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DR. PEDRO SARAIVA: COLUNISTA ” Eliane Cantanhêde ” COMETEU “EXERCÍCIO ILEGAL” DA MEDICINA
Posted By NOSSOS AUTORES On 18 janeiro, 2008 @ 10:12 am In Conjuntura,Eduardo Kaplan,Política Brasileira,Política Social | No Comments
Eduardo Kaplan Barbosa
A mídia vem tentando empurrar a idéia de que estamos vivendo uma epidemia de febre amarela no Brasil.
Luiz Carlos Azenha do blog Vi o Mundo [1] recebe carta de especialista no assunto. Ele diz que não há nenhum desvio do padrão de ocorrência da febre amarela observado há mais de uma década.
Qual o interesse por trás de notícias alarmistas?
Criar um estado de pânico na população?
Um palpite: a mídia continuará propagando uma pretensa epidemia até conseguir mandar todos brasileiros para uma fila de posto de saúde, buscando tomar uma vacina que só é recomendada para pessoas que entram em zonas de risco. Quando a mídia conseguir multiplicar o desperdício com vacinações desnecessárias e forçar uma falsa “crise de racionamento” de vacinas talvez fique satisfeita. Poderá dizer que essa seria mais uma “demonstração” de “incompetência” do governo. Leiam a entrevista e tirem suas próprias conclusões.
DR. PEDRO SARAIVA: COLUNISTA COMETEU “EXERCÍCIO ILEGAL DA MEDICINA”
Atualizado em 18 de janeiro de 2008
POR PEDRO SARAIVA para o blog eu vi o mundo [1]
Caro Azenha, sou médico clínico geral e nefrologista formado pela UFRJ. Sou seu leitor assíduo, e resolvi escrever-lhe para ver se pelo menos aqui, no seu blog, um médico consegue espaço para falar sobre essa histeria que envolve a febre amarela.
A cobertura da grande imprensa parece que não consegue chegar ao fundo do poço. Depois de inúmeros factóides e de acusar o presidente até de derrubar aviões comerciais, eles agora aparecem com essa irresponsabilidade de criar pânico na população através de um problema de saúde pública. Tive acesso a um texto da jornalista da Folha, Eliane Cantanhêde (que aliás, parece ser casada com um dos donos de uma produtora ligada as campanhas eleitorais do PSDB), que dizia o seguinte logo no primeiro parágrafo:
“Com sua licença, vou usar este espaço para fazer um apelo para você que mora no Brasil, não importa onde: vacine-se contra a febre amarela! Não deixe para amanhã, depois, semana que vem… Vacine-se logo! ”
E depois de alguns parágrafos em que não esclarece nada, termina assim:
“O fantasma da febre amarela, portanto, paira sobre o país como um alerta num momento crucial, para que a saúde e a educação sejam preservadas antes de tudo o mais. Senão, Lula, o aedes aegypti vem, pica e mata sabe-se lá quantos neste ano –e nos seguintes. ”
ABSURDO! ESTÃO USANDO A SAÚDE PÚBLICA PARA POLITICAGEM BARATA!
Alguns esclarecimentos:
Colunistas falam de epidemia com uma facilidade incrível para quem não entende o que quer dizer o termo. Epidemia não é o aparecimento de casos de uma doença no jornal. Uma epidemia só se caracteriza quando ocorre um aumento maior que 2x o desvio padrão sobre a incidência média de uma doença nos últimos anos.
Ou seja: Incidência média + 2x desvio padrão.
Não vi até agora nenhum jornal mostrar a incidência da febre amarela nos últimos 10 anos para uma comparação. Repare na média de casos do período FHC e Lula, será por isso que ninguém mostra os números?
1996 – 15 casos
1997 – 3 casos
1998- 34 casos
1999 – 76 casos
2000- 85 casos e 42 mortes
2001 – 41 casos e 22 mortes
2002 – 15 casos e 6 mortes
2003 – 64 casos e 22 mortes – obs: 58 dos casos diagnosticados na região sudeste, principalmente MG
2004 – 5 casos e 3 mortes
2005 – 3 casos e 3 mortes
2006 – 2 casos e 2 mortes
2007 – 6 casos e 5 mortes
(fonte : Min.Saúde)
Todos esses casos são da forma de transmissão em área silvestre da febre amarela. Desde a década de 1940 que não há relatos da transmissão urbana da febre amarela. Veja bem, transmissão em zona urbana é diferente de diagnóstico em zona urbana. A forma silvestre é endêmica pincipalmente nas regiões Norte e Centro-Oeste e se comporta de forma cíclica, com surtos a cada 5-7 anos
A transmissão em área silvestre é feita pelo mosquito do género Haemagogus, e se dá através, principalmente, de macacos infectados para humanos não imunizados por vacina. A forma urbana é transmitida do homem para homem através do Aedes aegypti, o mesmo da dengue. O risco de retorno da forma urbana não é novo, e existe desde a década de 80 quando houve a reintrodução do Aedes aegypti no Brasil.
Até o momento (15/01/08), apesar de toda histeria, apenas 2 casos foram comprovadamente de febre amarela este ano. E todos contraídos em áreas silvestres. Ou seja, nada de anormal.
Feitos os esclarecimentos, vamos aos comentários sobre a cobertura da mídia.
1- Estão noticiando morte de macacos, supostamente com febre amarela, como se isso fosse um sinal de que a doença está fora de controle. O pior, vários dos macacos noticiados tiveram exame negativo para febre amarela. Ou seja, estão noticiando apenas morte de macacos.
2- Estão noticiando as mortes por febre amarela como um fato novo do governo Lula, como se ninguém morresse da doença nos anos anteriores. Estão confundindo a ausência de casos urbanos com ausência de casos em geral.
3- E o mais grave, estão criando pânico na população e levando a uma corrida desnecessária e prejudicial aos postos de vacinação. Os comentários dos leitores nas edições da internet do Globo por exemplo, são assustadores. A mídia informa mal os leitores, e deixa que o boca-a-boca crie teorias da conspiração contra o governo.
A vacina da febre amarela não é vitamina C. Ela é feita com vírus vivo atenuado e por isso apresenta contra-indicações e efeitos colaterais. Quem não mora em área de risco ou não vai viajar para uma, não precisa e não deve receber a vacina. Além de tudo, ainda há o risco de falta da vacina para quem precisa.
Contra- indicações
? Crianças com 4 meses ou menos de idade, devido ao risco de encefalite viral (contra-indicação absoluta).
? Gestantes, em razão de um possível risco de infecção para o feto.
? Pessoas com imunodeficiência resultante de doenças ou de terapêutica: infecção pelo HIV, neoplasias em geral (incluindo leucemias e linfomas ), Aids, uso de medicações ou tratamento imunossupressores (corticóides, metotrexate, quimioterapia, radioterapia), disfunção do timo (retirada cirúrgica ou doenças como miastenia gravis, síndrome de DiGeorge ou timoma).
? Pessoas que tenham alergia a ovos, uma vez que a vacina é preparada em ovos embrionados.
? Pessoas com alergia a eritromicina, um antibiótico que faz parte da composição da vacina.
? Pessoas com alergia a gelatina, que faz parte da composição da vacina.
? Pessoas com antecedentes de reação alérgica a dose prévia da vacina anti-amarílica.
Efeitos colaterais.
? Reação alérgica grave (anafilática) ocorre em aproximadamente 1 em cada 131.000 doses aplicadas.
? Reações no sistema nervoso central (encefalite) – cerca de 1 caso para cada 150.000 – 250.000 doses.
? Comprometimento de múltiplos órgãos com o vírus da febre amarela vacinal – aproximadamente 1 caso para cada 200.000 – 300.000 doses. Acima de 60 anos a incidência desta complicação é maior (cerca de 1 caso para cada 40.000 – 50.000 doses). Mais da metade dos indivíduos com febre amarela vacinal evoluem para o óbito.
Se na remota hipótese de alguém morrer por tomar desnecessariamente a vacina a Sra.Eliane Cantanhêde vai se responsabilizar? Ou vai culpar o governo de novo?
Em vez de focar nos inúmeros problemas reais do nosso sistema de saúde, a imprensa prefere criar factóides que em nada ajudam a população.
Comentários adicionais de Luiz Carlos Azenha no Blog Eu vi o mundo
Luiz Carlos Azenha (18/01/2008 – 01:22)
Do Terra: “Duas pessoas foram internadas depois de tomar duas doses da vacina contra a febre amarela no Distrito Federal em menos de dois dias. Um jovem de 20 anos foi internado com hepatite e uma mulher foi atendida em um hospital com choque anafilático. A informação é do DFTV.”
Comentários adicionais de Pedro Saraiva no Blog Eu vi o mundo
Pedro Saraiva (16/01/2008 – 05:06)
Azenha, deixe-me complementar meu e-mail com algumas outras informações. Como eu já escrevi anteriormente, a febre amarela silvetre é transmitida através do mosquito do género Haemagogus, picando macacos infectados e e depois humanos não imunizados. Por conta disso, desde 1999 que há um sistema de vigilância e notificação de epzootias, ou seja, novos surtos de uma doença em macacos, que pode ser febre amarela ou não. Desta maneira consegue-se interromper o ciclo da febre amarela, antes que esta chegue aos humanos, através da vacinação das populações de regiões próximas e de um maior controle sobre a populaçao de mosquitos. Nos últimos meses houve um aumento nas notificações de mortes de macacos em 9 estados brasileiros, porém apenas em Goiás foi confirmado a epzootia por febre amarela. Não necessariamente os outros macacos morreram desta mesma causa, mas mesmo assim, houve por parte do ministério da saúde uma orientação para que os municípios destas regiôes intensificassem as campanhas de vacinação. As epzootias ocorrem regularmente no ambiente silvestre e não há meios de se controlar. Obviamente que o constante desmatamento e o avanço das áreas urbanas em direção às florestas, contribui para uma maior exposição do homem a doenças restritas àqueles ambientes. Pelo o que eu fiquei sabendo através da imprensa, as 5 mortes ocorridas este mês foram da forma silvestre, e ocorreram em pessoas não imunizadas que entraram nas regiôes de risco. Se as 5 tivessem sido vacinadas (e nestes casos a vacinação era indicada), não teriam contraído a doença. Segundo o Governo Federal, nos últimos meses, somente em Goiás e DF, mais de 1 milhão de pessoas foram vacinadas . Isto sem contar com as pessoas vacinadas há menos de 10 anos, e que ainda se apresentam imunes. Essa conduta interromperá o ciclo de infecções que ocorre neste início de ano. No momento não existe critério para se classificar esses casos como epidemia. Doenças infecciosas, seja febre amarela, meningite, ou até conjutivite apresentam ciclos de surtos com aumentos pontuais da incidência. Aconteceu em em 1993, 1999, 2000, 2003 e novamente agora. Respondendo algumas perguntas e reforçando alguns conceitos: A vacina é extremamente segura e eficaz. Respeitando-se as indicações e contra-indicações, o risco de evento adverso é mínimo. Ainda não chegou ao meu conhecimento algum caso de morte recente pela vacina. Mas o risco existe, e quanto mais gente for vacinada, e menor for controle em cima das contra-indicações, maior será a probabilidade disto ocorrer. Não encontrei estatísticas brasileiras sobre mortalidade. Talvez um epidemiologista ou infectologista tenha estes dados. Os números que eu expus no e-mail são do CIVES da UFRJ. O que deve ser entendido é que, qualquer droga, seja vacina ou uma simples aspirina, pode causar efeitos colaterias graves e morte. Por isso só deve ser tomada com indicação médica. É tudo uma questão de risco/benefício. Aqui no Rio por exemplo, o benefício da vacinação é nulo, então por menor que seja o risco, ele será sempre maior. Até aonde eu sei, as exigências de vacinação para brasileiros e turistas continuam as mesmas. Vacinação somente para quem vai viajar para áreas de risco.
Pedro Saraiva (17/01/2008 – 20:21)
Comentando a resposta da jornalista Eliane Cantanhêde: 1- O alerta já havia sido dado pelo governo quando solicitou que a população das áreas de risco se vacinassem. O que deve ser feito, já esta sendo feito. E começou há meses e não agora. 2- Alertas em saúde pública devem ser dados por autoridades e especialistas, não por curiosos. E o que ela fez não foi somente um alerta. 3- A sra. Eliane não cursou faculdade de medicina e nem tem CRM para sair publicamente indicando tratamento para as pessoas. Quando ela, sem base científica nenhuma, orienta as pessoas a receber uma droga (uma vacina no caso) ela pode e deve ser criticada, sim. E se ela chama isso de censura, eu também posso chamar o que tem feito de exercício ilegal da medicina. 4- Quando a jornalista usa os pacientes que faleceram como prova de que ela estava certa, ela apenas causa mais confusão nas pessoas. É óbvio que pessoas não imunizadas, que viajarão para áreas de risco, devem tomar a vacina. Nunca ninguém disse o contrário. A crítica é em relação a vacinação desnecessária. O texto dela continuará errado, independentemente do número de casos que ainda venham a aparecer. 5- Me incomoda o fato dela ser incapaz de reconhecer o exagero do seu texto e repetir o erro na coluna seguinte. Para mim, isso é sinal de despreparo para exercer uma trabalho tão importante e de tanta responsabilidade como o jornalismo. Abraços e obrigado pelo espaço
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[1] blog Vi o Mundo: http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/pedro-saraiva-em-2000-brasil-teve-85-casos-e-42-mortes-por-febre-amarela/
[2] Sobre o papel do Estado: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/sobre-o-papel-do-estado/
[3] Tem São Paulo demais: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/tem-sao-paulo-demais/
[4] EDITORIAL do Cadernos do desenvolvimento do centro Celso Furtado: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/editorial-do-cadernos-do-desenvolvimento-do-centro-celso-furtado/
[5] País perdeu os 'anos de ouro' da economia mundial: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/pais-perdeu-os-anos-de-ouro-da-economia-mundial/
[6] Espantando o vôo de galinha: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2007/09/espantando-o-voo-de-galinha/
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