entanto, de poder julgar o bom ou o mal gosto do carnavalesco, assim como julguei o bom-senso dos Diretores de ” A Lista de Schindler” e, por que não, já que estamos falando de religião, de “A Paixão de Cristo” e de ” A última Tentação de Cristo”. Mas não pude…
Afinal, como disse Caetano e como provaram as pesquisas genéticas: “eu sou neguinha”! Assim como todo o ser-humano deste planeta é, apesar de alguns não acreditarem nisso…

Lígia,

concordo plenamente! Entretanto, você foi muito branda. A verdade crua dessa história é a seguinte:

Isso é um DESRESPEITO ao CARNAVAL, AOS DESFILES À SAPUCAÍ E AO POVO HUMILDE DO PAÍS. É óbvio e consensual que o carro NÃO ERA ANTI-SEMITA. Ninguém sequer aventou essa hipótese.

Diziam que o problema era que poderia recordar as feridas de quem sofreu com o holocausto. Poxa, quantos sobreviventes estariam vendo o desfile? Será que eles não viram essas imagens umas mil vezes? Claro que sim!

E mesmo que algumas pessoas não gostem de ver carros alegóricos com temas tristes ou pesados, não há motivo para proibir. Como a Lígia disse no texto dela acima, isso já aconteceu diversas vezes no carnaval. Não é incomum.

Eu mesmo já vi vários filmes, documentários, programas de televisão, peças de teatro, exposição de fotos e pinturas sobre o holocausto. E ninguém procurou fazer “censura prévia” ou qualquer outro juridiquês que se queira usar para designar o que de fato aconteceu.

Por que isso justamente com um simples carro do desfile que ficaria alguns segundos às vistas das pessoas?

Há pessoas que pensam: “mas no carnaval não pode”.

Como assim?? Por que não??

Há quem pense: “o carnaval é uma brincadeira. Não é lugar para tratar de assuntos sérios como o holocausto”.

Quero deixar claro que respeito e compreendo perfeitamente que os judeus não desejem ver essas cenas no carnaval. Eles estão no direito deles. Meu problema é com decisão da justiça brasileira.

Uma parte mais conservadora da elite brasileira (os judeus não, a elite em geral) ainda acha que carnaval é distração de adolescentes, “pretos” e “pobres”. Não é expressão artística séria. Não deve tratar de qualquer assunto.

Alguém pode dizer que não foi isso que a justiça alegou, eles apenas buscaram proteger as feridas de quem viveu aquela tragédia.

Pode ser que alguns pensaram isso. Outros não tenho certeza. Mas não houve qualquer intenção de ofender, o carnavalesco apenas quis expressar sobre o holocausto. Tenho certeza que ele também abomina esse evento histórico. Como todos nós. Estava no seu direito. A arte choca às vezes.

Até imagino a juíza recebendo a informação: “Querem falar sobre o Holocausto no Carnaval??? Como assim? Quem eles pensam que são?!! Vou acabar com essa palhaçada agora!!”

Será que pela cabeça dela, passou frases semelhantes? Não posso saber, acredito que não, afinal de contas ela é uma magistrada qualificada.

Mas como ela teve o direito de pensar como as pessoas sentiriam ou interpretariam a partir da visão do carro alegórico. E teve o PODER de VETÁ-LO A PRIORI. Eu também tenho o direito de imaginar o que ela poderia ter pensado. Ou não?

Não acho que ela pensou assim pelo fato de ser ela própria judia. Certamente que não. A culpa não é dos judeus, que é um povo tolerante e que já foi muito perseguido e que sempre soube dar grandes presentes artísticos e científicos para a humanidade. Eles estão defendendo as questões deles. Estão no livre e democrático direito de reclamar. O problema está na justiça brasileira, na justiça carioca, que tão prontamente respondeu a essa demanda. Uma agilidade realmente incomum…

Por que a justiça brasileira acata esse tipo de demanda? Porque está arraigada em boa parte de seus membros um primitivo PRECONCEITO COM O CARNAVAL.

Todos que concordaram com essa “censura prévia”, que foram muitos e de todas as religiões, no fundo não tem respeito pelo carnaval. Não respeitam por que? Porque é uma tradição e expressão cultural que ainda está muito associada a jovens, “pretos” e “pobres”.

No fundo, eles acham que “preto” e “pobre” são quase como crianças, devem ser TUTELADOS. Não tem o direito de expressar como quiserem e de assistirem o que quiserem. Mesmo estando dentro da lei. Mesmo não cometendo qualquer ofensa, preconceito ou desrespeito. Não houve ofensa, preconceito ou desrespeito.

Por que não pedem para “censurar” as peças de teatro, cinema, etc, sobre o tema?

Por que fazer carros alegóricos descrevendo bandeirantes caçando índios ou negros recebendo chicotadas ou em navios negreiros não é ofensa, preconceito ou desrespeito?

Se uma tribo indígena resolvesse “censurar” um carro alegórico que mostrasse um bandeirante que foi caçador de índios, todo mundo ia rir da cara deles. Inclusive a juíza que estivesse de plantão no carnaval, mesmo se ela fosse filha de índios. Ainda que ela fosse negra. O mesmo aconteceria se algum movimento negro resolvesse “censurar” um carro alegórico que fosse desfilar com negros sendo chicoteados. As pessoas iriam dizer que essa história de “politicamente correto” é mesmo uma chatice.

Por que tratamentos TÃO DIFERENTES? Será que é “porque isso é assunto de carnaval, holocausto é coisa séria”. Como se o holocausto dos índios e dos negros não tivesse sido muito, mas muito maior do que o dos judeus.

Os índios foram completamente exterminados, os negros foram massacrados e humilhados. Suas tradições e religiões foram completamente destruídas. Desapareceram para sempre. Sobram alguns resquícios que eles tentaram fazer sobreviver escondendo no sincretismo religioso. Ainda assim foram perseguidos, desrespeitados, vilipendiados e sempre que possível foram e são alvo de galhofa. Tradição de “índio” e “preto” é piada, é ridículo, é sempre desrespeitada. Sobraram assim a seus descendentes poucas tradições, poucas coisas para se dizer: “isso é meu”, “isso é da minha gente”, “dos meus antepassados”. Entre elas o carnaval.

Mas até por isso, o carnaval continua sendo desrespeitado, como nessa decisão da juíza. Tradição de “preto” e pobre pode ser passada por cima sob qualquer alegação. Será que “eles não saberiam como deve se expressar sobre o holocausto”? “Não se sabe como eles interpretariam o carro alegórico, não é?”

Mas isso é um assunto muito mais sério do que imagina essa juíza.

A identidade individual da maioria dos brasileiros e da própria nação está muito vinculada ao carnaval. Quantos namoros, casamentos e famílias nasceram a partir de um fortuito encontro de carnaval? Quantos momentos mágicos vivemos na adolescência e na juventude brincando o carnaval? E na infância, usando fantasia ou participando de alguma brincadeira ou costume de carnaval? Quantas boas lembranças temos guardadas em nossos corações de momentos vividos nessa festa?

Quem está ofendido e desrespeitado agora sou eu, que sou brasileiro e acho que o carnaval é do nosso povo (de todas as religiões, inclusive da judaica) e merece respeito como qualquer outra expressão artística, popular ou religiosa de qualquer povo. O carnaval é nossa tradição. Está em nossa alma, em nosso sangue. É uma brincadeira muito séria!

E isso não tem nada de anti-semitismo e nem de nacionalismo. É anti-preconceito. Anti-racismo. Porque a origem desse desrespeito ao carnaval tem algo de racista sim.

Estou apenas defendendo que o carnaval é uma forma de expressão como outra qualquer que NÃO DEVE SER TUTELADA, assim como o teatro, o cinema e a literatura.


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3 Comments To "A “CENSURA-PRÉVIA” DO CARRO ALEGÓRICO SOBRE O HOLOCAUSTO FOI UM DESRESPEITO E UMA OFENSA"

#1 Comment By estrela On 12 fevereiro, 2008 @ 8:30 pm

acho que também é importante salientar que a censura é uma forma de sabotar a liberdade de expressão que foi defendida e evidenciada no momento em que foi pensada a constituição cidadã como resultado de todo contexto político que se viveu na década de 70 e de forma mais branda no início da década de 80.

e como foi defendido por vocês, e o que mais me impressiona, é que esta foi a proibição de uma manifestação artística, o que aponta um verdadeiro retrocesso do que pensávamos estar consolidado.

Este é um fato que devemos dar total atenção, não podemos deixar passar despercebido, pois é se aproveitando da pouca importância dada a fatos como este que o nazismo está ressurgindo na Europa, e por mais absurdo que pareça, com promessas de intensificação.

#2 Comment By Rodrigo Loureiro Medeiros On 12 fevereiro, 2008 @ 10:09 pm

Caro Gustavo

O Judiciário cumpriu com o seu papel. Seria muito triste ver o carro dos corpos sendo empurrado, um figurante eufórico transvestido de Hitler e pessoas animadas saudando o desfile na avenida, pois seria carnaval.

Seria tudo muito confuso. Compreendo perfeitamente a posição da proibição. O carnaval é uma festa de inversões, o real se confunde com o mágico e o trágico com a comédia. Você deve ter lido ‘Carnavais, malandros e heróis’, do Roberto DaMatta. Trata-se certamente de uma importante festa popular.

Sou da opinião de que o Poder Judiciário agiu corretamente.

Um abraço,

Rodrigo L. Medeiros

#3 Comment By Gustavo Santos On 12 fevereiro, 2008 @ 11:36 pm

Rodrigo,
Entendo que essa seja uma questão razoavelmente polêmica. De fato, me parece que seria uma cena de extremo mal gosto e até de mau humor. Mas obviamete não cabe ao judiciário julgar mal gosto, deixa para o povo e para a imprensa fazer isso.
De fato, não há base legal para a decisão da juíza. Foi um abuso interpretativo da lei. Não houve ofensa e nem preconceito do carnavalesco. A alegação (única possível no sistema legal brasileiro) foi de vilipêndio ao sentimento religioso. Isso não tem cabimento. Pois não há referências religiosas. Mas sim a um fato histórico terrível para TODA a humanidade. Mesmo porque não atingiu só os judeus, mas também ciganos, rebeldes das resistências nacionais, prisioneiros de guerra e comunistas. E mostrar cenas deprimentes é até uma atitude que leva a sociedade a repudir tal fato histórico e contruibui para que ele não se repita.
Como nas peças, literatura, música erudita, dança erudita e cinema feitos sobre o tema o mesmo acontece. O problema não é a cena em si, MAS O CARNAVAL.
No carnaval não pode, porque o carnaval não é lugar para isso.
“Preto” e “índio” levando chicotada pode, holocausto não pode.
Ora, é o judiciário que decide o que pode e o que não pode no carnaval?
isso é um claro preconceito com relação aos desfiles de escola e ao samba como expressões artísticas.
Seria uma boa oportunidade de lembrar o quão triste foi o holocausto e quanto nós brasileiros repudiamos tudo aquilo.
Mesmo porque nada neste planeta é mais ANTI-NAZISTA DO QUE O CARNAVAL. Hitler ficaria apavorado no meio daquela confusão. Perceberia o quão ridículo ele era.
mas essa é minha opinião. Ninguém precisa concordar. Compreendo claramente quem acha que o carro não deveria desfilar. Mas o carnavalesco estava dentro da lei, tinha o direito de usar essa temática no carnaval. Que o público julgasse o mal gosto.
abraços,
Gustavo


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