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Redução dos juros e manutenção do crescimento econômico

Posted By NOSSOS AUTORES On 16 janeiro, 2008 @ 2:25 pm In Fernando Ferrari,Política Econômica,Todos (nossos autores) | 2 Comments

Fernando Ferrari Filho
Professor titular da UFRGS e pesquisador do CNPq
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Em 2007, a boa performance dos nossos principais indicadores macroeconômicos, tais como superávit comercial ao redor de US$ 40,0 bilhões, reservas cambiais acumuladas próximas a US$ 185,0 bilhões, taxa de desemprego (média entre janeiro e novembro) de 9,5%, estimativas de um crescimento do PIB em torno de 5,2% e taxa de inflação, IPCA, de 4,46%, fez com que as Autoridades Monetárias (AM) e os analistas econômicos passassem a vislumbrar um ciclo de crescimento econômico sustentado para o Brasil.

Será que a economia brasileira encontra-se em um círculo virtuoso capaz de induzir o crescimento sustentável a médio e longo prazos? Em nosso ponto de vista, enquanto a economia brasileira continuar apresentando elevadas taxas de juros, baixas taxas de câmbio e alta carga tributária, tendo uma relação custo/benefício perversa, o que acaba mantendo as taxas de investimento deprimidas – atualmente, a relação formação bruta de capital fixo/PIB é da ordem de 19,5% ao ano – é pouco provável que tenhamos um cenário monetário-cambial-tributário propício para assegurar um crescimento robusto e consistente do País. Se acrescentarmos ao referido cenário as perspectivas tanto de arrefecimento da economia mundial, face à crise imobiliária da economia norte-americana, quanto de racionamento energético, tudo levar a crer que há um excesso de otimismo de parte das AM e dos analistas econômicos. Para assegurarmos a estabilização macroeconômica – conforme Keynes (The General Theory of Employment, Interest and Money, Capítulo 24), entendida como sendo o binômio estabilidade de preços e pleno emprego – e crescermos acelerada e sustentavelmente, a política macroeconômica deve ser articulada de forma a reduzir a taxa de juros – diga-se de passagem, sistemática que está sendo implementada, ainda que timidamente, pelo Banco Central (BC) desde 2006 -, tornar a taxa de câmbio competitiva – para tanto, administrar o câmbio em conformidade com as regras de um sistema crawling-peg e adotar mecanismos de controle de capitais que coíbam a entrada de capitais especulativos são fundamentais – e equilibrar o setor público – nesse particular, reformas previdenciária e, principalmente, tributária não podem ser adiadas ou ser articuladas de maneira paliativa. Em outras palavras, políticas monetária e fiscal contra-cíclicas, política de desvalorização cambial e reformas institucionais são imprescindíveis.

Esperar dos economistas e dos analistas econômicos consenso em torno da estratégia de política macroeconômica acima apresentada é improvável (é mais fácil haver um consenso em torno da necessidade de implementar reformas institucionais, por mais que os fins sejam distintos: por um lado, para os economistas e analistas econômicos que compartilham da idéia de Estado Mínimo, as reformas do Estado são fundamentais para aprofundar as reformas orientadas para o mercado; por outro, para os economistas heterodoxos, o equilíbrio do setor público é essencial para tornar o Estado solvente nos planos fiscal e financeiro, sendo capaz, assim, de estabelecer políticas públicas e sociais e criar um ambiente institucional favorável à realização dos investimentos privados).

Todavia, por mais que haja divergência acerca de qual deve ser a estratégia de política macroeconômica para atingir os objetivos de estabilização de preços e de crescimento econômico sustentável, para nossa surpresa, no momento em que a taxa de inflação do ano passado ficou somente 0,04% abaixo da meta estabelecida pelo BC, alguns economistas e analistas econômicos, preocupados com a inflação esperada para os próximos 12 meses, argumentam ser necessário elevar a taxa de juros para conter pressões de demanda e, por conseguinte, propõem que o BC eleve a taxa básica de juros, Selic, em um futuro próximo. Como é sabido, taxa de juros tem efeito transmissor sobre a inflação se, e somente se, ela é essencialmente de demanda, o que não parece ser o caso da nossa presente inflação. Por quê? Por um lado, porque entre 2003 e 2007, caso as previsões do PIB para esse último ano sejam confirmadas, a economia terá crescido em média 3,7% ao ano. Se não bastasse o baixo crescimento médio, a dinâmica desse crescimento tem mostrado uma tendência à la stop-and-go. Portanto, supor que tal crescimento, pífio e volátil, tenha atingido o crescimento de pleno emprego, o que ocasionaria pressão de demanda, é no mínimo duvidoso. Por outro, porque no ano passado a taxa de inflação, mais especificamente o IPCA que baliza o regime monetário de “metas de inflação”, foi inflada tanto pelo grupo de alimentos, devido ao choque de oferta agrícola em nível mundial (por exemplo, os produtos derivados da carne e da bacia leiteira elevaram-se substancialmente), quanto pela elevação dos preços das commodities internacionais, sejam minerais, sejam energéticas. Pois bem, diante desse contexto, elevar a taxa de juros não resolve os problemas da atual inflação brasileira. Ademais, propor a elevação da taxa de juros significa comprometer o esforço de ajuste fiscal – é importante mencionar que, até novembro do ano passado, a despeito de termos tido um superávit fiscal primário da ordem de 4,8% do PIB, o custo financeiro de rolagem da dívida pública consumiu cerca de 6,7% do PIB, fazendo com que o déficit nominal do setor público, excluída a previdência, fosse de 1,5%; diga-se de passagem, a economia do setor público, obtida através do referido superávit, representa a transferência de recursos da sociedade como um todo para os rentistas -, manter a taxa de câmbio valorizada e arrefecer o investimento.

Concluindo, para mantermos taxas de crescimento superiores a 5,0% intertemporalmente, conforme prevê o Programa de Aceleração do Crescimento, a continuidade da sistemática de redução da taxa de juros básica da economia brasileira é fundamental. Caso contrário, continuaremos fadados a depender da “poupança externa”, a ter câmbio valorizado, conviver com desequilíbrios do setor público … e crescermos à la “vôo da galinha”.

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2 Comments (Open | Close)

2 Comments To "Redução dos juros e manutenção do crescimento econômico"

#1 Comment By Rodrigo Medeiros On 16 janeiro, 2008 @ 6:49 pm

Prezado Fernando

Gostei muito do seu artigo. A CEPAL divulgou, em dezembro de 2007, os dados preliminares quanto ao ano que passou. Segundo consta, as taxas de ocupação da força de trabalho, população empregada sobre população economicamente ativa, variam entre 50% e 60% na região compreendida como América Latina e Caribe.

A crônica tendência inflacionária, o estrangulamento do balanço de pagamentos e a estrutural subutilização dos fatores de produção, diziam os cepalinos clássicos, são produtos históricos do padrão conservador de inserção da região no sistema econômico internacional. Quando se efetivavam políticas desenvolvimentistas na região, a rigidez dos seus sistemas organizacionais era testada. Os limites dos respectivos sistemas econômicos, por sua vez, rapidamente afetavam o balanço de pagamentos e o nível geral de preços.

Keynes foi uma importante influência para o pensamento de Raúl Prebisch. Entretanto, foi o empirismo o instrumento de política monetária adotado por Prebisch, no BC argentino, e por outros após a crise de 1929. Teoria Geral só seria editado em 1936.

Certamente reformas institucionais são necessárias para que o Estado brasileiro esteja em condições de engendrar respostas satisfatórias aos grandes desafios que vivemos. Quais e como operá-las é um desafio que a sociedade brasileira precisa encarar para que o nosso país se torne mais competitivo do ponto de vista econômico e democrático.

Cordialmente,

Rodrigo Loureiro Medeiros, D.Sc.

#2 Comment By Gustavo On 17 janeiro, 2008 @ 4:27 pm

Muito bom artigo!
De fato, se a taxa de juros não continuar caindo, não tem como sustentar a taxa de crescimento, neste cenário de aperto fiscal e valorização cambial.
abraços


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