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Por que me ufano do meu Brasil/Rio de Janeiro

Posted By Imprensa On 18 janeiro, 2008 @ 1:05 pm In Carlos Lessa,Desenvolvimento,O que deu na Imprensa,Política Brasileira | No Comments

VALOR – 16/01/2008

Carlos Lessa é professor-titular de economia brasileira da UFRJ.

Escreve mensalmente às quartas-feiras. E-mail: carlos-lessa@uol.com.br

Com este título, o Afonso Celso publicou um livro de sucesso e passou a ser o grande ingênuo do Brasil. Vou parafraseá-lo e, sem temor à ingenuidade, afirmar que me ufano do povo carioca colocar dois milhões de participantes na praia de Copacabana e mais um milhão nas outras praias da cidade, inclusive no piscinão de Ramos. Os antecedentes desta festa espetacular são o culto à Iemanjá, que tradicionalmente recebe flores nas águas das praias na passagem de ano, e alguns românticos que sempre fizeram questão de assistir o nascer do sol do primeiro dia do novo ano. Há umas décadas atrás, um hotel começou a queimar fogos. Em 2007, a prefeitura queimou 23 toneladas de fogos em diversas barcaças no mar.

É tradicional o índice zero de violência nesta festa que congrega um terço da população metropolitana do Rio, de todas as religiões, culturas, “tribos”, etnias etc. Em 2007, um imbecil não identificado disparou arma de fogo, e balas perdidas atingiram quatro ou cinco pessoas. O Rio não tem polícia nem estrutura de transporte adequadas para esta festa. Já vivi a passagem de ano em Times Square; Nova York reúne 600 mil pessoas e mobiliza a Guarda Nacional. Passei o Ano Novo uma vez em Florença e descobri que festejam jogando pela janela o que é velho – e eventualmente pesado – e disparam morteiros contra prédios vizinhos e janelas abertas; não fui para a rua, pois o Ministério da Saúde advertiu quanto aos riscos. Vivenciei a truculência da polícia francesa quando, em Champs Élysées, a população de Paris festejava a vitória da Copa do Mundo de Futebol.

A festa de Copacabana é o maior evento da cidade; não vou sublinhar seu óbvio efeito turístico. Em segundo lugar está desfile de Carnaval.

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O povo não toma conhecimento das declarações ministeriais, nem dos

balanços de bancos, nem dos indicadores financeiros e, festeja, porque

ama o lugar onde nasce

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Creio que a festa do Ano Novo, por ser de graça, superou a ida ao Sambódromo. Me ufano do povo carioca, que faz festa em qualquer lugar e em qualquer canto da cidade. Me ufano deste povo maravilhoso que, sem violência nem preconceito, converte tudo em festa. Quando a indústria cultural o expele da arquibancada, faz renascer o carnaval de rua, multiplica blocos, dá intensidade ao São João – hoje com mais de 700 quadrilhas – e, inclusive, está fazendo da Bienal do Livro um ponto festivo e de congraçamento.

O Brasil é o país da festa. O Rio de todos os Brasis faz a maior festa popular. Porém, são centenas de municípios que promovem festas de qualquer produto, de qualquer tradição e que, pelos mais prosaicos motivos, criam algum evento festivo para sua localidade. Em Belém do Pará, quase dois milhões de pessoas festejam o Círio de Nazaré. Não farei referência ao carnaval baiano, nem às festas de São João de Campina Grande e Caruaru. Lembro do magnífico Peão Boiadeiro e, para não deixar os gaúchos de fora, lembro a Festa da Uva e do Vinho (creio que pode surgir a do Suco de Uva). No Brasil, não é a festa que alimenta o povo, é a alma de um povo – que muitas vezes dispõe de pouco alimento – que cria e sustenta a festa. É o sofrido povo brasileiro que se socializa de uma maneira cordial e alegre, sem preconceito.

Algum estrangeiro poderia supor que o melhor desempenho da economia em 2007 tenha sido a fonte de otimismo renovado. Realmente, as manchetes registram “o melhor Natal da década”, os centros comerciais vendendo mais 10%, a Moody’s elevando a nota de Brasil, o ministro Mantega dizendo que o Brasil “está bombando” o mercado interno e a ministra Dilma anunciando que em 2008 “haverá um canteiro de obras” etc.

É verdade que o salário mínimo real vem crescendo (porém o salário médio não recuperou o nível de 1996). É verdade que foram criados milhões de empregos formais e a taxa de desemprego caiu para 8,5% (porém centenas de milhar de brasileiros estão migrando para o exterior em busca de futuro). É verdade que os lucros dos bancos brasileiros crescem vertiginosamente acima da massa de salários; é verdade que as vendas financiadas estão chegando ao automóvel em 70 prestações sem entrada (porém, o Dr. Meirelles, preocupado com a inflação, já congelou os juros). É verdade que a oposição extinguiu a CPMF e premiou todos os que manejam grandes massas de recursos monetários (porém, o ministro Mantega, que afirmou que não elevaria impostos, já elevou o IOF). O povo, sofrido e endividado, está bancando juros brutais escondidos nas prestações. Agora, com o IOF, irá pagar prestações mais elevadas.

O povo não toma conhecimento nem das declarações ministeriais, nem dos balanços de bancos, nem dos indicadores financeiros. Festeja porque ama o lugar onde nasce. Festeja porque consagra o lugar. Copacabana, a Princesinha do Mar do passado, é agora uma velha e respeitável dama. O povo faz a festa porque ama o Rio, com o mesmo sentimento que acompanha a torcida do time local na pelada com o bairro vizinho. Faz a festa com milhões de pessoas ou com uns poucos, no churrasquinho de asa de galinha e lingüiça na esquina do quarteirão aonde mora. É cordial e não violento. Se o banqueiro, o especulador, o diretor do Banco Central e o ministro de Estado quiserem vir à festa, serão bem recebidos e em nada serão cobrados.

O brasileiro faz a festa sob quaisquer condições. Afirma que “apesar de você amanhã há de ser outro dia”. Sabe que, “quem canta seus males espanta”. Recomenda, com sabedoria, “levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”.


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[1] PARA LESSA, NORDESTE SERÁ CALIFÓRNIA BRASILEIRA ( !! ): http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/01/para-lessa-nordeste-sera-california-brasileira/

[2] Não mergulhar de novo em armadilha: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/04/nao-mergulhar-de-novo-em-armadilha/

[3] O Brasil não vai escapar da inflação: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/07/o-brasil-nao-vai-escapar-da-inflacao/

[4] "O dólar acabou", avalia Carlos Lessa: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/09/o-dolar-acabou-avalia-carlos-lessa/

[5] Subestimar a crise: a retórica brasileira: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/10/subestimar-a-crise-a-retorica-brasileira/

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