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LULA CONFUNDE TUDO !!! A linguagem do preconceito por Kucinski

Posted By Imprensa On 12 janeiro, 2008 @ 1:56 pm In Comentários sobre a Imprensa Brasileira,Política Brasileira | 4 Comments

 Revista do Brasil [1]

Virou moda dizer que “Lula não entende das coisas”. Ou “confundiu isso com aquilo”. É a linguagem do preconceito, adotada até mesmo por jornalistas ilustres e escritores consagrados

Por Bernardo Kucinski

Um dia encontrei Lula, ainda no Instituto Cidadania, em São Paulo, empolgado com um livro de Câmara Cascudo sobre os hábitos alimentares dos nordestinos. Lula saboreava cada prato mencionado, cada fruta, cada ingrediente. Lembrei-me desse episódio ao ler a coluna recente do João Ubaldo Ribeiro, “De caju em caju”, em que ele goza o presidente por falar do caju, “sem conhecer bem o caju”. Dias antes, Lula havia feito um elogio apaixonado ao caju, no lançamento do Projeto Caju, que procura valorizar o uso da fruta na dieta do brasileiro.

“É uma pena que o presidente Lula não seja nordestino, portanto não conheça bem a farta presença sociocultural do caju naquela remota região do país…”, escreveu João Ubaldo. Alegou que Lula não era nordestino porque tinha vindo ainda pequeno para São Paulo. E em seguida esparramou citações sobre o caju, para mostrar sua própria erudição. Estou falando de João Ubaldo porque, além de escritor notável, ele já foi um grande jornalista.

Outro jornalista ilustre, o querido Mino Carta, escreveu que Lula “confunde” parlamentarismo com presidencialismo. “Seria bom”, disse Mino, “que alguém se dispusesse a explicar ao nosso presidente que no parlamentarismo o partido vencedor das eleições assume a chefia do governo por meio de seu líder…” Essa do Mino me fez lembrar outra ocasião, no Instituto Cidadania, em que Lula defendeu o parlamentarismo.

Parlamentarista convicto, Lula diz que partidos são os instrumentos principais de ação política numa democracia. Pelo mesmo motivo Lula é a favor da lista partidária única e da tese de que o mandato pertence ao partido. Em outubro de 2001, o Instituto Cidadania iniciou uma série de seminários para o Projeto Reforma Política, aos quais Lula fazia questão de assistir do começo ao fim. Desses seminários resultou um livro de 18 ensaios, Reforma Política e Cidadania, organizado por Maria Victória Benevides e Fábio Kerche, prefaciado por Lula e editado pela Fundação Perseu Abramo.

Clichês e malandragem
Se pessoas com a formação de um Mino Carta ou João Ubaldo sucumbiram à linguagem do preconceito, temos mais é que perdoar as dezenas de jornalistas de menos prestígio que também dizem o tempo todo que “Lula não sabe nada disso, nada daquilo”. Acabou virando o que em teoria do jornalismo chamamos de “clichê”. É muito mais fácil escrever usando um clichê porque ele sintetiza idéias com as quais o leitor já está familiarizado, de tanto que foi repetido. O clichê estabelece de imediato uma identidade entre o que o jornalista quer dizer e o desejo do leitor de compreender. Por isso, o clichê do preconceito “Lula não entende” realimenta o próprio preconceito.

Alguns jornalistas sabem que Lula não é nem um pouco ignorante, mas propagam essa tese por malandragem política. Nesse caso, pode-se dizer que é uma postura contrária à ética jornalística, mas não que seja preconceituosa. Aproveitam qualquer exclamação ou uso de linguagem figurada de Lula para dizer que ele é ignorante. “Por que Lula não se informa antes de falar?”, escreveu Ricardo Noblat em seu blog, quando Lula disse que o caso da menina presa junto com homens no Pará “parecia coisa de ficção”. Quando Lula disse, até com originalidade, que ainda faltava à política externa brasileira achar “o ponto G”, William Waack escreveu: “Ficou claro que o presidente brasileiro não sabe o que é o ponto G”.

Outra expressão preconceituosa que pegou é “Lula confunde”. A tal ponto que jornalistas passam a usar essa expressão para fazer seus próprios jogos de palavras. “Lula confunde agitação com trabalho”, escreveu Lucia Hippolito. Empregam o “confunde” para desqualificar uma posição programática do presidente com a qual não concordam. “O presidente confunde choque de gestão com aumento de contratações”, diz o consultor José Pastore, fonte habitual da imprensa conservadora.

Confunde coisa alguma. Os neoliberais querem reduzir o tamanho do Estado, o presidente quer aumentar. Quer contratar mais médicos, professores, biólogos para o Ibama. É uma divergência programática. Carlos Alberto Sardenberg diz que Lula “confundiu” a Vale com uma estatal. “Trata-a como se fosse a Petrobras, empresa que segundo o presidente não pode pensar só em lucro, mas em, digamos, ajudar o Brasil.” Esse caso é curioso porque no parágrafo seguinte o próprio Sardenberg pode ser acusado de confundir as coisas, ao reclamar de a Petrobras contratar a construção de petroleiros no país, apesar de custar mais. Aqui, também, Lula não fez confusão: o presidente acha que tanto a Vale quanto a Petrobras têm de atender interesses nacionais; Sardenberg acha que ambas devem pensar primeiro na remuneração dos acionistas.

Filosofia da ignorância
A linguagem do preconceito contra Lula sofisticou-se a tal ponto que adquiriu novas dimensões, entre elas a de que Lula teria até problemas de aprendizagem ou de compreensão da realidade. Ora, justamente por ter tido pouca educação formal, Lula só chegou aonde chegou por captar rapidamente novos conhecimentos, além de ter memória de elefante e intuição. Mas, na linguagem do preconceito, “Lula já não consegue mais encadear frases com alguma conseqüência lógica”, como escreveu Paulo Ghiraldelli, apresentado como filósofo na página de comentários importantes do Estadão. Ou, como escreveu Rolf Kunz, jornalista especializado em economia e também professor de filosofia: “Lula não se conforma com o fato de, mesmo sendo presidente, não entender o que ocorre à sua volta”.

Como nasceu a linguagem do preconceito? As investidas vêm de longe. Mas o predomínio dessa linguagem na crônica política só se deu depois de Lula ter sido eleito presidente, e a partir de falas de políticos do PSDB e dos que hoje se autodenominam Democratas. “O presidente Lula não sabe o que é pacto federativo”, disse Serra, no ano passado. E continuam a falar: “O presidente Lula não sabe distinguir a ordem das prioridades”, escreveu Gilberto de Mello. “O presidente Lula em cinco anos não aprendeu lições básicas de gestão”, escreveu Everardo Maciel na Gazeta Mercantil.

A tese de que Lula “confunde” presidencialismo com parlamentarismo foi enunciada primeiro por Rodrigo Maia, logo depois por César Maia, e só então repetida pelos jornalistas. Um deles, Daniel Piza, dias depois dessas falas, escreveu que “só mesmo Lula, que não sabe a diferença entre presidencialismo e parlamentarismo, pode achar que um governante ter a aprovação da maioria é o mesmo que ser uma democracia no seu sentido exato”.

Preconceito é juízo de valor que se faz sem conhecer os fatos. Em geral é fruto de uma generalização ou de um senso comum rebaixado. O preconceito contra Lula tem pelo menos duas raízes: a visão de classe, de que todo operário é ignorante, e a supervalorização do saber erudito, em detrimento de outras formas de saber, tais como o saber popular ou o que advém da experiência ou do exercício da liderança. Também não se aceita a possibilidade de as pessoas transitarem por formas diferentes de saber.

A isso tudo se soma o outro preconceito, o de que Lula não trabalha. Todo jornalista que cobre o Palácio do Planalto sabe que é mentira, que Lula trabalha de 12 a 14 horas por dia, mas ele é descrito com freqüência por jornalistas como uma pessoa indolente.

Não atino com o sentido dessa mentira, exceto se o objetivo é difamar uma liderança operária, o que é, convenhamos, uma explicação pobre. Talvez as elites, e com elas os jornalistas, não consigam aceitar que o presidente, ao estudar um problema com seus ministros, esteja trabalhando, já que ele é ” incapaz de entender” o tal problema. Ou achem que, ao representar o Estado ou o país, esteja apenas passeando. Afinal, onde já se viu um operário, além do mais ignorante, representar um país?

Fontes: João Ubaldo Ribeiro, O Estado de S. Paulo, 2/9/2007. Blog do Mino Carta, 16/11/2007. Blog do William Waack, 2/12/2007. Texto de Lúcia Hipólito no UOL, 24/07/2007. José Pastore, artigo no Estadão, 11/12/2007. Carlos Alberto Sardenberg, “De bronca com o capital”, Estadão, 10/12/2007. Filósofo Paulo Ghiraldelli, Estadão, 29/8/2007. Rolf Kunz, “Lula, o viajante do palanque”, Estadão, 29/11/2007. José Serra, em Folha On Line, 1º/8/2006, em reportagem de Raimundo de Oliveira. Gilberto de Mello, escritor e membro do Instituto Brasileiro de Filosofia, no Estadão de 2/8/2007, reproduzido no site do PSDB. Everardo Maciel, na Gazeta Mercantil de 4/10/2007. Rodrigo Maia, em declaração à Rádio do Moreno, 6/11/2007, 17h20. César Maia em seu blog, 12/11/2007. E Daniel Pizza em texto do Estadão de 2/12/2007.

Bernardo Kucinski é professor titular do Departamento de Jornalismo e Editoração da ECA/USP. Foi produtor e locutor no serviço brasileiro da BBC de Londres e assistente de direção na televisão BBC. É autor de vários livros sobre jornalismo


4 Comments (Open | Close)

4 Comments To "LULA CONFUNDE TUDO !!! A linguagem do preconceito por Kucinski"

#1 Comment By Gilson Teixeira On 12 janeiro, 2008 @ 10:44 pm

Arrogância é pretender ser o conhecedor dos fatos. Texto velho, idéias velhas, palavras enferrujadas. Parcialidade total, tipo jornalistinha engajado. Se não tivesse o nome pensaria eu ser um texto do jornalistinha de vários patrões: Nassif. Pedi quem me enviou o link não mais fazer. Que pena que perdi meu tempo lendo isso.

#2 Comment By Gustavo Santos On 13 janeiro, 2008 @ 12:31 pm

Caro Gilson,
você não disse qual o problema do texto. “Idéias velhas, palavras enferrujadas”… Isso também é preconceito!! O presidente tem muitos problemas já tomou várias decisões equivocadas. Mas de fato não podemos atribuir a ele adjetivos que vem de puro preconceito sem antes avaliar se são verdadeiros, não é?
Por exemplo, não é verdade que ele não trabalha. Também não é verdade que ele tem uma ignorância congênita. Isso é o que o texto está dizendo.
Ele só está dizendo que devemos ter um debate político mais racional e menos preconceituoso.
Aí sim, a partir disso poderemos criticar as decisões equivocadas tomadas pelo governo. Isso é o que importa.
abraços

#3 Comment By Rodrigo Medeiros On 13 janeiro, 2008 @ 5:44 pm

Prezado Gilson

Você tem todo o direito de discordar. Estamos em uma democracia, ainda que muito desequilibrada do ponto de vista sócio-político. Também não sou fã de carteirinha do presidente Lula, nem mesmo do seu núcleo político mais próximo.

Lula não é um idiota. Ninguém chega à Presidência da República sendo um imbecil. Para chegar lá se passa por muita coisa na vida. Lula é uma espécie de self-made man. Uma trajetória de vida incrível. O seu governo tem certamente muitos erros e problemas.

Esperamos que você retorne ao nosso site para expor suas idéias com mais calma. Só a partir do debate franco e democrático poderemos almejar ser a nação desenvolvida que podemos ser.

Cordialmente,

Rodrigo Loureiro Medeiros

#4 Comment By Samuel Warth On 13 janeiro, 2008 @ 7:20 pm

Parabéns Prof. Bernardo Kucinski! O que mais precisamos ler neste mar de reacionarismo são textos de um jornalismo engajado, lúcido, corajoso. Engajado diria até que todos são, pois na chamada ‘grande imprensa’ é comum o esforço de colunistas e “especialistas
de catiporra” (como diria Carlos Gardel se estivesse vivo) em dissimular suas tendências direitistas e fazer do ideário tucano-pefelista textos com a aura pretensiosa de ‘análise científica’.
Jornalistas engajados na luta por uma sociedade igualitária e mais justa são poucos mas bons. Entre eles, nosso Bernardo Kucinski.
PS: Engraçado: assim como os políticos tradicionais, não temos jornalistas de direita, todos se consideram democráticos…


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[1] Revista do Brasil: http://www.revistadobrasil.net/midia.htm

[2] Mentindo ao próprio umbigo: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/01/mentindo-ao-proprio-umbigo/

[3] HÁ QUEM DIGA A VERDADE: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/01/ha-quem-diga-a-verdade/

[4] Do Blog do Rovai: Tucano é símbolo de campanha do governo Serra: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/01/do-blog-do-rovai-tucano-e-simbolo-de-campanha-do-governo-serra/

[5] Amazônia serve para Desenvolvimento Social?: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/01/amazonia-serve-para-desenvolvimento-social/

[6] Nota Técnica sobre Febre Amarela: http://www.desenvolvimentistas.com.br/desempregozero/2008/01/nota-tecnica-sobre-febre-amarela/

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