UM MILAGRE DE SANTO ANTÔNIO ???
Escrito por NOSSOS AUTORES, postado em 16 dEurope/London dezembro dEurope/London 2007
Roberto d’Araujo
Que eu saiba, no Brasil, Santo Antônio tem fama de ser casamenteiro. Também é muitas vezes invocado para achar objetos perdidos. Mas, o caso da usina de Santo Antônio no rio Madeira provocou um espanto tão grande que dá para pensar que o santo agora é também o milagreiro dos leilões.
O leilão foi vencido pelo Consórcio Madeira Energia: Odebrecht Investimentos em Infra-estrutura Ltda. (17,6%); Construtora Norberto Odebrecht S.A. (1%); Andrade Gutierrez Participações S/A. (12,4%); Cemig Geração e Transmissão S/A (10%); Furnas Centrais Elétricas S/A (39%) e Fundo de Investimentos e Participações Amazônia Energia (FIP – formado pelos bancos Banif e Santander) (20%). Em pouco menos de 10 minutos o consórcio arrematou o direito de explorar o potencial oferecendo uma tarifa de R$ 78,87 /MWh. Seria uma surpresa, dado os preços dos últimos leilões de novas hidroelétricas que giraram no entorno de R$ 120/MWh?
Infelizmente, não há milagres na energia elétrica brasileira. Para tentar compreender as condições totalmente terrenas e humanas do caso, venho lembrar algumas questões que, dada a complexidade do atual sistema, são pouco conhecidas da grande maioria da sociedade brasileira.
Já com receio de ser enfadonho, começo recordando o bizarro adágio do setor elétrico brasileiro já descrito no artigo “Um setor esquizofrênico”. Uma usina brasileira não vende a energia que gera! Vende um certificado, um valor atribuído por uma complexa metodologia de simulação que estima a operação futura de todo o sistema com a presença daquela usina. Como já tentei explicar no artigo mencionado, esquisitice inventada pela necessidade de se implantar um sistema mercantil, à imagem do modelo inglês, ao nada semelhante setor elétrico brasileiro. Mas, o que Santo Antônio, a usina, tem a ver com isso?
A futura usina será localizada no Rio Madeira, bem próxima à capital Porto Velho, a 1500 km de distância de Cuiabá. Porque Cuiabá é importante? Porque, a grosso modo, pode-se dizer que ali chega a “fronteira” da rede básica, um sistema de transmissão pago por todos os consumidores, uma espécie de rede em condomínio.
Agora, observem um pequeno detalhe: A potência da futura usina terá 3150 MW instalados e a sua energia assegurada, o tal certificado, chega a 2218 MW médios. Esse valor é o que os concessionários poderão comercializar. Dividindo os 2218 MW pela potencia total, chega-se a um fator de capacidade de 70%, um valor bem mais alto do que os típicos 55% da grande maioria das usinas do sistema. Isso significa que o MW instalado em Santo Antonio é capaz de comercializar quase 30% a mais do que as outras usinas do sistema. Seria uma usina mais “eficiente” e, portanto, já não há razão para tanto espanto com seu preço mais baixo. Por isonomia, com uma energia assegurada 30% acima das leiloadas por R$ 120/MWh, um preço de R$ 84/MWh não seria nenhuma surpresa.
Mas, que mistério é esse que faz com que a usina tenha essa vantagem? Seriam maquinas mais modernas? Nada disso! É preciso lembrar que o certificado é obtido através de uma simulação de todo o sistema. Nessa simulação, assume-se que toda energia dos 3500 MW poderão ser transmitidos para os centros de carga da região sudeste e centro-oeste, bem mais distantes do que os 1500 km de Cuiabá. Ou seja, o sistema de transmissão deve ser capaz de escoar toda essa energia, senão, no mundo real, a usina não terá os 2218 MW médios assumidos. Assim, entende-se que não basta conectar a usina a Cuiabá. É preciso reforçar toda a rede. Portanto, há um “custo” indiretamente associado à usina de Santo Antonio que será pago por todos.
Uma segunda razão para o preço ser baixo é o fato de que FURNAS e ODERBRECHT estudam esse projeto desde 2001. Caso perdessem o leilão, seriam apenas ressarcidas pelos estudos que fizeram. Quem aceitaria tal prêmio de consolação? Assim, quem garante que alguns “segredos” não constam do estudo de inventário publicado para o leilão? Esse é outro problema do modelo mercantil. A não ser quando os estudos prévios ao leilão são feitos pela Empresa de Pesquisa Energética, qualquer consórcio pode usar desse artifício. Afinal, não se está leiloando usinas térmicas, todas semelhantes. Uma hidráulica é única e é muito fácil esconder técnicas de engenharia no bolso do colete.
A terceira razão pode estar no acordo feito na montagem do consórcio. Será que FURNAS, detendo 39% do investimento, terá participação na parcela da energia destinada ao mercado livre, supostamente mais rentável, ou vai assumir apenas a parcela do mercado regulado?
A quarta e última razão está na morte anunciada da concorrência na próxima usina do Madeira, Jirau, distante uns 100 km da primeira. Ou alguém acha que será possível uma outra empresa mobilizar novas máquinas, mão de obra e equipamentos sem a vantagem de já ter tudo isso pronto nas vizinhanças?
Resumindo, com tantos motivos para ser barata, R$ 78,87/MWh não é nenhum grande feito do governo e, muito menos, um milagre de Santo Antonio.
Roberto Pereira d’ Araujo: Engenheiro Eletricista e Mestre em Sistemas e Controle pela PUC-RJ. Pós-Graduação em Operation Planning pela Waterloo University. Foi Chefe de Departamento de Mercado em Furnas Centrais Elétricas. Ex-membro do Conselho Administrativo de Furnas. Consultor na área de energia elétrica. Meus Artigos










