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Desafios do século XXI

Posted By Rodrigo Medeiros On 2 janeiro, 2008 @ 5:16 pm In Desenvolvimento,Rodrigo Medeiros | No Comments

Rodrigo Loureiro Medeiros*

“(…) estabelecer prioridades em função de objetivos sociais coerentes e compatíveis com o esforço de acumulação seria a única forma de liberar a economia da tutela das grandes empresas”. – Celso Furtado, O mito do desenvolvimento econômico (Paz e Terra, 1974).

Considerado pela ONU como o Ano Internacional do Planeta Terra, 2008 promete interessantes debates desenvolvimentistas. Embora já se tenha adentrado formalmente no século XXI, observa-se a tradicional inércia brasileira. Certamente essa assertiva vale para muitos países ibero-americanos. Divididos pelo enfrentamento de problemas do passado e os desafios do futuro, essas sociedades escorregam no presente.

Uma coisa é clara: dificilmente os desafios do presente podem ser integralmente superados com soluções do passado. O mundo se tornou mais complexo, mais acelerado e menos generoso. Países retardatários não podem, portanto, contar com a boa vontade do sistema internacional.

Até mesmo as instâncias do sistema multilateral não conseguem esconder as tensões do presente. Um exemplo claro foi a divulgação do relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas das Nações Unidas.

O diagnóstico de que o modelo econômico derivado da Revolução Industrial é predador e insustentável não vem agradando aos radicais de plantão. Ao perceber o desenvolvimento das sociedades organizadas como conseqüência do processamento dos clássicos fatores de produção – capital (K), trabalho (L) e natureza (T) -, o respectivo paradigma mostra-se incompatível com a sustentabilidade sócio-ambiental, quando não antidemocrático como o demonstra o caso chinês.

Os seres humanos e a natureza seriam passíveis ainda de exploração em nome do progresso? Para quem observa o que se passa nas principais regiões metropolitanas brasileiras, a constatação é óbvia. O desenvolvimento econômico a qualquer custo cobra o seu preço, cedo ou tarde.

Os novos paradigmas concebidos nos últimos 30 anos percebem a relação entre capital humano, democracia política e desenvolvimento sustentado. Por ser uma concepção que deriva do associativismo, das redes organizacionais integradas por pequenas e médias empresas e da formação do capital social, trata-se de uma perspectiva estruturada a partir dos fluxos inter-regiões e da construção das respectivas vantagens comparativas dinâmicas.

As complementaridades entre Estado e mercado proporcionam a emergência e a viabilidade dos empreendimentos. Não se faz produtivo discutir a escala de intervenção estatal, mas sim o modo como ela se manifesta eficazmente, porque a disponibilidade de recursos é gradualmente ultrapassada pelo caráter evolucionário do processo. Instituições efetivamente republicanas são indispensáveis.

Como se pode esperar superar desafios da economia global em um contexto de mudanças aceleradas? Diversos estudos têm apontado para a redução do ciclo de vida dos produtos e o caráter central do aprendizado social para o sucesso das organizações. Mesmo no mundo anglo-saxão, a dinâmica das mudanças impõe novos desafios.

Para citar um exemplo concreto, 42% dos norte-americanos punem marcas condenadas socialmente, isto é, deixam efetivamente de comprá-las. Na Europa, o quadro não difere muito. Pressões sociais manifestadas nas suas agências ambientais buscam fazer com que as indústrias responsabilizem-se por todo o ciclo de vida de seus produtos.

Muitos podem argumentar que se trata de uma brecha para um protecionismo velado da parte dos países ricos, o que pode até ser verdade em alguma medida. No entanto, paradigmas de sustentabilidade sócio-ambiental já se mostram viáveis e rentáveis do ponto de vista econômico.

Muitas organizações saltaram na frente, preferindo não aguardar pela regulamentação das agências ambientais ou mesmo por incentivos fiscais. Práticas de reciclagem criando novos mercados, novas tecnologias de produção e racionalizações de consumo ilustram o quadro presente.

Os desafios do século XXI são complexos e dificilmente poderão ser enfrentados com êxito por comitês opacos e acordos de bastidores. A sociedade brasileira precisa ter chances de participar democraticamente e organizadamente do processo. É o mínimo que se espera de um país republicano.

*Pesquisador associado à Reggen/Unesco.


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